terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Presunção

 
Falemos claro. Está criado em largos setores da sociedade portuguesa o sentimento de que José Sócrates é culpado. O “esquema” das ligações financeiras, que alguém passou à comunicação social para credibilizar a “operação Marquês”, caiu como “sopa no mel” na convicção de quantos, de há muito, tinham o antigo primeiro-ministro como um potencial, ou mesmo consumado, delinquente. O que agora sucedeu só vem confortar aquilo em que sempre acreditaram. Julgo mesmo que, para essas pessoas, dificilmente é concebível outro desfecho que não seja a prisão por longo tempo de José Sócrates.
 
José Sócrates não beneficia assim da presunção de inocência, em grande parte da opinião pública. Pelo contrário, há mesmo uma forte presunção de culpabilidade que o afeta e que, nos dias de hoje, leva muitas pessoas a tentar apenas saber como se passaram as coisas e, em nenhuma hipótese, se esses factos são ou não verídicos ou se, sendo-o, pode haver para eles alguma simples e plausível justificação.
 
A perplexidade perante as acusações a José Sócrates atingem também, não vale a pena escondê-lo, muita gente que tem por ele um real apreço e que valoriza muito daquilo que fez como governante. Gente que não se revê no labéu de um Sócrates “coveiro” do país e que tem a sua leitura para o que aconteceu em termos financeiros até 2011. Inundadas por notícias que remam todas no mesmo sentido, muitas dessas pessoas mantêm a esperança de que Sócrates seja capaz de clarificar tudo e desmontar a operação instalada à sua volta. Outros há ainda que, escudados no que foi a falta de fundamento para outras acusações surgidas no passado, alimentam a tese de uma cabala urdida pelos operadores judiciários.
 
Muito se tem falado sobre o papel da comunicação social neste processo. Grande parte dos meios de comunicação, confessando-o ou não, já tomou partido e esse partido não é o de José Sócrates. Não vale a pena negar nos editoriais o que os títulos não escondem.
 
Sobre este assunto eu sei tanto como o leitor, isto é, nada. Como me recuso a deixar-me cair no “achismo”, vou acompanhando as notícias, sou delas dependente e procuro pensar friamente.
 
Tenho, porém, duas certezas.
 
Se José Sócrates fosse culpado por atos que tivesse cometido no exercício das suas funções de Estado, por ações ou omissões dolosas que pudessem ter traído a confiança que milhões de portugueses nele depositaram, tratar-se-ia de algo muito mais grave do que os próprios delitos. A vida pública concede a um grupo restrito de cidadãos a possibilidade de, por mandato de outros, gerirem o país. Quem trai este compromisso merece o opróbrio definitivo.
 
Se o caso contra José Sócrates não for suficientemente sólido, se do trabalho dos acusadores viesse a sair apenas um novelo de suspeições circunstanciais, um pacote de meras convicções, estaríamos perante uma canalhice sem nome, uma ação miserável sobre um homem, que credibilizaria então todas as suspeições que existem sobre a instrumentalização do setor da Justiça.
 
Artigo que hoje publico no "Diário Económico"

20 comentários:

Um Jeito Manso disse...

Muito bem, Embaixador, é isso mesmo.

Justina Costa disse...

E se na verdade José Sócrates for culpado, que nos vai dizer o Carissimo Embaixador ?

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Anónimo da 1.39: o que está no penúltimo parágrafo, não leu?

Anónimo disse...

Eu dele apenas me lembro de dizer qualquer coisa do género: "As dívidas dos Países não são para se pagar. São para gerir eternamente...."

Onde cabe na cabeça de alguém dizer isto?????

Anónimo disse...

Não gosto de Sócrates, mas custa-me ver um ex-PM preso, com acusações de corrupção. Espero que a. acusação consiga apresentar provas convincentes, pois de.outra maneira a justiça cairia em descrédito. Surpreende-me também a existência de alguns lapsos, como é possível que dois outros arguidos chave no processo possam ter estado 48:00 na mesma cela, podendo trocar ideias e preparar uma defesa comum, que possa servir para dificultar o trabalho da justiça. Um exemplo disso é que o motorista de Sócrates, que se tinha recusado a prestar declarações agora já afirma estar disponível para ser ouvido.

Anónimo disse...

Conclusões muito justas
João Vieira

José Martins disse...

Acho estranho que pessoas inteligentes não consigam lidar com o simples facto, fácil de constatar, de Sócrates ter andado a gastar muitíssimo mais dinheiro do que alguma vez teria podido amealhar através dos seus vencimentos. A sua culpa é auto-explicativa, ou não? Ou encontrou uma mala cheia de notas no meio da rua?

Anónimo disse...

"Não vale a pena perder tempo com a violência do manifesto do eng. Sócrates, anteontem publicado no Diário de Notícias. Toda a gente que ele ataca não abriu a boca. Os políticos não comentaram, os jornalistas não comentaram, os professores de Direito não comentaram e “as pessoas decentes” com certeza que não leram aquela diatribe de autopiedade e fúria. Ainda por cima, Sócrates não percebeu que para fabricar uma polémica precisava de quem se dispusesse a discutir com ele. Não basta que ele se torça de raiva ou que insulte este mundo e o outro, se não tiver resposta; e ele já anda pelas páginas “mortas” dos jornais. Claro que o “animal feroz” não se calará. Mas não me cheira que o país se rale com isso, nem que o PS se ache no dever de o carregar por muito mais tempo.

Vasco Pulido Valente no Público.

Joaquim de Freitas disse...

De qualquer maneira, a verdade não receia as questões. Mas é um facto que os homens políticos podem ser desconcertantes. Penso frequentemente no caso Cahuzac. Voilà um ministro do Orçamento absolutamente competente, dotado dum carisma excepcional, dominando perfeitamente os seus dossiês perante as questões na Assembleia Nacional, que respirava a confiança e a quem alguns começavam mesmo a creditar dum destino presidencial. Eu admirava-o, até ao dia em que ele mesmo disse a verdade: que tinha mentido. Milhões de Franceses foram enganados, e desde esse dia o partido socialista começou a sua lenta descida aos infernos. E para lá vai de certeza. O que é grave para o futuro da França.
Não comparo com o caso Sócrates, que não conheço e, como o Senhor Embaixador, também não sei se está inocente ou culpado. Mas que deve beneficiar da presunção de inocência, claro, o que é o seu direito.
Os homens políticos são muito mal vistos pelo povo. Nem todos são culpados, mas a nódoa alastra todos os dias, por toda a parte.
Muitos os vêem incapazes de melhorar a sorte do povo, sem convicções reais, mas simplesmente com um objectivo: ganhar mais dinheiro e poder.
Vêem perante os eleitores porque estamos em democracia. O mundo é individualista, a crise é profunda, não vão fazer milagres, mas há uma carreira a levar para a frente e ela passa pela eleição.
Poderiam quase dizer nos seus discursos: elegendo-me, não sereis mais ricos nem mais felizes, mas não sereis menos ricos nem menos felizes... com os meus concorrentes! Só que deveis escolher um, então que esse seja eu!
Agora eis o meu programa: não tenho nenhuma intenção de respeitar as minhas promessas (seria único!) e de todas as maneiras não tenho os meios – nem a vontade aliás – e o facto que uma vez eleitos não me podem pôr na rua me permite de sonhar um pouco!
Mas quero falar a verdade: Assim, desde que serei investido:
a) Aumentarei os impostos de maneira discreta e injusta, sem que isso vos arruíne COMPLETAMENTE.
b) Colocarei a minha família e os meus amigos.
c) Vender-me-ei aos que me oferecerem mais para conceder créditos, subvenções, mercados.
d) Aproveitarei todas as vantagens inerentes à minha função, discretamente para não vos ofender.
e) Farei crer que tudo vai bem, mesmo se vos peço de fazer mais esforços; esforços que nunca mais acabam.
Que dizer doutro? Olhem à vossa volta: todos fazem como eu. Se quiserem posso-vos prometer de pôr todos os estrangeiros lá fora, de aumentar os impostos dos ricos ou de os suprimir, de conceder créditos para a escola ou para o estádio de futebol, pouco importa, de qualquer sou eu sempre a ganhar!
De qualquer maneira, o que eu fizer poderá ser desfeito pelos outros se não me reelegerem!
E querem saber mais: Considerai-vos felizes que me obriguem ainda a este espectáculo inútil e improdutivo das eleições que se chama "democracia", e que vos seja ainda oferecido este momento para sonhar, porque um dia pode muito bem terminar... num pesadelo!
Viva o Povo
Votai por mim!

Anónimo disse...

Sobre as dívidas não serem para se pagarem, recordo que os EUA, por exemplo, se endividam em excesso e nunca as pagam. O mesmo com Israel (que têm os EUA como fiador). Mas muitos outros países, incluindo da UE. O problema não é como diz o anónimo, mas saber gerir essa dívida. Nesse sentido, não creio pois que Sócrates tivesse dito algo errado. Até concedo que o seu último governo a soubesse gerir, se não tivesse sido derrubado por um conluio algo bizarro: PSD+CDS+PCP+BE+PV.
Já quanto aos outros dois arguidos em detenção preventiva, ao que li não estavam na mesma cela, ou seja, no mesmo compartimento celular, mas paralelos. O que, nem por isso, evitaria contactos que em teoria poderia prejudicar a investigação. Agora, não tenhamos ilusões, não é essa atitude que irá impedir uma boa investigação e inquérito, visto todos terem, como manda a lei nestes casos, um advogado de defesa, que, muito possivelmente, os poderá aconselhar, dependendo das circunstâncias, a simplesmente se manterem em silêncio, visto não serem obrigados a fazer declarações, que podem jogar contra eles. Caberá à Acusação (representada pelo Ministério Público e Juiz de Instrução Criminal) conseguir provar, sem apelo nem agravo, as acusações sobre os suspeitos detidos. Aqui, recordo que o procurador-adjunto que tem este processo em mãos, representando o MP, nunca conseguiu levar a bom termo qualquer acusação sobre os grandes casos que teve em mãos. Aguardemos pois como as coisas decorrerão no futuro próximo.
Tal como o autor deste Blogue, não tomo posição sobre este caso - até sentença transitada em julgado. Se a houver. Porque até pode suceder, embora pouco provável, que nem sequer haja julgamento.
Lourenço

Manuel Silva disse...

Senhor José Martins:
O senhor não pára de nos surpreender.
Veja só, agora é íntimo de Sócrates para saber os rendimentos que ele tem.
Eu não sei se ele se abotoou com massa ou não, nem tenho maneira de saber, pelos vistos o senhor já sabe, talvez já soubesse antes mesmo e ele ser preso.
Só espero que o Sistema Judicial seja capaz de apurar a verdade com justiça e isenção (embora isenção não tenha havido muita até agora, pois o segredo de justiça é violado diariamente de forma vergonhosa).
Só lamento que tantos outros casos de que se fala há anos tenham morrido na praia, mas isso são contas de outro rosário e sobre essas o senhor não se interessa.
O que lhe posso dizer é que o avô de Sócrates fez uma fortuna considerável com o negócio do volfrâmio.
Tinha 4 filhos, 2 de cada mulher. O irmão da mãe de Sócrates morreu há poucos anos no Brasil e deixou-lhe a fortuna. Isto é público.
De entre os bens que o avô de Sócrates deixou contam-se vários prédios em Lisboa e extensos terrenos na zona nobre de Setúbal. Em 1998 foi vendido um pequeno terreno comum dos 4 irmãos (2 pares de meios-irmãos) à Câmara de Setúbal, na escarpa de S. Nicolau para fazer um jardim, por 1,5 milhões de euros. E a Quinta das Laranjeiras, no centro da zona nova de Setúbal foi urbanizada em 1992 e eu comprei lá um andar por 18.300 contos (nem se sabia quem era Sócrates nessa altura). Foram vendidos 160 apartamentos e mais 16 lojas, veja a pipa de massa.
2 meios-tios de Sócrates, os irmãos Monteiros, conhecidos por «irmãos metralha», por serem sovinas apesar de podres de ricos, enquanto durou este negócio, um, o Eng.º Júlio Monteiro, vinha todos os dias de Cascais para Setúbal de Porche, o outro, Celestino Monteiro, vinha todos os dias desde a Almirante Reis para Setúbal de Porche. E trocaram de Porche durante os 2 0u 3 anos que durou a construção e a venda da urbanização.
Isto conheço eu da família de Sócrates, das suas origens pobretanas. O pai era arquitecto na Covilhã. Apesar disto corre na Net a versão de a mãe dele viver de uma reforma de 300 euros e de ter sido costureira em Cascais.
Lá se ele é culpado ou inocente: a Justiça que apure.
O senhor José Martins sabe que é culpado, já sabia antes de ele ser preso, não é?
Pois.
Por isso o senhor põe aqui comentários de alta sofisticação intelectual, devido a essa intuição divina, como aquele no post sobre Mário Soares e Freitas do Amaral e os prejuízos que ele lhe causou. Eu respondi-lhe na altura, não sei se leu.

Majo disse...

~
~ É lamentável que este blogue consinta pareceres anónimos.
~ Quando isto acontece, não comento, abro uma exceção para sublinhar uma curiosidade.
~ Entre os profissionais dos media, presentes no aeroporto, estava uma que já tentou julgar o PS-- incluindo Mário Soares-- tendo conseguido conspurcar definitivamente a imagem de um dos seus políticos.~
~

Anónimo disse...

Caro Embaixador,

Discordo da sua última conclusão. Mesmo que tudo isto dê em nada, não acredito que a justiça saia descredibilizada do processo. Poderia acontecer isso noutro processo qualquer, mas não quando é Sócrates o alvo. A justiça conta com a "convição " pública e a precisoa ajuda dos fazedores de opinião mais mediáticos. Haverá sempre um bode expiatório. Ainda hoje ouvimos a PJ dizer que no combate à corrupção "são tostões contra milhões". Haverá sempre "27 perguntas que não foram feitas". Ou qualquer outra coisa. E mesmo que não haja mais nada, o pricinpal está feito: o homem foi preso. Preventivamente ou não isso é um detalhe que não interessa a populaça. Tal como Pedroso, também este está queimado.

Cumprimentos.

M Rocha

Luis Miguel Correia disse...

O que me preocupa muito nisto tudo é o ambiente de caça às bruxas, as denúncias e os inquisidores mor providenciais. Nada saudável.

Anónimo disse...

A ansiedade, é inimiga dos arautos da inocencia de Sócrates! Ponto.

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Chico

Uma vez mais venho aqui para te dizer que concordo 1.876.564% com o teu texto.
E digo mais:
É a hora da Justiça mostrar o que vale! Se isso não acontecer valha-nos a Senhora da Lapa a quem nada escapa...

Abç

Adelino Ferreira disse...

Anónimo das 12,02
"Até concedo que o seu último governo a soubesse gerir, se não tivesse sido derrubado por um conluio algo bizarro: PSD+CDS+PCP+BE+PV"


Quem derrubou o governo de Sócrates foi o PSD e o CDS e ao contrário do que diz não houve conluio bizarro nenhum, como passo a lembrar: Nos PECs 1,2,3 e 4 o PCP+BE+PV votaram contra. O PSD+CDS deixaram passar os PEC 1,2 e 3 e chumbaram ambos o PEC 4.Aquilo que chama "conluio" é consequência da alteração dos votos de PSD+CDS que deixaram de votar a favor e votaram contra.

Agomes disse...

Não concordei nem concordo com esta palhaçada. Já escrevi diversas vezes que Sócrates ou outro qualquer é inocente até prova em contrário. Agora não podemos ficar admirados de considerarem J. Sócrates culpado. (Na praça pública). Quantas vezes foram condenados antigos e até actuais governantes na Praça Pública, que judicialmente não eram acusados de nada e ninguém os defendia. Sabemos e eles políticos também sabem que ao enveredar por uma carreira política, da área da governação estão sujeitos a todas as situações e acusações, que muitas vezes não têm qualquer cabimento. Basta ser governante. A este respeito faz-me lembrar a frase de um amigo num jogo de futebol entre o Salgueiros e o Benfica. Quando o arbitro entrou em campo esse meu amigo começou a insultar o arbitro. Eu afirmei: o homem ainda nem começou o jogo, ainda não cometeu erro nenhum e já estás a chamar-lhe nomes? Ainda não cometeu, mas vai cometer.

Anónimo disse...

Referência: comentador Manuel Silva:
No Brasil, quando se entrega a declaração anual de rendimentos (Imposto de Renda), tem uma rubrica chamada "Relação de Bens", onde todos os anos são mencionados os imóveis, saldos bancários, automóveis, etc.. É como que um balanço do exercício do período do ano anterior. Se estes valores não se encaixarem com o rendimento anual mais o saldo do ano anterior, o contribuinte é chamado a depor.
O nosso sistema de impostos não tem essa estrutura, o que é pena! Mas, atenção, não é por isso que o Brasil deixa de ser um dos países mais corruptos do mundo...
MT

isabel disse...

Ao anónimo das 9:13 - pode ler o artigo que aqui deixo para perceber o que significa "gerir a divida"; todo o resto é conversa fiada para encher jornais que sabem que vendem mais uns milhares se aparecer a palavra Sócrates!
https://aesquerdadozero.wordpress.com/2014/01/18/a-divida-e-ou-nao-para-ser-gerida/