terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Palestina

Quando, há algum tempo, publiquei no "Diário Económico" um artigo sobre Israel, muito crítico da posição do governo de Telavive, tive fortes mas espectáveis reações. Uma amiga israelita ofendeu-se e deixou de me falar, um amigo português telefonou a dizer esta frase curiosa: "Só hoje acreditei que não tens ambições políticas. Ninguém que as tivesse poderia escrever o que escreveste". Como se eu não soubesse isso.

Dou uma contribuição mais para essa avaliação ao dizer agora que acho profundamente lamentável que o Estado português revele uma imensa tibieza face ao crescente movimento europeu no sentido de reconhecer o Estado da Palestina. Como se já nos não tivesse bastado a triste postura assunida por ocasião da integração da Palestina na UNESCO, que foi depois necessário retificar de forma atabalhoada. A política externa portuguesa deveria mostrar-se leal e coerente com momentos do seu passado em que revelou um forte sentido de responsabilidade ao abordar a questão israelo-palestina e afirmar-se agora na linha da frente deste reconhecimento, não ficando comodamente à espera da sua quase inevitabilidade para fazer esse gesto. "Prudência e caldos de galinha" não ilustram uma postura internacional e tentar passar despercebido e ganhar tempo é apenas uma forma de poder ser vir a ser acusado de mero oportunismo. Isso não dignifica Portugal, como nas Necessidades deviam saber. Não me agrada trazer polémica a um terreno em que o consenso deve prevalecer, mas há limites.

9 comentários:

Luís Lavoura disse...

Reconhecer um Estado que não manda no seu próprio território? Isso faz algum sentido?
A Palestina é uma espécie de "bantustão" criado pela "comunidade internacional" (leia-se EUA, UE e Israel) para gerir os assuntos internos do povo palestiniano. A Palestina é como se fosse uma organização cultural dos judeus que se encontram dentro de um campo de concentração nazi. Faz algum sentido reconhecer um Estado assim?

Sérgio disse...

Um texto corajoso, de facto. Há pouco tempo fiquei surpreendido ao saber que a maior parte do financiamento do lóbi pró-Israel nos EUA vinha de igrejas evangélicas e não de judeus. A justificação é que há evangélicos que acreditam que o apocalipse e o juízo final vai acontecer em Israel e pensam que ao financiarem o regime israelita estão a precipitar essa ocorrência. Sabendo do poder que o lóbi pró-Israel tem na definição da política externa americana, isto é acrescentar pólvora a uma situação já em si explosiva.

Joaquim de Freitas disse...

Esta, é a segunda vez em dois dias que escrevo "Bravo" a um dos seus "posts". O diplomata e o homem de bom senso escreveram o que é justo.

Após tantos anos de incessantes sofrimentos do povo palestino, tanta hipocrisia dos nossos Estados nas miseráveis respostas que lhe dão, e uma pressão constante cidadã que se
intensifica, é preciso gritar a esmagadora responsabilidade que a Europa tem nesta tragédia. Que a diplomacia portuguesa siga o caminho medroso e subalterno é quase normal. Portugal nunca foi exemplar, sempre no seguidismo atlântico. Recordemos o trio e o barman dos Açores.

Todavia, não nos devemos deixar cegar pela estética desta noção de "Estado" palestino. Na realidade, a noção internacionalmente reconhecida dum Estado palestino não realiza todas as aspirações palestinas de libertação e de igualdade.

Um Estado palestino significa a continuação das negociações no esquema da solução de dois Estados, que prega a existência, lado a lado, dum Estado palestino e dum Estado judeu israelita. Esta solução nega o direito de regresso dos refugiados palestinos e marginaliza totalmente os cidadãos palestinos de Israel, que restariam cidadãos de segunda zona num Estado concebido para os Judeus unicamente.

O Estado de Israel não autorizará também, nunca, um Estado palestino soberano que teria o controlo total das suas fronteiras, da sua economia e do seu exército. O Estado palestino seria assim simplesmente um mecanismo de manutenção da população palestina como povo passivamente oprimido.

Mesmo se descuramos os aspectos negativos da solução a dois Estados, não podemos descurar o simples facto que esta solução morreu. Desde os acordos de Oslo, a Cisjordânia foi posta em peças soltas, em bantustaos, com o muro ilegal do apartheid que torna impossível a circulação da maioria dos Palestinos. A expansão das colónias atingiu níveis recorde com mais de 500 000 colonos na Cisjordânia. Israel procurou assim a irreversibilidade da situação actual.

A situação é tal, que uma solução como a que foi encontrada para a Bósnia-Herzegovina , onde era praticamente impossível de separar os dois povos , foi a única que resolveu o problema.

Anónimo disse...

É interessante que finalizada a sua carreira de embaixador em termos de profissão oficial, continue a divagar sobre a política internacional.

Seria , no meu entender, e com o seu saber de diálogo e concertação poderia dar um valioso contributo e dedicar-se a algumas instituições portuguesas que no terreno,auxiliam no concreto o dia a dia do povo português.

Anónimo disse...

Total acordo. Além de ser o maior violador do direito internacional, ou ao menos das resolução do CSNU, de praticar autêntico "terrorismo de Estado" na defesa da sua segurança, em si legítima, de agir na base da "superioridade" e da força, os radicais israelitas querem agora um Estado judeu! Qual seria o equivalente entre nós, um Estado Latino e Católico? Ariano (whatever that is) e cristão? onde chegámos
Fernando Neves

Anónimo disse...

O Estado de Israel nunca deveria ter sido criado, ou autorizada a sua criação, nos termos e na forma como o foi, no pós-guerra (2ª);
A ter sido, dever-se-ía ter criado em simultâneo o Estado da Palestina;
Os judeus, quando chegaram aqueles territórios, embora com algumas diferenças geográficas de então para cá, encontraram um povo que já lá vivia, os primeiros palestianos, chamemos-lhes assim e logo de início começaram os primeiros confrontos entre aquelas tribos fanáticas semitas e os povos que já habitavam aquelas terras, por motivos, sobretudo, de carácter religioso;
É na atitude arrogante, inflexível, pouco sociável, de confronto, fanático-religiosa, que os judeus sempre adoptaram, que reside a razão de ser da perseguição de que foram vítimas, ao longo dos séculos;
Os Romanos, que tinham ainda assim uma razoável capacidade de tolerância, quer religiosa, quer até relativa a costumes dos povos que conquistavam e dominavam, acabaram por perder a paciência, compreensívelmente, com Vespassiano e Tito e depois Adriano (se esquecermos Pompeu);
Israel e uma larga maioria dos judeus por esse mundo fora utilizam o Holocausto como forma de pressão política, com vista a fazer esquecer os massacres que praticam na Palestina, tendo-se apropriado daquele horror, o Holocausto, como se nesses campos de concentração só tivessem perecido judeus (embora se deva reconhecer tenham constituído o grosso das suas vítimas);
Quanto á nossa Política Externa, não a temos. Somos uma corrente de transmissão dos EUA, da UE, do Estado Judaico sempre que os seus interesses são afectados. E se calhar de outros países. E assim vamos continuar a ser. Não existe uma ideia, um rasgo, uma proposta, nada! E já assim é há muitos anos. Não é de agora.
a)Claustros

Antonio Cristovao disse...

Ainda bem que confirma isso. Este amen a uma pratica política feroz e até assassina dava-me a desconfiar que não era por acaso; um dia ainda hei-de saber dos pormenores porque tem de ser assim.

ARD disse...

Condicionar o reconhecimento do Estado da Palestina ao resultado de conversações de Paz é uma enorme hipocrisia e é uma atitude pusilânime. Há conversações há várias (demasiadas) décadas e o seu falhanço deve-se exclusivamente a Israel.
Assim, colocar essa condição equivale a dizer " reconheceremos quando Israel nos disser para o fazer".

Correia da Silva disse...

Subscrevo na íntegra, comentário das 16.55.
(só lamento seja mais um anónimo)