quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

A outra cidade

Estas épocas do ano levam-nos muitas vezes aos cemitérios. É uma forma de lembrar os que já foram e alimentar o sonho, impossível e virtual, de os termos connosco neste tempo ritualmente festivo. Nessas romagens, tenho sempre o cuidado de procurar não cultivar a tristeza, tentando avivar apenas os tempos alegres passados com as pessoas próximas que tenho espalhadas por aqueles espaços. Curiosamente, e no que me toca, não costumo sair deprimido dos cemitérios, depois dessas visitas ao passado. "Tu não te deixas apanhar muito pela nostalgia", disse-me uma pessoa, convencida que o faço por defesa. E, se calhar, tem razão.

Há dias, em Vila Real, dei um volta pelo cemitério de Santa Iria, o cemitério "novo", há muito criado para complementar o "velho" de S. Dinis, cujos limites de crescimento já nem recordo quando foram atingidos. Nunca tinha feito esta visita com muita atenção: em regra, dos cemitérios sai-se rapidamente e o frio da época estimula a isso. Com um belo sol de inverno, decidi passear pelo cemitério "novo". Foi então muito curioso reencontrar por ali imensas figuras da minha infância e juventude, comerciantes de cujas caras me lembrava à porta de lojas, caras que cruzei, por décadas, pelas ruas, cavalheiros e senhoras cujo nome muitas vezes desconhecia mas que, por dever de educação, sempre cumprimentava, quando, em pequeno, passeava com os meus pais. E quantos outros, menos "notáveis", estarão perdidos por tantas campas rasas sem nome! É a vantagem de se "ser" de uma cidade que já foi pequena, onde todos nos conhecíamos, quando de lá saí há 50 anos. O cemitério "novo" tem quase a idade da minha memória de Vila Real. Assim, por lá cruzei agora amigos que partiram cedo, descobri pessoas de cuja existência já nem me lembrava (e de cuja morte me não tinha sequer apercebido), pude relacionar parentescos e ligações familiares. Ah! e também apreciei a forma estética como os que por cá ficaram quiseram que os seus familiares ficassem consagrados nas pedras - uns sóbrios, outros agigantados face à imagem em vida. Foi um passeio muito interessante, por essa que é outra minha cidade.

8 comentários:

Isabel Seixas disse...

Uma homenagem bonita aos Seus amigos e conhecidos, a referência à outra cidade a cidade das memórias em silêncio, foi bem comovente.

Joaquim de Freitas disse...

Como sempre, mais um belo texto, Senhor Embaixador. Sentido profundamente através das palavras escolhidas.

Também fiz algumas visitas dessas aquando de passagens periódicas na minha terra. Ao longo das alamedas floridas passo em revista os nomes dos familiares e amigos que já lá estão. O silêncio que os envolve leva-me a pensar , num curto instante, que, finalmente, seria bom de poder relativizar tudo o que se passa neste mundo. Porque tudo é efémero.

Há uma visita que faço de vez em quando a um cemitério parisiense na data aniversário de 28 de Maio: O Muro dos Federados do Père-Lachaise.

No silêncio do cemitério, penso em todos aqueles que foram assassinados sem razão. Os fuzilados do Mont Valérien e os outros, todos os outros , assassinados ao acaso, por toda a parte, só porque eram patriotas ou simplesmente homens livres.
Em frente do Muro, quando se conhece a sua história, ouve-se um grito que vai direito ao ventre e lacera o coração. Um longo grito que rompe o silêncio dos cobardes e dos tristes pensadores de todas as capelas políticas .

Hoje, a resistência deve organizar-se de urgência, perante os perigos que assombram o horizonte. Antes que a caça comece . Aos "outros", aos "diferentes", aos negros, aos árabes, aos ciganos, aos "preguiçosos" que exploram o sistema, segundo os bem pensantes, aos precários, aos desempregados, aos sem documentos, aos bastardos .

Antes que floresçam os Grandes Cemitérios ao luar, como dizia Bernanos.

A xenofobia e o racismo alojo-os nos cemitérios.

GHOST disse...

.

HAPPY NEW YEAR

São disse...

Para si e quem desejar , caro embaixador, feliz 2015!

Anónimo disse...

«Cemitério

Este pó foram damas, cavalheiros,
Rapazes e meninas;
Foi riso, foi espírito e suspiro,
Vestidos, tranças finas.
Este lugar foram jardins que abelhas
E flores alegraram.
Findo o verão, findava o seu destino...
E como estes, passaram.»

Emily Dickinson

(Antologia da Poesia Americana, Ediouro, 1992 - RJ, Brasil. Tradução de Manuel Bandeira)

Fernanda

Anónimo disse...

O cemitério também é um lugar de turismo. Há tempos tive a oportunidade de constatar isso. Um dia, por mero acaso, estava junto ao cemitério dos Prazeres, em Lisboa, e assisti a um grupo de turistas nórdicos que aí saíram do autocarro e, com a respetiva guia, se dirigiram para o interior do cemitério. Há motivos históricos, e muitos, com que as pessoas se interessam e que vale a pena recordar.
Um Bom 2015, Sr. Embaixador, para si e seus Familiares.
MT

Anónimo disse...

Se sei isso o que é! Muitas pessoas optam por não voltar às pedras que assinalam a presença dos seus familiares que por cá passaram. Por mim, no Funchal tenho dois "queridos" que tiveram este Natal os sapatinhos e as cabrinhas... plantas que ornamentam as lapinhas, as nossas casas, e as nossas campas funerárias. Por sorte uns primos que se deslocaram a Lisboa repetiram nos "Prazeres" a outos dois queridos; sapatinhos e cabrinhas... É uma tradição do Natal da Madeira. As FESTAS lá são mesmo para todos! Fiquei consolada, embora não tenha ajudado em nada com a minha presença física... desta vez!

Anónimo disse...

E os que vão aos cemitérios, fazem-se passar por viúvos para «fisgarem» alguma pobre viúva inconsolável? Esta técnica já vem do tempo da «Maria Castanha». Quem diria, até no cemitério... O mundo é um manicómio global!