quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

A bica de 24


O local ainda existe, em Vila Real, mas tem hoje outro nome. Na altura, era o Café Imperial, no Cabo da Bila (leia-se com "bê"). Era um espaço sem nenhuma graça. Na minha juventude, nunca a nenhum de nós passava pela cabeça frequentar o Imperial. Era "longe", o ambiente era inconfortável e, acima de tudo, tinha um dono sempre com cara de poucos amigos, o Lima. Constava que, de quando em vez, tinha altercações com clientes, que chegavam a extremos físicos violentos. Note-se que o tal Lima, na sua rudeza, era simultaneamente um verdadeiro génio da estética: desenhava a primor as passadeiras de flores que se faziam pela Páscoa, numa rua vizinha, e foi o responsável por um mítico Cortejo Luminoso, que a cidade organizou no início dos anos 60.

Mas nem por isso o Imperial deixava de ser uma "no go area". Com uma única exceção, em todo o ano: no dia 24 de dezembro. Nessa noite, o Lima, que se dizia que era comunista, fazia questão de manter o café aberto, para quem se aventurasse a uma bica profissional depois da Consoada. Por muitos anos, foi o único café aberto na cidade. Para ele convergia, nessa noite, uma fauna heteróclita - de solitários friorentos, de esquerdalhos assumidos, de irreverentes empedernidos e de quem mais calhasse. No meu caso e de gente da minha geração, a sortida era apenas uma benévola manifestação de rebeldia. O Lima olhava-nos a todos, irónico, ciente da excecionalidade oportunista da visita de todo aquele pessoal, que ali desaguava, única e exclusivamente por falta de opção para a bica, a qual, na ocasião, se pedia "com cheirinho" de bagaço, para afastar as constipações. Ah! e lembro-me que o café era péssimo! No gelo do ambiente (o Lima não usava aquecimento), sobressaíam pelas mesas samarras e cachecóis, por entre nuvens de fumo de tabaco, que enchiam o Imperial nessa sua singular noite de glória. O Lima vingava-se, fechando às 11 e meia, o que deixava desasados por meia hora os episódicos clientes que tinham ainda a intenção de ir à Missa do Galo, um pouco mais acima, a S. Pedro. O que ele se deveria divertir, ao vê-los, a "encher" a meia hora, batendo as botas para aquecer, pelo desamparo frígido do Cabo da Bila (com "bê").

Num dos anos, numa noite de 24 de dezembro, o Imperial fechou. O Lima desapareceu. Não tínhamos para onde ir! Surgiu a informação de que, para os lados da estação, estava "uma coisa aberta". Lá fomos nós, pela ventania da ponte, beber uma bica à longínqua rua da Madame Brouillard, cujo nome rimava a preceito com a noite. Nos anos seguintes, os locais "hereges" foram mudando e nós, já motorizados, podíamos procurar alternativas nas redondezas. Num Natal "trágico", em que a cidade mais parecia o Kolditz, tivemos de ir até Escariz para encontrar "uma coisa aberta" - uma tasca atulhada de bêbados, de um emigrante regressado da Itália. Noutro, surgiu uma "venda" imunda com café, em Abambres. Depois, com o tempo, Vila Real foi-se dessacralizando. Por dois ou três anos, a noite de Consoada terminava num tal "Alibabá", um espaço recente, com uma dona de belos olhos e um café aceitável. 

Hoje, tudo mudou, para bem melhor. Nestes dias 24 de dezembro, aqui por Vila Real, é um regabofe: já só falta ver o Afonso, na Pastelaria Gomes, a servir bicas com "cristas de galo"...

4 comentários:

patricio branco disse...

boa evocação e recuperação de costumes, locais, gentes, etc.

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Cbico

Bons tempos em Bila Real...

Abç

Guerra disse...

Viva S. Embaixador,
fala da Bila e eu cá estou.
Bem me lembro do que conta, mas desta vez é para lhe desejar Boas Festas na companhia de quem gosta.
Tenha boa estadia.
Guerra

ARPires disse...

Não tive essas vivências, mas lembro-me perfeitamente desse espaço que quando por lá passava estava sempre "às moscas".
O actual pese embora a mudança de nome não conseguiu fazer muito diferente.
Há espaços que parecem amaldiçoados, renascem mas nunca dão certo.