quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Uma síntese

Um dia poderemos falar do "revisionismo" que por aí anda sobre a ditadura a que o 25 de abril pôs termo. E dos nomes de uma geração de historiadores que, com jeito e subliminar técnica, pacientemente se dedicam a dulcificar ou relativizar o caráter sinistro do Estado Novo.
 
A técnica é simples: reconhecem-se alguns factos impossíveis de negar sobre o Estado Novo (às vezes com algumas adaptações semânticas, para não contribuir para a "narrativa" oposicionista tradicional) e, depois, relativiza-se essa realidade com imediata referência aos acontecimentos do período da I República. Este período é também quase sempre usado para absolver o autoritarismo dos últimos anos da monarquia, por cuja turbulência, aliás, os republicanos são tidos como os principais responsáveis. Porém, este percurso justificativo não leva a sua lógica até ao fim, isto é, não explica, por exemplo, que a agitação monárquica foi responsável por muita da instabilidade dos primeiros anos da nova República e que o golpismo premonitório do 28 de maio de 1926 muito contribuiu para a sua desestruturação e declínio. Outra "técnica" complementar é usar pontuais abusos ocorridos no período revolucionário de 1974/75 (prisões, sevícias, etc.) como exemplos de que, afinal, as coisas não haviam sido assim tão diferentes na época imediatamente anterior.   
 
Às vezes, quem muito escreve sobre estes assuntos é obrigado a sínteses. Foi o que aconteceu hoje a um prolífico historiador moderno, talvez o mais proeminente exemplo da historiografia conservadora, Rui Ramos. Talvez ele não aprecie que esta sua frase seja retirada do contexto, mas eu acho-a tão exemplar que não resisto a citá-la: "O Estado Novo foi uma ditadura, sujeitou a imprensa à censura, falsificou eleições, e prendeu, torturou e matou oposicionistas". Ele não escreveu apenas isto, mas é só isto que dele me apetece citar. E elogiar. 

10 comentários:

Anónimo disse...

Rui Ramos merece bem que se lhe descontextualize o discurso manhoso

Anónimo disse...

Muito bem!
Sobre o o historiador estamos conversados.
Sobre a 1ª república é preciso que se diga que, naqueles 16 anos, tivemos duas ditaduras pelo meio, uma guerra mundial e as tais incursões monárquicas (e não só), mais ou menos apaziguadas durante os governos mais reacionários.
Que diferente seria este país se a República democrática tivesse vingado. Então, como agora, o povo ordenha-se com o termo "mais trabalho", quando no fundo o lema deveria ser "mudar a mentalidade" de um povo intrinsecamente crédulo e conservador.

Anónimo disse...

Também há outras semânticas que precisavam de ir para casa....
Será muito machista dizer "coser meias"? Pois que seja, já não tenho paciência!

Anónimo disse...

Bom Post! Quanto ao Ramos (Rui Ramos)ainda outro dia o ouvi num colóquio, ou seminário e reiterei a opinião que já retinha dele: fraco. E então quando comparado com outros que ali estiveram, como Severiano Teixeira, com a sua vivacidade e capacidade de explicar a História de forma objectiva, que Ramos não consegue, aprende-se alguma coisa. Aqui há tempos, no MNE, através do Inst. Diplom. convidou-se o dito Ramos para conferencista (a exemplo de outro ideologicamente parecido, como o Victor Bento, ex-BES Novo), mas não fez furor. Ramos escreve umas tretas no Observador e lê quem quer perder tempo. O problema dele é não conseguir distanciar-se ideologicamente do que escreve e deste modo a sua versão da História sai a perder. Por mim não perco tempo a ler o Ramos. Mas gostei do que você escreveu sobre as eleiçõess no Brasil no mesmo Observador.

Anónimo disse...

Nunca se fala da agitação terrorista violenta feita pela carbonária durante muitos anos antes e depois da implantação da república. Ou sou eu que sou um ignorante ou é um tabu??

Anónimo disse...

O que não se entende é a recorrência do tema. Será vontade de voltar àquele regime, claro, uns na situação e outros na oposição? Problema psicológico tratável com técnicas freudianas?
Hoje o Dr. Caseiro Marques no NVR, aplica a interjeição bardamerda, para desancar nas cunhas e compadrios que grassam em tudo o que é estado, concluindo que são pechas que já vinham do tempo do Dr. Salazar.
O quê que Salazar tem a ver com estas (atuais) bardamerdas?
antonio pa

Anónimo disse...

Há cerca de 2 ou 3 anos o Expresso distribuiu uns livrinhos, com a História de Portugal, da responsabilidade do RR.
O século XX é descrito com uma isenção muito especial.
Só para dar um exemplo, e no que respeita a actos de violência no dia 25 de Abril, são referidos 2 episódios:
- A PIDE/DGS disparou sobre os populares, em reacção ao avanço dos mesmos sobre a sua sede.
- Um soldado terá atingido, pelas costas, um cidadão suspeito.
Eduardo
P.S.: Não guardei os ditos livrinhos.

Luis Miguel Correia disse...

As trapalhadas da actual situação política e económica do nosso País e da Europa levam muita gente a fugir mentalmente da realidade. Uns aterram num "Estado Novo cheio de coisas boas" onde muitos nunca estiveram, outros assim e assado. Infelizmente a falta de estabilidade do regime actual e a ausência de soluções mágicas para a pobreza crescente e as mentiras piedosas oficiais fazem com que uns se vão embora fisicamente, outros mentalmente, e outros ainda, mais casmurros se mantenham e lutem pelo que sempre acreditaram, estes muito de barriga vazia... Mas que estamos todos lixados, sim...

João Pedro disse...

"a agitação monárquica foi responsável por muita da instabilidade dos primeiros anos da nova República"

Depois de anos em que os republicanos vituperaram a monarquia, espalharam propaganda por toda a parte, mataram o Rei e o príncipe real, sublevaram as forças armadas, em especial a marinha, derrubaram a monarquia num golpe sangrento, perseguiram a igreja, alteraram a bandeira nacional com as cores do seu próprio partido e encheram a toponímia nacional com os nomes dos seus "heróis", os monárquicos tinham toda a legitimidade e mais alguma para essa "instabilidade". Acrexce que ainda há mais semelhanças entre a 1ª república e o Estado novo, como a existência de uma polícia política (a "formiga branca" e a Pide/dgs, que aliás acolheu elementos da primeira, e uma guerra perturbadora com graves implicações na economia nacional. Embora ache que a república, com os seus 46 governos, assassinatos de presidentes e actos terroristas (como a camioneta fantasma),acabou por se suicidar.

Anónimo disse...

A Primeira República de democrática teve muito pouco. O clima de terror e instabilidade que se viveram nos seus 16 anos de vida foram uma desgraça e permitiram que se avançasse para um regime ditatorial que governou Portugal durante 48 anos.

Não creio que o regime monárquico tivesse permitido episódios como o da formiga branca, nem a ditadura de Salazar.