sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Praxes

Há dois dias, entrei no pátio da universidade onde passarei a dar aulas na área das Relações Internacionais e deparei com um agitado ambiente de praxes académicas. Não gostei, confesso.

Detesto praxes e sinto uma profunda rejeição por estes ritualismos. Admito que, no caso da Universidade de Coimbra, uma história muito antiga e uma cultura académica particular ainda possa justificar a manutenção de alguns desses hábitos, se bem que adaptados às realidades de hoje e sempre numa base assumidamente voluntária e não constrangente. Mas não consigo entender como é que em universidades com algumas escassas dezenas de anos, sem suporte de uma vivência académica usufrutuária de um longo passado, se inventam (e procuram justificar) "tradições" e se estabelecem impunemente práticas de humilhação dos mais novos, com o alibi de serem modelos de "enquadramento" e iniciação na vida das escolas. 

Estudei, dos anos 60 para os 70 do século passado, em universidades públicas no Porto e em Lisboa. Nunca por lá vi praxes e, nem por isso, deixei de ter uma feliz integração académica, criei novos amigos e agradáveis conhecimentos, desde a primeira hora. Essa falsa justificação para a imposição das praxes deveria ser denunciada e combatida, mas não vejo vontade suficiente para isso, desde logo por parte das associações académicas (e aqui, sim!, assumo: tenho saudades do espírito das associações académicas do meu tempo!). Por seu lado, muitos professores parece viverem num ambiente acomodado: privadamente confessam que não gostam das praxes mas acabam por considerá-las inevitáveis, para não "comprarem uma guerra" com os alunos, limitando-se, por tibieza, a condenar as mais abusivas.

Esta minha atitude negativa estende-se também ao uso, fora de Coimbra, da capa-e-batina, atulhada de emblemas, bem como para as bizarrias de algumas tunas, quase sempre servidas por escolhas musicais que relevam apenas dos usos espanhóis, em especial galegos, com coreografias femininas feitas de ridículos e inestéticos saltos ginasticados e piruetas pelo chão, cuja graça e elegância nunca me foi dado entender. Se a isto somarmos as bebedeiras "de caixão à cova" nas "festas académicas" e o recrutamento de cantores da escola pimbo-pornográfica para os seus espetáculos musicais fica feito um retrato nada lisonjeiro dessa triste parte da atual geração académica. 

Muitas destas palhaçadas, porque é disso que se trata, tiveram os seus extremos em casos como o do Meco - mas os registos de incidentes graves e até fatais são bem frequentes - sem que, até hoje, quiçá sob pressão dessas "escolas" que são as "jotas", tivesse havido coragem legislativa para pôr cobro a estas derivas.

Mas as universidades têm a principal culpa na tolerância destas práticas, quando lhe seria fácil, pura e simplesmente, determinar a proibição das praxes nas suas instalações e atuar e exercer competência disciplinar sobre os seus instigadores, em práticas fora do seu perímetro. Tenho a certeza que a suspensão de meia dúzia de "praxistas" seria um princípio do fim deste medievalismo. Será por cobardia que não atuam? 

Acho que o momento em que inicio atividade docente numa universidade é o momento certo para fazer esta declaração de interesses. Para que não haja quaisquer equívocos.

16 comentários:

Silva Rocha disse...

É curioso como é que encontro alguém que, acerca das ditas praxes, tem exactamente as mesmas opiniões que eu mantenho há uns anos...

herminia pedro disse...

Em Lisboa tínhamos orgulho por não usarmos capa e batina sentiamo-nos mais livres,não me imagino a suportar propostas de brincadeiras imbecis.Estes alunos de universidades recentes ao se exibirem de capa e batina tentam comprar idoneidade e respeito dos outros, pela sua condição de universitários. Os seus comportamentos conseguem precisamente o contrário.

Isabel Seixas disse...

Subscrevo

fernanda sal m. disse...

Não podia estar mais de acordo com o seu texto lúcido e inequívoco.

Anónimo disse...

Qual é a Universidade em que Vossa Excelência vai leccionar? Não precisa de um assistente com prática na "face oculta" das relações internacionais?

a) Feliciano da Mata, corruptor, corrupto e sempre corrompendo

Anónimo disse...

As práticas das "paxes" trazem-me o mesmo sentimento que os suicidios coletivos. É o horror perante o incompreensivel! Mas quais são as razões que levam ao suicidio coletivo ? Serão as mesmas que levam estes jovens à prática das praxes ?
Será tão somente a dor da angustia que lhes cobre com um nevoeiro espesso os projetos de carreira e vida ?
Proibir as praxes pode ser uma esperança de solução; mas do mesmo modo que não podemos decretar a felicidade, parece-me dificil, por texto de lei, proibir a estupidez.
José Barros

JS disse...

Concordo. Apláudo a coragem de publicamente defender esta postura, tão politicamente incorrecta.

Isabel I disse...

Assino por baixo, completamente!

Anónimo disse...

Será coincidência que quanto mais recente e desconsiderado é o estabelecimento de ensino mais importantes são as praxes?

Que os seus chefes e maiores entusiastas são em geral os que mais chumbos tiveram?

Não creio no entanto que a solução seja a proibição - a constatação do ridículo talvez. Quem numa Universidade decente se sujeita a participar em praxes violentas e humilhantes merece-as.

a) ex-vizinho

São disse...

Por mim, as praxes (com excepção de Coimbra nas condições em que refere) seria totalmente abolidas!!

Fiquei estarrecida ao ouvir , na televisão, um caloiro universitário afirmar :"temos o direito de ser humilhados"!!!

Que se passa com estas criaturas?!

Desejo-lhe muito sucesso na sua nova actividade.

Anónimo disse...

Inteiramente de acordo com todo o texto. Para além disso, além de os estudantes não terem outros valores mais interessantes na cabeça, os pais são complacentes e confesso que me arrepia o que os faz imediatamente comprar aquelas roupas de abutres aos filhos numa época em que não há dinheiro para nada (tudo isto numa cultura do não querer ser diferente e de um «suposto estatuto social», que é falso - em Coimbra os sinais, desde sempre, eram outros). Os professores e reitores das universidades são responsáveis também. E a PSP e Câmara Municipal de Lisboa, idem. Sim, sim, na semana passada, todo o trânsito entre a Praça do Chile e a Baixa interrompido durante horas, inclusive com prejuízo para ambulâncias que se dirigiam a S. José (uma das duas urgências de hoje), porque não havia qualquer aviso e aqueles milhares de várias faculdades iam do I.S. Técnico para a Baixa, com 3 polícias à frente e outros atrás, suponho que a «guardar» os imbecis.. Não fosse alguém chamar algum nome aos «doutores»...Tudo isto em hora de ponta... de dia de trabalho e mau tempo...

Anónimo disse...

Totalmente de acordo.
Bom fim de semana.
M.Júlia

Anónimo disse...

-entrei na Fac. de Direito da UC em 1964,com a praxe agonizante,sendo certo que no ano seguinte,ja nem os tontos se sentiam bem naquelas frioleiras sem graca nenhuma.Mas enfim,sempre era Coimbra e havia a tal tradicao que dizia que "dantes ate tinha graca".Nos dias de hoje,a bocalidade que se ve pelas ruas e a que e de quando em vez noticia,so pode levar a que se aplauda o autor do blogue ,tambem pela coragem que mostra e que augura um magiisterio digno.

Portugalredecouvertes disse...

acho que não se deve misturar tudo, essas práticas estúpidas e eventualmente perigosas
com os trajes dos estudantes que alguns gostam de usar e que não têm mal nenhum, eu própria comprei para a minha filha e ela não passou pelas bebedeiras, nem nada que se pareça, foi uma festa bonita!
não será necessário cortar com a criatividade das atividades dos estudantes só porque algumas são desastradas, haverá que fazer uma seleção,
algumas pessoas bebem demais em restaurantes ou bares, não é por isso que se deixa de ir ao restaurante ou a uma esplanada!

Francisco Seixas da Costa disse...

Cara Portugalredecouvertes : o traje é de facto inofensivo, mas embora eu o ache um pouco ridículo fora de Coimbra. As tunas, que têm já entre nós uma tradição muito interessante, apenas perdem graça quando enveredam por pantomimas e musicalidades que nada têm a ver com Portugal. E não serei eu, que vou regularmente a bares e restaurantes, quem coloca o menor labéu nesses espaços. Acho mesmo muito saudável que a "noite" esteja cheia de juventude. "Misturei" coisas de diferente natureza para mostrar como a combinação exagerada dos vários fatores pode contribuir para uma caraterização negativa de uma geração académica. E, essencialmente, como a cobardia e ausência de denúncia de certos comportamentos contribui para um abastardar da vida universitária

Isabel Seixas disse...

Lecionei durante 18 anos´no ensino superior politécnico e sempre abominei as praxes abusivas e que excediam o respeito pela vontade do aluno/estudante, aliás acho que deviam ser passiveis de autorização e ou consentimento informado.

Através dos executores das praxes sádicas, que provocavam dores,as que ridicularizavam os estudantes/alunos recém chegados percebi que ao abrigo do "a mim também me fizeram" ou "depois eles até vão gostar, além de que é condição sine qua non para participar da vida académica frases insidiosas a sedimentar o terrorismo psicológico, a conspiração do silêncio que cala a injustiça do mais agressivo agredir com autorização os que estão numa posição "hierárquica inferior ", boicotar os direitos humanos destilando veneno de ditador .

Congratulei-me com o cuidado em Coimbra nalguns cursos os mais velhos não fazerem dos caloiros palhaços nem mártires, fazerem praxes através de jogos engraçados como dinâmica de grupo para integrar e quebrar o gelo inicial e servirem de tutores/orientadores dos mais novos reduzindo o stress do desconhecido, promovendo a interajuda...

Não acho nada ridículo o traje académico, pelo contrário, acho que embora uniformize, também permite identificar um certo orgulho de pertença, ingresso e frequência do ensino superior. Muitos estudantes com pouco poder económico argumentavam sentir-se vestidos de forma "igual" aos de maior poder económico e poderiam usá-lo durante 5 anos ou ainda mais nas provas de defesa da dissertação de mestrado e tese de doutoramento...

Além de reduzir a soberba dos estudantes de Coimbra...

Gosto de tradições democráticas que possam ser usadas e replicadas desde que paguem os direitos de autor, claro.