domingo, 19 de outubro de 2014

Os meus dias da rádio


A conduzir pela noite numa estrada transmontana, ouvi há dias, no para mim até então desconhecido Radio Clube de Resende, e não sem alguma nostalgia, um programa chamado "Onda Noturna".  Nesse instante, lembrei-me que, noutro Rádio Clube, o histórico Rádio Clube Português (que, no Porto, funcionava no edifício da rua de Ceuta, de que deixo uma foto recente), eu próprio havia colaborado num programa homónimo, dirigido por Rui de Melo. Às vezes, pela noite dentro, o Rui de Melo entregava-me a emissão do "Onda Nocturna" e eu ficava por lá a "pôr discos" e a dizer banalidades serenas, no tom que o programa exigia.

Faço parte da geração dos "dias da rádio". No meu caso, das noites. Na minha juventude, em Vila Real, o Rádio Clube, a par de algumas rádios estrangeiras (Radio Caroline, Radio London, Radio Andorra) e da "23ª hora" da Renascença, era uma companhia noturna regular, com os programas da madrugada, em especial o "Meia Noite" e, mais tarde, o efémero "Europa", de Vitor Espadinha, a trazerem a música que me fez crescer. (Na província, sem FM, apenas com Onda Média, não chegávamos ao lisboeta "Em Órbita")

Em 1966, com a ousadia dos meus 18 anos, apresentei-me nos estúdios do Porto do RCP, onde pedi "emprego" sem salário, ao tempo em que fingia estudar Engenharia Eletrotécnica. O Alfredo Alvela abriu-me então as portas do seu "Clube da Juventude," onde realizei, durante alguns meses, o meu semanal "Tempo de Teatro" (eu era então membro do Teatro Universitário do Porto), com textos do João Guedes e um "gingle" com efeito de eco, feito no vão do elevador do prédio, numa ideia louca, creio que do Jaime Valverde. Numa manhã, saído tarde do Rádio Clube com o Humberto Branco (um nome histórico da rádio portuense), lembro-me como se fosse hoje de um belo nascer-do-sol, a atravessar as janelas do "Transmontano", que o Alvela teimava em qualificar como o único restaurante "ível" (onde se podia ir...) na noite portuense. Não era verdade: o "Ginjal" era uma alternativa possível. Às vezes, o destino final acabava também por ser "o outro lado da noite", na "Candeia", na "Japonesinha" ou na "Tentativa". Grande Porto desse tempo! Ainda por ali fiz locução, durante algum tempo, nos Emissores do Norte Reunidos, pelo final das tardes, num programa a que chamei "No espaço e no tempo", um nome ridículo, mas que ia muito bem com o ambiente da época.

Quando, em 1968, abandonei Engenharia e fui estudar (dessa vez, a sério) para Lisboa, o "bichinho" da rádio continuava a perseguir-me. Ainda nesse ano, fiz concurso para locução na Rádio Universidade e fui um dos escassos admitidos. A estação era propriedade da Mocidade Portuguesa, seguia uma linha oficiosa, mas devo confessar, em abono da verdade, que não terá sido uma razão puramente política que dela me acabou por afastar. Tenho uma vaga ideia de me ter confrontado com um ambiente algo "pesado" e hierarquizado, em que me não sentia bem, feito de gente que pouco tinha a ver com a "onda" académica mais agitada em que eu já andava envolvido por essa época. Mas, conhecendo-me, creio que também o facto de me terem exigido que me submetesse a um estágio nas socrossantas manhãs de domingo terá pesado bastante e deverá ter sido a gota de água que fez travar o início de uma pouco estável carreira radiofónica, que chegou a estar nos meus horizontes. Afinal, há males que vêm por bem... 

8 comentários:

patricio branco disse...

boa historia com memórias. os dias da radio, podia dizer-se, como a pelicula divertida de woody allen, continuam. a radio continua a ter uma função importante e actual e a tv não a substitui ou anula: musica moderna ou classica, entrevistas, opinião, teatro radiofonico, noticias, etc
as diferentes bbc's são disso exemplo...

Isabel Seixas disse...

Oh que pena...
Oh que perda...

Uma voz serena
uma voz transmontana
indutor do sono na noite brilhante e lerda

e por outro lado
imagine o prazer
de na noite má conselheira, prostrado
poder embalar e adormecer

oh e de belas adormecidas
de amores frustrados
a roqueiros chalupas de casacas vestidas,
ébrios impotentes embargados
mulheres de rolo da massa em punho
todos a ouvi-lo com orgulho

enfim...
toda uma panóplia de eventos
e história
ai de mim
e da velha amiga que sorria
que em todos os momentos
o prescrevia,

antidoto de insónia...


Oh que pena...
Oh que perda...
Ó vida.

Joaquim Pinto disse...

Sr. Embaixador Seixas da Cos, fico muito contente em ouvir o Radio Clube de Resende, por ser a minha saudosa terra Resende, e para mais alegria ainda não tiraram a Radio como o nosso Tribunal.
Abraço

ignatz disse...

deve haver aí engano em relação à rádio caroline e às audições noturnas em vila real. as primeiras emissões foram diárias das 6 às 6, a cobertura chegava a frança e em 1968 foram todos presos, depois disso é possível que ouvisse, mas não no período de tempo que refere.

Joaquim De Freitas disse...

Ao ver a hora da publicação deste "post" parece-me bem que o Senhor Embaixador foi sempre uma ave nocturna!

A nossa diferença de idade justifica o facto que não ouvimos as mesmas rádios em épocas diferentes. As minhas recordações radiofónicas são dos anos 40 e 50.

Pela calada da noite, na casa dum amigo especialista em manipulações de aparelhos de rádio, instalados por baixo da cama ( nessa época víamos Pides por todo o lado !), ouvíamos Rádio Andorra - Rádio de los Valles de Andorra e Rádio ...Moscovo. Tinha eu 15 anos.

Até ao fim da guerra, havia lá na cidade de Guimarães, um recoveiro germanófilo, que expunha numa vitrina, as fotos que Goebbels distribuía nos países "amigos", como Portugal. Fotos nas quais os avanços dos exércitos alemães eram gloriosos e sempre vitoriosos. Quando Von Paulus e o seu exército de 120 000 soldados alemães se desfazia aos poucos em Estalinegrado , cercado pelo exército vermelho, a vitrina do nazi de Guimarães mostrava sempre a "viagem" à ida, mas não a paragem forçada! E quando Von Paulus se rendeu, provocando a grande crise histérica de Hitler, nunca o recoveiro mostrou as fotos das longas filas de 120 000 soldados alemães a caminho da Sibéria, a pé! Donde só alguns milhares, poucos, regressaram.

Foi o mesmo durante o cerco heróico de Leninegrado ou São Petersburgo hoje.

Rádio Moscovo dava as posições certas do Exército Vermelho , os avanços e os recuos, e foi assim que aprendi nomes de batalhas célebres : Orel, Smolensk, Tule, Karckov, Minsk, Rostov, Kiev, etc. As rádios portuguesas não falavam de nada.

Depois, quando os tempos heróicos da guerra acabaram, outros nomes vieram apagar as boas recordações de Rádio Moscovo. A Internacional não tinha o mesmo sabor depois da Primavera de Praga e do massacre de Budapeste. Como dizia Montand : " A noite brejeneviana apagou a luz da esperança de muitos milhões de pessoas no mundo ". As ideologias nascem e morrem assim.

opjj disse...

Rua de Ceuta era por onde circulava, pois trabalhava na transversal acima, onde via muitas vezes Sá Carneiro antes das 9. Creio que havia um café chamado Ceuta e mais abaixo havia o Café Aviz e mais abaixo havia o Guarani ponto de encontro. Na época sentia uma sensação desagradável, pois sendo do centro não estava habituado a tanta chuva e por isso mudei-me.Bons tempos.
Cumps.

Francisco Seixas da Costa disse...

Eu não brinco com factos, ignatz. A Radio Caroline iniciou as suas emissões em 1964. Ponto.

Anónimo disse...

Cara Isabel Seixas
À tort ou à raison, a 'velha senhora' sentiu-se interpelada e mandou que lhe mandase este sonetilho:


'velha amiga que sorria'
é capaz de ser comigo:
quanto ao nosso bom amigo,
por certo mo prescrevia
sem somníferos, de castigo...

fosse eu velha com valia
pra temer nenhum perigo,
quisesse ele o que eu queria,
isabel, ai era um figo!

mas pra nós, que ninguém ouça,
a ser eu assim pateta,
velha tola armada em louca,
ai queria era o poeta,
meu alcipe... - ai calo a boca!