segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Os dois Brasis

Os "dois Brasis" vão estar, uma vez mais, frente a frente. Dilma Roussef e Aécio Neves defrontar-se-ão na segunda volta das eleições brasileiras, no dia 26 de outubro.

O "fenómeno" Marina Silva esvaiu-se com a rapidez com que tinha emergido. Constatou-se que havia sido fruto de uma reação emocional, logo seguido pela evidência da fragilidade política da candidata, que igualmente não dispunha de uma máquina política à altura.

Vão ser três semanas muito intensas. De um lado, estará o "establishment" de um PT fortemente ancorado nas camadas mais pobres, em alguma intelectualidade urbana e em certos setores que lucraram com estes quase 12 anos de "petismo", que se vai tentar agarrar ao poder a todo o custo. Do outro, estará um candidato que quererá federar o descontentamento anti-PT, que foi visível nas grandes manifestações populares de há já alguns meses, mas que acarreta consigo o estigma de poder ser visto como o representante do "Brasil rico". Daí que não se saiba se Aécio Neves será a melhor "imagem" para representar o "Brasil das ruas".

Como se dividirão os cerca de 20% de votos em Marina Silva? Menos importante do que a indicação de voto que a candidata eventualmente vier a fazer, vai ser olhar para a eficácia da estratégia de "sedução" desse eleitorado, que cada um dos agora "finalistas" vier a colocar no terreno. Dilma vai tentar, com a preciosa ajuda de Lula, "passar por cima" de Marina Silva e descobrir um discurso para o heterogéneo eleitorado que a apoiou na primeira volta, acenando com o fantasma das privatizações (a "privataria tucana", na linguagem PT) e o possível ataque às políticas sociais que uma vitória conservadora poderia acarretar. Aécio, com toda a certeza, vai jogar no "todos contra o PT", colando Dilma aos escândalos de corrupção e denunciando o peso do "Estado PT" e os riscos de uma desregulação económica, tentando sublinhar as carências nas principais políticas públicas - saúde, infraestruturas, ensino, etc. No fundo, vamos assistir a uma espécie de novo duelo virtual entre Lula e Fernando Henrique Cardoso, por interpostas pessoas.

Posso estar enganado, mas julgo que se vai entrar num período nada "limpo" da vida política interna brasileira, recheado de boatos, de campanhas mediáticas, de "medos" induzidos, etc. Logo veremos.

Uma nota final: esta eleição está, afinal, muito mais "aberta" do que eu esperava.

(Uma nota portuguesa: porque será que ninguém por cá reflete na fantástica vantagem do voto eletrónico, desde há vários anos usado no Brasil, que já se provou que está blindado contra fraudes e dá resultados quase imediatos? Quem tem medo do sistema? Por que diabo ninguém fala nisto?)

14 comentários:

Anónimo disse...

Deixe lá a gente votar com a cruz no quadradinho, Senhor Embaixador, permite a expressão de uma grande criatividade nos votos nulos e obriga-nos a usar a caneta ou esferográfica, esses comprovados instrumentos de escrita. Deixem-se de modernices, que bom e contar os votos a mão!

a) Feliciano da Mata, defensor do regresso ao passado sem passar pelo presente, possível criador de um novo partido, enquanto o processo que injustamente lhe foi movido continuar bloqueado no Citius...

Anónimo disse...

Diga-me, Senhor Embaixador, em quem votou o infelizmente derrotado ( no referendo de 1988, mas ao menos fizeram-no! ) Imperador do Brasil?

a) Henrique de Menezes Vasconcellos (Vinhais)

Chama a Mamãe! disse...

Sinceramente? Costumo dizer que o Brasil tem muitos "brasis". A Região Amazônica é um desses "brasis", desconhecido pelos governos e, pasmem, pelo povo brasileiro. Um grande número ainda imagina que índios, de arco e flecha à mão, nus, e pintados transitam pelas ruas, normalmente; também creem que onças, jacarés, macacos estão "lanchando" nos bares da cidade!
Há muitos "brasis": os inventados pelo marketing das campanhas; o da realidade da falta d´água no sertão; o das favelas...e o "BRA$il" dos políticos poderosos...de colarinho branco, arrotando que fazem isso e aquilo, mas só embolsam o erário em suas contas faraônicas.
Arre égua! E isso tem passado de geração em geração.

Anónimo disse...

Porque... "com papas e bolos se enganam os tolos"

Chama a Mamãe! disse...

Bem, no meu caso detesto papa (trauma da infância) e não sou adepta de bolos.
Mas certamente há quem se deixe enganar por uma promessa de dentadura(e olha que a arcada dentária nem está completa). Sabes?Se calhar, o eleitor é mais corrupto do que o político.

Pedro disse...

Ótima reflexão. Sem ressalvas, nem acréscimos. Inclusive quanto ao jogo sujo, que, a bem da verdade, está lá desde o início da campanha.

Se bem que o jogo sujo é mais eficaz no primeiro turno: no segundo, o eleitor está vacinado.

PS dos comentários: O referendo foi em 1993!

António Almeida disse...

Será interessante o debate entre os dois candidatos mas a regra de quem está no poder e se recandidata ganha em 99% das vezes vai acontecer.
Sim é estranho porque é que o voto electrónico ainda não chegou cá,nós que temos uma grande propensão para a electrónica ,veja-se os telemóveis,o multibanco,a via verde no caso do voto electrónico, até já fizemos umas tentativas mas há qualquer grão na engrenagem que está a impedir o inevitável, serão só os Velhos do Restelo ou há qualquer outra razão escondida cujo rabo de fora ainda está dentro?

Anónimo disse...

A 'velha senhora' encanta-se e 'mete-se' (a despropósito) com o seu admirado Alcipe:

frio humor do mata mata
mata mais que o do vinhais
que não ata nem desata
a fingir crer nos reais
figurões com que nos mente

sim eu sei reconhecer
que há talento e há saber
nessa linda e vária gente
que a exemplo de pessoa
multiplica opiniões

tudo alcipe, ai, bem me soa
tudo alegra os corações

fora eu jovem e boa
ia aí co'os meus limões…

Anónimo disse...

só o Brasil tem esse modelo de voto eletrônico, muito fácil de fraude, ainda mais um país rico em fraudes. Nem o Paraguai quis adotar esse modelo.

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Anónimo das 16.53. Não é verdade que só o Brasil use o voto eletronico. Confira pf. Quanto às fraudes, por que será que as forças políticas brasileiras não põem em causa o sistema. A haver fraudes significativas, seria de esperar uma contestação, não acha? Serão masoquistas?

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Anónimo das 16.53. Não é verdade que só o Brasil use o voto eletronico. Confira pf. Quanto às fraudes, por que será que as forças políticas brasileiras não põem em causa o sistema. A haver fraudes significativas, seria de esperar uma contestação, não acha? Serão masoquistas?

Francisco Seixas da Costa disse...

Aditamento ao comentario anterior: http://en.m.wikipedia.org/wiki/Electronic_voting_examples

Pedro disse...

As fraudes eleitorais mais comuns no Brasil costumam acontecer fora das sessões eleitorais: a chamada "boca de urna", compra de votos, distribuição de brindes e condução de eleitores.

O corpo técnico da Justiça Eleitoral brasileira é bom: as urnas são auditadas e lacradas antes, e periciadas depois das eleições, sendo impresso um extrato dos votos em papel (sem identificação); não há acesso das urnas à internet (a fraude teria de ser feita urna a urna, com violação do lacre e alteração de códigos, o que a perícia detectaria); sem falar no controle feito pelos partidos, os quais têm suas estimativas de votos por região.

Conta a favor o fato do brasileiro gostar dessas modernidades: o imposto de renda é feito via internet e o sonho de consumo da juventude aqui é um smartphone.

Anónimo disse...

é fácil fraudar o voto no Brasil.
A estrutura do TSE também é única no mundo. O TSE tem pra si o poder de legislar, julgar e determinar regras. É o TSE o único órgão que decide o que é certo e errado. O juiz que decide tudo foi nomeado pelo PT, Dias Toffoli, que foi advogado do Lula e do PT. Já aí reside o perigo. A Argentina também tem o voto eletrônico, mas em nada se assemelha ao brasileiro.
O que os técnicos dizem:
https://www.youtube.com/watch?v=Op9N2EyoZHo