quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Os dias e os anos da Europa

Foi uma conversa curiosa aquela que, em 30 de maio passado, e a propósito da Europa, tive nas páginas do "Jornal de Negócios" com o meu colega e amigo Marcello Mathias, tendo como "mediadora" Anabela Mota Ribeiro, uma profissional do jornalismo que alia à sensibilidade e à cultura uma inteligente serenidade que, de há muito, a converteu numa das grandes entrevistadoras da nossa imprensa.
 
A Anabela (que vim a descobrir que é vilarealense como eu) publicou agora a nossa conversa no seu site - um local onde estão acessíveis muitos outros diálogos que conduziu (e cuja consulta vivamente recomendo). Aqui deixo o nosso, com uma das excelentes fotografias que o ilustraram, da autoria de Miguel Baltazar. 

2 comentários:

Anónimo disse...

vilaRRealense

Joaquim de Freitas disse...

Interessante, este diálogo, Senhor Embaixador. No fim da leitura, retiro a impressão que os Senhores passaram ao lado da verdadeira razão do fracasso programado da UE.

Se De Gaulle e Adenauer queriam realmente afastar para sempre o espectro da guerra na Europa, pois que a paz no nosso continente só é possível se as duas grandes nações estão ligadas por interesses comuns muito fortes, e se o problema da Inglaterra , esse porta-aviões US ao largo da Europa tinha sido igualmente previsto por De Gaulle, que a queria "naked", à poil" ou em"slip" , como quisermos, o que se verificou finalmente é que a construção europeia foi concebida desde a origem para garantir a perenidade dum regime de liberalismo económico absoluto. Os tais "peritos" de que falam desviaram o projecto.

O tratado de Maastricht (1992) reforça ainda esta escolha fundamental, e proíbe toda outra perspectiva alternativa. Como dizia Giscard d'Estaing : "o socialismo é doravante ilegal".

Quanto ao tratado de Nice, à qual o Senhor Embaixador assistiu, foi uma verdadeira vigarice. Como o de Lisboa, onde Sarkozy desviou o voto dos Franceses, que tinham votado negativamente, mas que fez aprovar pela sua maioria parlamentar em Paris. Uma vigarice mais.

Esta construção era por conseguinte, naturalmente antidemocrática e aniquila o poder dos Parlamentos nacionais eleitos, cujas decisões eventuais devem ser conformes às directivas do poder supranacional definido pela pseudo constituição europeia.

O "défice de democracia" das instituições de Bruxelas, através da qual opera a ditadura neo liberal, foi e é conscientemente imposta.
Aos iniciadores do projecto europeu, Jean Monet e outros, não lhes agradava a democracia eleitoral e deram-se como objectivo de reduzir o "perigo", isto é, o de nao permitir a uma nação de partir sobre outros caminhos que aqueles traçados pela ditadura da propriedade e do capital.

Com a formação do capitalismo dos monopólios generalizados, financiarizados e globalizados, a partir de 1975, a UE transformou-se num instrumento do poder financeiro absoluto destes monopólios que detêm hoje o poder absoluto.

O contraste da direita conservadora/esquerda progressista, que constituía a essência da democracia eleitoral evoluída, foi, por causa disso, aniquilado, em beneficio duma ideologia de "pseudo" "consensus".
Quando penso que nos venderam a UE como uma futura potência económica igual à dos EUA e autónoma em relação a esta, e que vemos a UE subalterna sob o poder da NATO, isto é dos EUA ! Mais uma vigarice.

Sem correr o risco de nos enganarmos, sabemos agora que o regime económico absoluto imposto pela constituição europeia, não é viável. Sabemos que o que visam é a concentração crescente da riqueza e do poder, em beneficio da oligarquia dos seus beneficiários, com um preço que sabemos exorbitante : a austeridade permanente, a regressão das vantagens sociais, e a estagnação.

Quanto ao novo projecto de integração económica atlântica , já conhecemos o resultado: O mercado europeu será submetido às decisões do mais forte, os EUA. Adeus a independência da Europa. Não há diplomacia que possa negociar o contrario. Disso o Senhor sabe mais que eu.

Não apreciei o comentário de Schröder : " a França viaja em primeira com um bilhete de segunda"! Esse falso socialista, o inventor das leis Harz dos salários de 400 euros, empregado de Putine hoje, esquece que foi a França e os outros países europeus que pagaram os custos da reunificação, e que só a "bondade" de Mitterrand permitiu à Alemanha de recuperar o Deutsche Mark com a paridade do Euro, que tanto mal nos faz hoje.