quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Duas ou três... gotas!

Um contido espirro de um amigo, na tarde de ontem, trouxe-me à memória uma história antiga "de espirros", que marcou algumas viagens diplomáticas em que participei, no final dos anos 80.

Era um colega mais velho, homem muito agradável, excelente companheiro, com um ar sempre sorridente. Tinha um "problema". Por uma qualquer razão, espirrava com grande frequência. Nada de grave, estarão a pensar... De facto, isso não teria a menor importância não fosse o facto de o seu espirro ser, como alguém dizia, imenso, fragoroso e "de leque", quase a 180º, com uma incontrolada projeção de perdigotos por quem tinha o azar de se situar no seu vasto horizonte de "ação". O ato nele era tão súbito que nunca tinha sequer tempo para procurar um lenço, pelo que a explosão liquefeita saía sempre em frente, com uma força de projeção muito assinalável. Um espetáculo para quem assistia, um horror para quem o sofria!

A experiência havia-nos mostrado que a mudança de temperaturas tinha como consequência originar uma maior frequência desse fenómeno. Por essa razão, sempre que ele nos acompanhava, em viagens aéreas ao estrangeiro, os mais experientes, alguns dos quais suas anteriores "vítimas", procurávamos garantir lugares bem longe dele, onde pudéssemos estar a salvo desse temível e quase inevitável "chuveiro". Fazíamos isso com real pena, porque ele era uma ótima companhia.

Um dia, numa viagem na Europa, havíamos tido o especial e discreto cuidado de garantir-lhe um lugar numa ala lateral do avião. A seu lado, ia benjamim da delegação, cuja falta de antiguidade justificava o risco a que o submetíamos... O resto dos nossos viajantes, que incluía um membro do governo (já não recordo se alertado ou não), sentava-se prudentemente na zona central do avião. A viagem começou. Minutos depois, o nosso colega levantou-se e, de pé, começou a conversar conosco, que continuávamos sentados. Deu-se então conta que toda a fila à frente da nossa estava vazia. Com naturalidade, veio colocar-se de joelhos, num assento à nossa frente, a muito curta distância.

Pressenti de imediato o "perigo". Como ia junto à coxia, levantei-me e coloquei-me ao seu lado. Os restantes colegas da delegação, menos avisados ou encurralados, permaneceram no seu "raio" potencial de "bombardeamento". O ar condicionado, alguma poeira ou outra qualquer razão levaram, minutos depois, ao inevitável "grande espirro". Que, como nele era habitual, não foi nada contido. Pelo contrário, foi "generoso", com um efeito visível no vestuário (e até na cara!) dos colegas. E não foram duas ou três gotas... Assistiu-se então a uma debandada geral, na busca da casa de banho. A reação foi tal que nem o membro do governo teve prioridade na busca da lavagem redentora. Só visto! 

Ainda tens esses terríveis espirros, Manel?

7 comentários:

Isabel Seixas disse...

Teve piada.

patricio branco disse...

boa historia

opjj disse...

V.Exª. fez-me lembrar um CHEFE (só durante 1º Ministro Mário Soares vieram uns 40 directores), que contava mais de 30 espirros. Todos sabíamos e só tínhamos de esperar uns minutos caso fosse necessário.Era um homem afável e inteligente.
Cumps.

Anónimo disse...

A arte de transformar situações pouco confortáveis em episódios tolerantes e joviais.
Para as proximas viagens, se o "Manel" ainda tem esses espirros, eu posso emprestar-lhe a máscara de esgrima de que já não preciso. Sempre retem algumas projeções...
José Barros

Anónimo disse...

ehehehehe... Meu nome também é "Manel" mas não sou o protagonista da sua história. Também sofro dessa alergia com as mudanças de temperatura dentro de casa, mas tenho tempo para me socorrer do lenço...Mas que é desagradável, lá isso é!

Anónimo disse...

Ó Senhor Embaixador, a minha Lizette (que lhe manda cumprimentos) quando leu o seu post virou-se para mim a rir e disse: "És tu!". Respondi-lhe "Lizette, nem sou colega do Senhor Embaixador, nem me chamo Manel!". Que estranha associação de ideias ela foi ter…

a) Feliciano da Mata, homem do mundo, vasto mundo e que não se chama Raimundo

patricio branco disse...

num conto de tchekov, um espectador num teatro espirra e atinge com a chuva de gafanhotos o espectador que estava na fila da frente, por sinal uma importante e conhecida personalidade militar, um general.
pede desculpa, uma, duas vezes, de novo no fim da peça, escreve depois cartas ao general a insistir nas desculpas, o sentimento de culpa e vergonha vai aumentando, chega a ir a casa do general, que aliás desculpou o sucedido desde o inicio e não quer saber nem ouvir mais do espirro que o atingiu.
o fim é tragico, o espirrador não aguenta a vergonha e angustia e suicida-se (ou morre de ataque cardiaco, já não me lembro e não vou agora ver ao livro).
a historia do colega com ataques de espirro é diferente...