segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Direito ao "copianço"?

Há uma prática regular na nossa imprensa com a qual, desde há muito, convivo mal. Se, no sábado, o "Expresso" traz uma "caixa" qualquer, há sempre um jornal diário "pendura", logo no domingo imediato, que disso faz uma notícia própria, citando naturalmente o colega, mas "roubando" a notícia, assim enchendo uma página com o trabalho do outro. As televisões são também useiras e vezeiras nesta forma de atuar, "pilhando" o esforço dos outros, normalmente nos telejornais do almoço.

Há dois dias, o "El Confidencial" (um excelente site espanhol, que vivamente recomendo) trazia a história de um "jotinha" do PP espanhol que andava a fazer carreira e a sacar vantagens através de uma desbragada promoção pessoal. Passaram 24 horas e logo a nossa imprensa, sem acrescentar rigorosamente nada de novo ao trabalho do jornal espanhol, encheu páginas com as mesmas fotos e com textos similares. O normal seria que fosse publicada uma tradução do artigo do "El Confidencial", com liquidação dos necessários créditos. Mas não senhor! Uns ditos "jornalistas" fizeram de conta quer escreviam textos sobre o caso quando, na realidade, se limitaram a copiar. E a assinar.

Isto é mau jornalismo ou sou eu que estou equivocado? 

9 comentários:

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Caro Francisco

Não está equivocado, ponto. Não é MAU jornalismo, é PÉSSIMO. Para ser mais claro: NÃO É JORNALISMO. E nem sequer é "jornaleirismo".

Como oficial do mesmo ofício custa-me ver "crimes" desses; eu nunca os faria. Mas, se o Mundo está uma lástima, os "copianciadores" (que nem são copistas) estão em conformidade com ele. E agora, chamem-me velho, idoso, ultrapassado, cota, gágá...

Mas, profissionalmente tenho um enorme orgulho: NUNCA ME VENDI! E NUNCA COPIEI!

Abç

Anónimo disse...

Senhor Embaixador,

há pior, no caso que relata. É que essa gente, além de preguiçosa e deontologicamente pouco honesta, é ignara no que respeita à língua-pátria. Pululam na nossa imprensa - sobretudo a desportiva, logo a mais lida... -, de há uns anos a esta parte, os castelhanismos. Ele é o "eleger" - quando se queria dizer "escolher" -, o "desde" Fátima - corretamente, "de Fátima" - o "golaço" - obviamente "golão" - a "ilusão" - quando o que se pretende afirmar é a "esperança" ("ilusión", em castelhano não significa apenas ilusão), para citar apenas os exemplos que me vêm agora à memória.
Lendo mal o inglês, tendo deixado de ler em francês, desconhecendo o que é isso de alemão, e muito menos o velho latim, o nosso jornalista médio (e mediano) volta-se para o que está mais à mão, com as consequências que estão à vista, e outras, bem mais gravosas, que aí virão.
Continuo a dizer que V. Ex.ª também tem, nesta triste situação, culpas no cartório, mas isso fica para outros escritos. Entretanto, os habituais cumprimentos respeitosos, deste seu leitor,
A. Costa Santos

Portugalredecouvertes disse...

é verdade que com frequência
as mesmas noticias costumam passar em todos os jornais televisivos, e são repetidas ao longo do dia, como se fossem todos à mesma fonte do que deve ser distribuído aos espectadores

Anónimo disse...

O problema está colocado de modo algo estranho e alheio às categorias em que se movimenta o jornalismo e às limitações colocadas a montante.

Raciocinemos e saiamos do gasoso para cair nas questões práticas: No caso do Expresso, qual será o problema de outro jornal refirir a cacha atribuindo-a ao seu autor original?

Será que os jornais têm todos acesso às mesmas fontes e em igualdade de condições? Será que têm todos a capacidade de arranjar notícias de certas áreas que o Expresso tem? Ainda não há muitos anos, Sócrates e Costa arranjavam sempre maneira de não falar com um certo tablóide. Como se arranjará um jornal que não consiga chegar à fala com as fontes que deram cacha a outro? Ou como fará se as fontes apenas confiarem no jornal a que deram a cacha, ignorando ou desmentindo outro que entretanto tente aprofundar ou confirmar o trabalho do primeiro?

Qual a solução quando o objectivo do jornal é informar os leitores? Faz-se de conta que a notícia não foi dada? Ignora-se a exigência e o dever de informar os seus próprios leitores?

Solução, replica-se a notícia do outro, atribuindo-se o seu a seu dono e cumprindo a missão primeira do jornalismo. Por outro lado, pode o novo jornal replicar os passos do outro e conseguir a mesma informação. Dá como se fosse sua, ou será preferível citar o outro e passar à frente indo investigar outra coisa já que aquilo está feito?

Qual a missão/competência/obrigação primeira do jornalismo? É informar. Não é ser original. Isso será quando muito uma cortesia aos leitores e um objectivo a cumprir na maioria dos casos. Naqueles em que der.

O mesmo se passa com as notícias de Internacional. Seria possível noticiar o mundo, sem recorrer ao trabalho dos outros? quando muito dava para um par meia-dúzia de cidades mundiais e ainda assim, mal e porcamente: o correspondente nunca poderia ir a mais que um ou dois assuntos por dia e em primeira mão. Que fazer com casos como Israel, Afeganistão ou Iraque ou União Europeia? Assim, servem os outros jornais internacionais como agência - o que aliás deve ser referido.

O jornalismo é para dar conta do que é público e se um jornal estrangeiro publica, vai deixar-se de publicar para discutir o valor mercadoria da notícia? E se o outro jornal - pode fazê-lo - não aceitar que lhe traduzam a notícia nas condições em que sugere? O El País pode ter uma cacha e ter um contrato de exclusividade com um jornal português. Os outros fazem o quê? Fazem um artigo a lamentar-se junto dos seus leitores por não terem sido eles a negociar a exclusividade? E quando o La Vanguardia, o El Mundo, o ABC, o Publico.es, etc se lembrarem todos de trazer cachas boas? Ganha o jornal que tiver negociado o maior número de contratos de exclusividade?

Graça Sampaio disse...

Não está equivocado, não senhor!!É mesmo "copianço" descarado!

Bmonteiro disse...

Inconcebivel.
Resulta da nova economia na imprensa?
De algum novo tipo de formação, agora que não dispensa licenciatura?
Falta de recursos humanos e trabalho precário na imprensa?
Elementar, ou não?

Anónimo disse...

É mau jornalismo e o senhor chegou tarde à indignação. Que raio, foi preciso uma "espanholice" para o fazer sentir-se picado?

Anónimo disse...

Mas não existem os direitos de autor e os direitos conexos?
VW

Anónimo disse...

bem sei que venho anónimo, às 20 de Outubro de 2014 às 22:34, e presunção e água benta..., mas ainda não vi um comentário que acrescentasse algo ao que escrevi. Agora até os direitos de autor sobrepõem ao direito a ser informado, uma das bases da democracia.