sábado, 18 de outubro de 2014

Boa Nova


O espaço está modificado, modernizado, "confortabilizado" - nomeadamente face a esta imagem já antiga. A "Casa de Chá da Boa Nova", a obra emblemática do início da carreira de Álvaro Siza Vieira, que esteve encerrada durante alguns anos, depois de ter sido um restaurante algo incaracterístico de Leça da Palmeira, ganhou agora uma nova vida sob a batuta do "chef" Rui Paula, estando hoje transformada na oferta gastronómica mais "fashionable" do Porto.

Conheço o Rui Paula há muitos anos, desde os tempos do "Cêpa Torta", em Alijó, onde se revelou como uma inventivo utilizador dos produtos tradicionais. Depois, visitei-o várias vezes no "DOC", na Folgosa, entre a Régua e o Pinhão, onde ganhou as suas esporas de grande senhor da cozinha. Escrevi um dia um texto sobre uma experiência peculiar que por lá tive. 

Mais tarde, assisti ao despertar do "DOP", no Porto, um belo espaço perto da Bolsa, onde, com sucesso, ele ousou arriscar a exigente cidade. No meu heterónimo "Augusto Maria de Saa", um cronista gastronómico despretencioso, escrevi na "Sábado", vai para quatro anos, duas páginas elogiosas sobre o bem que se comia (e come) no "DOP", notas não isentas de algumas reticências sobre outros aspetos (repito: para além da comida, sempre excelente) do então funcionamento da casa. Questões que, entretanto, vi corrigidas. Nunca falei com o Rui sobre isto, como é de regra.

Depois, o Rui Paula passou a dirigir o restaurante do "Palace Hotel de Vidago". Sólido, constante (que é o mínimo que se pede a um restaurante) e cuidado, o "estilo Rui Paula" demonstrou igualmente um salto qualitativo na preparação das equipas - questão essencial para quem, por virtude da dificuldade da ubiquidade, não pode atender a todos os espaços que se reclamam do seu nome, como sei que é o caso do seu "Rui Paula", no shopping "Riomar", no Recife, que ainda não visitei (até porque o "meu" restaurante pernambucano de eleição é o grande "Leite").

Famoso agora pela televisão, consagrado pelo público, trabalhador incansável a um limite que às vezes me parece exceder o aceitável, o Rui Paula é, no meu entender, um expoente dentre uns escassos "chefs" que se esforçam por trabalhar coisas portuguesas com requinte cosmopolita, de uma forma original e criativa. Trata-se de um trabalho complexo, exigente, que implica mobilização de equipas que (presumo eu!) não deve ser barato formar (e que demorará sempre tempo a adquirirem um ritmo natural, fugindo ao maneirismo de procurada sofisticação a que o lugar apela) e manter, com as consequências óbvias na dimensão da fatura final que o cliente pagará. 

Mas o resultado do trabalho do Rui Paula na "Casa de Chá" - que está lindíssima, na simplicidade elegante que o espaço sempre teve - é, na minha opinião, excelente. Só lhe desejo muita sorte. Que bem merece.

9 comentários:

Portugalredecouvertes disse...


bom dia Sr. Embaixador
são de louvar as pessoas que não cruzam os braços diante das dificuldades e transtornos da economia e da sociedade, e que também lutam para manter os postos de trabalho e a dignidade dos habitantes dos locais
bom fim de semana para si e para os seus leitores
Angela

Anónimo disse...

Fin connaisseur de la foodsphere ! C. FALCAO

Malu disse...

Na linda Casa de Chá "o mar bramia e erguendo o dorso altivo sacudia a branca espuma para o céu sereno" (trecho do poema Ouvir Estrelas de Olavo Bilac)

Isabel Seixas disse...

Presumo interdito por razões óbvias a remunerados com salário inferior a 1600€, inquilinos dos bancos portugueses...

Mas congratulo-me ...

Quem sabe não faz um pacote módico de dieta mediterrânica para comemorar dias de festa sem retorno...

Anónimo disse...

O Sr. Embaixador parece o JHS dos tempos modernos. Para mim ainda bem!
Ao ver a foto pensei que ia falar de arquitetura... É que eu passei largos tempos deliciosos (e não era gastronomia) na CCVN muito antes de saber o que era arquitetura e muito menos quem era SV. No primeiro contacto que tive com outras obra de SV disse, na minha ignorância na matéria, que não prestava. É o autor da CCVN! AH, presta, presta!...
(Como aquela anedota dos dois fulanos que veem uma feiosa e um deles diz: não dava um "beijo" naquela nem que me pagassem. É minha irmã! AHH, dava, dava, dava...)
antonio pa

Anónimo disse...

Qualquer bom tansmontano troca os bb pelos vv
antonio pa

João P Seixas disse...

Visitei a Casa de Chá da Boa Nova no Verão de 1970 integrado num grupo de cinco jovens amigos que depois de um almoço em Leça e de uma visita ao farol, uma zona na altura que era um autêntico deserto, resolvemos ir tomar um café à Casa de Chá da Boa Nova. Saímos de lá muito divertidos com o preço do café que pagámos, pois demorou mais de vinte anos para aquele preço ter sido ultrapassado, não por um lugar de excelência, mas sim pela inflação!

Anónimo disse...

Sr. Embaixor, queira, pf, aceitar esta errata:
A casa de chá da Boa Nova não foi projectada pelo Arqto. Siza Vieira, mas sim pelo Pf. Távora.
Na altura Siza Viera era colaborador no atelier do Pf. Távora (que trabalhava, na altura, na camara de Matosinhos), como tal não podia assinar projectos para essa Camara. Assim o seu colaborador assinou o projecto.
Bjnhs,
VW

Anónimo disse...

Boa polémica! E não só pelo autor ser, afinal, Fernando Távora! Estamos (alegadamente) perante um caso (entre milhentos) de assinatura de favor! Será que médicos e advogados também “assinam” trabalhos de outros colegas?
Neste caso tanto me faz: Tratar-se-á sempre de um enorme projeto de arquitetura, pelo simples facto de que perdura!
antónio pa