quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Às vezes por uma rosa

 
Ontem à tarde. Era um café de bairro, muito pequeno, com duas mesas apenas, daqueles que servem refeições rápidas. Eu era o único cliente, para uma bica. Dentro do balcão, dois homens, claramente sócios. Discutiam como se eu não estivesse por ali. A relação entre os dois tinha algo de estranho, como se houvesse uma afetividade já ferida pelo desgaste de uma difícil vida em comum, que visivelmente não se resumia àquele confinado espaço. Um deles, um pouco mais velho, queixava-se de que o outro não colaborava como devia, que algo que lhe competiria fazer nunca aparecia feito. O outro, barba de três dias, esquálido, de olhar vidrado, mostrava um estado de tensão cada vez menos contida. "Já ouvi. Acabou! Não digas mais nada!". O primeiro insistia, mais sereno na aparência, o que sugeria uma espécie de assumida autoridade. "Já te disse que isto assim não pode continuar". A minha bica, praticamente sem que qualquer deles me olhasse, lá surgiu. "Vais-te arrepender, se não te calares", disse o admoestado, num crescendo de raiva. Estranhamente para os costumes, as suas vozes não subiam muito. Pelo contrário, soavam a remoques que a sua proximidade física, atrás do balcão, transformava numa coreografia teatral bizarra. "Eu digo o que quiser! Tenho razão!", insistia o primeiro, em jeito de persistir em esgravatar no mal-estar. Foi então que, comigo sempre "ausente", vi a faca surgir na mão do outro. Separava-os nem um metro. Com a voz a tremer, apontando-a junto à cintura, saiu-lhe: "Já faltou mais para te espetar isto nas tripas!" Um sorriso amarelo surgiu na face do primeiro, que, no entanto, ousou ainda a provocação: "Não tens coragem!". Vi então uma chispa no olhar do da faca e não me contive: "Meus senhores! Calma!". A faca foi pousada sobre o balcão. Tive a sensação de que o mais novo, que me servira a bica, só então olhou para mim, de forma fixa, bem no fundo dos olhos. "Quer pagar o café?". Paguei e saí. 

Lembrei-me então de Manuel Alegre:

Aqui viviam morriam. Tinham suas mulheres
suas tabernas seus adros
seus ódios e seus amores.
Aqui às vezes matavam.
Por uma vaca. Uma galinha. Água. Desespero.
Por uma coisa de nada:
às vezes por uma vaca
às vezes por uma rosa.

Naquele caso, seria mais pela rosa do que pelas mulheres.

Este país anda muito nervoso. 

6 comentários:

Anónimo disse...

Espero que tenha pedido a um polícia para lá dar um salto. Se assim não fez, tente não ler o Correio da Manhã, hoje...

Anónimo disse...

Uma rosa ou um cravo são sempre um bom motivo para trocar galhardetes, como bem recentemente, noutro contexto, se viu...

David Caldeira

Anónimo disse...

E assim se prova que qualquer coisa pode ser um "poema". Basta o nome de quem a escreve.

Portugalredecouvertes disse...

penso que é necessário ter cuidado com a pobreza moral
sem chegar à violência das situações, lembro que

é mais ou menos o que se diz de Brecht
"Continua fecundo o ventre de onde surgiu a besta imunda"

Anónimo disse...

Hummm, cá para mim eles estavam combinados....mas ainda assim, muito bem escrito, sim senhor!
Contudo, para mim o melhor da ilusão está na "porta"! Desta vez não é janela! Certamente será para fugir a sete pés!

Anónimo disse...

Sr. Anónimo das 14.10:
Desconfio sempre de quem sai a terreiro defendendo guerras alheias. Bom, se o troféu é de qualidade....valerá a pena!
Mas esta desconfiança nada tem a ver com a Sr. Embaixador, pessoa por quem nutro grande simpatia e consideração.