segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Memórias diplomáticas

 
Há semanas, falei por aqui dos três postos que gostaria de ter tido na minha carreira diplomática. Dentre eles, mencionei a Espanha e Marrocos. Lembrei-me disso ao acabar de ler as memórias do meu colega João Rosa Lã, que teve o privilégio de ser embaixador nesses dois países tão importantes para a nossa política externa. O livro chama-se "Do outro lado das coisas - (In)confidências diplomáticas".
 
Existe um notório défice de memórias diplomáticas no nosso país. Raros são os profissionais da carreira que passaram para o papel o saldo das suas experiências e isso prejudica fortemente a construção da nossa história diplomática e a compreensão da evolução das relações externas de Portugal. Com uma carreira muito diversificada, que incluiu algumas das grandes embaixadas portuguesas (como Washington, Bissau, Madrid e Paris), João Rosa Lã adquiriu uma visão alargada das grandes questões que têm marcado o nosso relacionamento internacional - e tem opiniões concretas sobre elas, que deixa abertamente registadas neste trabalho.
 
Para além de algumas curiosas revelações, fruto de contactos havidos durante a sua carreira de mais de quatro décadas, o livro de João Rosa Lã, ultrapassa o mero testemunho pessoal de um percurso profissional para se transformar num utilíssimo repositório de informação sobre os principais dossiês em que se viu envolvido, muitos deles de grande relevo para diversas dimensões da nossa ação externa. Construído numa escrita ágil e "reader's friendly", a obra oferece ainda, aos mais curiosos, uma "janela" sobre a vida interna do Ministério dos Negócios Estrangeiros e da sua rede pelo mundo. Para um colega do "métier", estas memórias têm o aliciante suplementar de trazerem - nas suas linhas e entrelinhas - comentários e observações que se cruzam com a nossa própria perspetiva das pessoas e dos factos.
 
Para dar um abraço de felicitações ao João, irei estar, com muito gosto, no lançamento do livro, que terá lugar na Sociedade de Geografia, pelas 18 horas da próxima quinta-feira, dia 25 de setembro. A apresentação da obra, que tem um prefácio do professor Adriano Moreira, será feita por Jaime Gama. 

8 comentários:

patricio branco disse...

um exemplo a seguir, esperemos que tambem pelo autor do blogue 2 ou 3 coisas, que muito de interessante e util terá a dizer, como se vê por aqui...

Anónimo disse...

Nõ sabia deste livro do João. Vou ler.
a)Rilvas

Anónimo disse...

Aguardamos ansiosamente a publicação do primeiro volume das suas memórias diplomáticas, políticas e pessoais.

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro anónimo das 18.41. Se ler "para trás" neste blogue já encontrará as minhas memórias. Para quê outras?

Anónimo disse...

É uma pessoa encantadora e que teve a amabilidade de convidar para jantar quando embaixador na Haia.

Anónimo disse...

Senhor Embaixador

Leio com regularidade e satisfação o seu blog desde há vários anos, mas confesso que sou daqueles que acham que os livros em papel são bastante mais agradáveis de ler que o digital, apesar de ocuparem mais espaço.

Anónimo disse...

Comentário tardio da 'velha senhora', a quem só agora (mea culpa) dei conhecimento do post:

venha o livro, embaixador,
que a net é sopro no ar.
já tenho aqui onde o pôr:
co'o alvarinho,no bar,
pra gostá-los com amor!

João Loureiro disse...

Sr.Embaixador,

No seguimento do seu texto no qual indica que gostaria de ter tido oportunidade de assumir o desafio em Marrocos, permita-me que lhe conte uma história, certamente apócrifa, mas sobre a qual gostaria de saber a sua opinião.

No passado recente, um grupo de empresários portugueses ligado às pescas foi recebido pelo ministro Marroquino que tutelava esta área. Chamou a atenção dos patricios presentes um mapa da peninsula ibérica, a qual parecia decalcada dos nossos manuais de história sobre a expansão máxima do islão no séc VIII.

Ou seja, toda a península estava sob uma só cor, desde Gibraltar até aos sopés dos Pirinéus.

Despertada a curiosidade, no seguimento dos formalismos diplomáticos que justificavam a ocasião, mais para o final da reunião lá houve alguém que teve a coragem de perguntar o motivo de desactualização do mapa, tendo presente as actuais fronteiras nacionais.

O minstro Marroquino respondeu secamente que tudo isso "era temporário".

Da mesma forma que hoje alguns de nós tem ainda nostalgia do "império", é possivel que existam outros que também o sintam passados 13 séculos o mesmo relativamente a nós?

Obrigado pelos seus textos,
JL