terça-feira, 16 de setembro de 2014

Escócia

"Por que é que não falas da Escócia?", perguntava-me um amigo, há pouco, no "foyer" de um cinema. Já tinha colocado a questão a mim mesmo e, confesso, andava a adiá-la, sei lá bem porquê.
 
Gosto imenso da Escócia, como território. Visitei-a cuidadosamente, dos lagos às destilarias de whisky, dos castelos ou das suas ruínas às grandes mansões onde hoje funcionam magníficos hotéis. Edimburgo é uma cidade fascinante, na oferta cultural, no monumentalidade da sua pedra, na vivacidade das ruas. Fui por lá, uma primeira vez, com Ernâni Lopes, para promover as oportunidades económicas portuguesas. Voltei depois, por mais de uma vez, como turista atento, com muitos quilómetros em carros alugados, às vezes dormindo em deliciosos B&B, comendo e bebendo em singulares "pubs" (como aquele que tem um balcão em que metade encerra uma hora antes da outra metade, porque fica na fronteira de dois condados, onde os horários de abertura dos bares são diferentes, o que leva à "migração" dos clientes e dos copos). E também para acompanhar o Sporting, numa deslocação a Glasgow (a noite não correu bem, mas, enfim, já estou habituado). E guardo, para a vida, o mais impressionante silêncio a que "assisti", após um jantar "gourmet" na Isle of Skye.
 
Esta é a Escócia de que eu gosto, como gosto de os ouvir a falar "à Trancoso" (que me perdoe o Vitor Gil), como faz, de forma ímpar, o imenso Sean Connery, esse genial sósia do meu querido amigo José Manuel Galvão Teles, que só rivaliza em popularidade local com o monstro de Loch Ness - mas esse aparece menos.
 
Serve isto para dizer que não tenho a menor opinião sobre a independência da Escócia (a mesma coisa já não é verdade sobre a possibilidade de independência da Catalunha), salvo a ideia de que, a ocorrer, algo de muito profundo será abalado na Europa - de que, mais cedo ou mais tarde, a Escócia irá sempre ser membro. Em tese, como profissional de relações internacionais, achava graça em assistir  "construção" de um novo país secessionista, mas sem o dramatismo de outros anteriores casos. E teria curiosidade de ver como o conceito de "Reino Unido" iria evoluir, embora não acredite na versão tipo "Inimigo Público" de que, a exemplo da Macedónia, se colocaria um "former" antes do nome. É que a sonoridade "FUK" rima mal com seriedade tradicional da coroa... Mas não sei se a graça vale o risco.
 
Algo me diz que os escoceses vão rejeitar a independência. Mas isto vale o que vale. Há três meses, também não acreditava que, tal como nas histórias de cowboys, os bancos também pudessem ser divididos em "bons" e "maus".
 
Pronto, já falei da Escócia.

7 comentários:

Anónimo disse...

Independência da Escócia = enfraquecimento do nosso aliado histórico (é-lhe indiferente)

Independência da Catalunha = enfraquecimento do nosso inimigo histórico (é contra)

Portugalredecouvertes disse...

muito bem falado!
só nos dá mais vontade de lá ir fazer uma visita a esse canto da Europa,
temos boas coisas na Europa não é?
e penso que a Escócia é uma delas dentro o fora do RU

Anónimo disse...

Como teria sido interessante descolonizar pelo voto livre (dos colonizados obviamente)! Eis um assunto em que o voto atinge a maior racionalidade. E não me parece que o analfabetismo fosse um fator minimamente determinante. A iliteracia é que é grave!
Quanto às independências europeias propaladas, resumem-se a questões financeiras. Não há razões políticas para alterar seja o que for, na minha opinião. Mas os referendos devem ser feitos.
antónio pa

Anónimo disse...

"Aliado Histório", com aliados destes vou ali e já venho! Olhe-se para a História. Que se lixe o R.U e viva a Escócia Livre!
Quanto ás parecenças entre Sean Connery e o José Manuel Galvão Teles, só se for com Connery a representar aquele papel na Casa da Rússia. E acrescentando + 15cm de altura ao JMGT.

Anónimo disse...

"Algo me diz que os escoceses vão rejeitar a independência", diz o Sr. Embaixador.
Algo me diz, também.
Talvez porque o PM bitânico lhes lembrou ontem que nada na vida é definitivo, a não ser a morte e a independência da Escócia. Sem volta. Trata-se de um NO RETURNING POINT.
E quem é que quer que o avião caia?
Eu cá votava NÃO.
Vamos ver.

João Pedro Lopes disse...

Só uma coisinha sobre independências: suponho que nada de relevante mudaria num dia típico de um catalão ou escocês caso obtivessem a independência; ambos têm e exercem livremente os seus direitos de especificidade cultural, tanto quanto me parece saber.
Assim, sobram duas razões:
- a do coração, o "sentir-se catalão e não espanhol" ou "sentir-se escocês e não cidadão do Reino Unido"; quanto a razões de coração, imagino-me madrileno, habituado a considerar a magnífica Barcelona
como "minha" e de repente "ficar sem ela". Que votem então todos os espanhóis, porque não?
- a económica, de um egoísmo que me repugna (os escoceses falam abundantemente das suas reservas de petróleo).

Cumprimentos, e unamo-nos contra a vontade de nos dividirmos

João Pedro S disse...

... e falou muito bem.

Culturas com um longo rasto histórico, bem implantadas, sâs, só ganham com um acrescento de autonomia, e responsabilidade. Ganham elas e os (novos) vizinhos.

Provavelmente este poderá ser um bom exemplo, de como bem realizar um regresso a uma autonomia.
Bom exemplo para as outras Nações em semelhante situação ... se o sim ganhar.

Haverá alguns nós a desatar. Será um demorado e cauteloso processo, "hopefully" exemplar e a estudar.