segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Caros Antónios...

Caros Antónios

Sei que, com grande probabilidade, não irão ler estas linhas porque, a esta hora, deverão estar a afinar, com os vossos estrategas de campanha, as frases com que cada um espera "arrasar" o outro, nos três debates televisivos que aí vêm. Mas será talvez por isso mesmo que me sinto na obrigação de vos escrever.

Entrámos um dia no mesmo governo, vai para duas décadas, levados pelo carisma do António Guterres, ao som do Vangelis. À nossa frente, tínhamos o objetivo de dar a volta a um país cansado de bem mais de uma década de cavaquismo. Foram tempos entusiasmantes, em que, juntos, fizemos muitas coisas de que ainda hoje me orgulho e de que, creio, o país beneficiou. Tenho o gosto de dizer que, passado todo este tempo, cimentei, com cada um de vocês, uma boa amizade, que é também de grande e sincero respeito por aquilo que, cada um a seu modo, fez por Portugal. É apenas nesta qualidade que vos escrevo - a de um "compagnon de route", em definitivo afastado da ação política, mas que não abdica de se interessar pela causa cívica.

A vida colocou-vos agora em rota de colisão democrática pela liderança do PS. Devo dizer que me sinto feliz por poder constatar que, cada um de vocês à sua maneira, representa um PS com uma elevada consciência ética. Convosco, os portugueses sabem que estão a tratar com gente de bem, porque vocês fazem parte, em termos de honestidade e de serviço à comunidade, do melhor que o partido tem para apresentar. E essa é, desde logo, a primeira vitória deste tempo socialista que agora vos tem como protagonistas principais.

A campanha que travam era praticamente inevitável. É "chover no molhado" discutir agora se o processo das "primárias" era a maneira mais correta de testar a legitimidade da atual liderança. O António José Seguro entendeu que a vitória em duas eleições, antecedida da consagração num congresso em que abriu espaço aos que o contestavam, lhe conferia a legitimidade que lhe permitia continuar na liderança e consolidar a posição maioritária do PS. O António Costa considerou que não se podia furtar a ser a voz de muitos que se sentiam insatisfeitos, não apenas com a forma da atual liderança, mas principalmente com os resultados que o PS, enquanto oposição, ia obtendo, que viam como prenúncio de um forte risco para as hipóteses socialistas numas futuras eleições legislativas. Nunca me senti muito acompanhado quando exprimi, desde a primeira hora, que a solução das "primárias" era aquela que, muito provavelmente, permitia testar quem tinha razão, mesmo com o desgaste que esta longa campanha necessariamente representaria. 

Reduzir agora ao mínimo esse desgaste ainda está nas vossas mãos. Quero com isto dizer que os debates que aí vêm seriam, se vocês assim o quisessem, um momento de transformar aquilo que todos temem que venha a ser uma lamentável "guerra" fratricida num tempo de assestar baterias naquele que é o adversário comum, não apenas do PS, mas do próprio país em geral - uma ex-maioria a quem os portugueses deram há pouco tempo o mais arrasador voto de desconfiança de que há memória na nossa história democrática.

É mais do que claro que os militantes e os simpatizantes socialistas já sabem muito bem em quem vão votar, no dia 28 de setembro. Por isso, será uma pura perda de tempo da vossa parte estar agora a tentar "esclarecê-los" sobre qual de vocês tem o "direito" a liderar o PS ou pode ser mais eficaz na chefia futura, não apenas do partido como de um eventual governo socialista. Em especial, será tristemente auto-flagelatório se acaso optarem por "deitar sal nas feridas", com acrimónias de cariz pessoal, que só vos diminuirão aos olhos dos portugueses. E que diminuirão também a imagem do PS, por arrasto.

O que muitos gostaríamos - excluo, naturamente, dessa vontade os "talibans" e as "taliboas" de ambos os lados, que enxameiam de acidez "segurista" ou "costista" as redes sociais, as colunas de jornais e as televisões - era ver-vos concentrados na explicação serena da melhor forma de afirmar uma gestão credível para o país, como alternativa futura ao lamentável estado em que a governação que por aí anda deixou Portugal. Essa era a palavra que os portugueses esperariam de duas pessoas politicamente responsáveis, não uma "fulanização" do debate, transformada num fastidioso "eu-é-que-já-cá-estava" contra o "eu-é-que-sou-melhor-do-que-tu". Querem dar-nos uma alegria? Surpreendam-nos!

Estou esperançado de que isso assim aconteça? Aqui entre nós, meus caros, não estou. Mas até ao lavar dos cestos são as vindimas, e como o tempo delas está aí...

Com um forte e solidário abraço do

Francisco

11 comentários:

Carlos Fonseca disse...

Assino por baixo.

Um texto lúcido que, receio bem, cairá em saco roto.

Os ataques mútuos a que temos assistido, sobretudo nos últimos dias, não prestigiam nenhum dos candidatos, e muito menos os seus conselheiros. Quem ganha com esta guerra fratricida são os adversários políticos do Partido.

Infelizmente, o que vai acontecer é a continuação das "agressões", como se de inimigos se tratasse (ou será que se trata mesmo?), em vez de camaradas de Partido que são.

É por estas e por outras que me afastei há anos das tricas políticas, limitando a minha militância cívica ao exercício do direito de voto.

E, embora inscrito, começo a questionar-me se vale a pena sair de casa no próximo dia 28, tal é a minha desilusão com a "campanha" de ambos.

Defreitas disse...

A "competência" para participar na vida pública não tem outra fonte que o facto de ser cidadão. O povo, em democracia, não exprime pelo seu voto proposições que seriam mais "verdadeiras" que "outras

Porque no debate previsto a ideologia será um tema delicado, no momento em que o socialismo sufoca na Europa, os cidadãos indicarão somente para onde vão as suas preferências e se apoiam ou contesta os seus dirigentes.

Saber se existe uma possibilidade de correcção da trajectória desastrosa da social democracia, transformando num socialismo revolucionário o social liberalismo vigente, tal devia ser o objectivo.

Batalhar para o poder só para implantar um socialismo gestionário do sistema capitalista existente não resolveria o problema.

Que os dois "debaters" olhem bem para o espectáculo da França, onde o sistema da V° Republica, portanto sólido no inicio, enquanto existiam homens de alta têmpera como de Gaulle e Mitterrand, que personificavam um Estado e um Executivo fortes, agoniza hoje sob os golpes das ambições pessoais, predadoras e finalmente destrutoras.

Perante um horizonte carregado de ameaças, só um arco verdadeiramente democrático onde se reuniriam os homens e as mulheres inspirados por um verdadeiro imperativo de liberdade e de responsabilidade, politico , social e moral, poderá, là como cà, salvar-nos do caos.

Francisco Cunha Ribeiro disse...

Sr Embaixador

Gostei da equidistância, mas gostei mais da referência ( mais uma ) elogiosa a A. Guterres.

Srá que um dia destes nos poderia presentear com um ARTIGO DE FUNDO sobre a FIGURA POLÍTICA de A. Guterres como PRIMEIRO MINISTRO? É que estou cheio de ouvir dizer que ele foi um dos grandes culpados da nossa desgraça económico-financeira...

patricio branco disse...

bastava 1 debate, maximo 2 entre seguro e costa, com 1 debate entre os seus chefes de campanha, que tambem gostariamos de ouvir.
3 entre os 2 é de facto 1 frete, ouvirei só o 1ro, eventualmente um pouco do 3ro.

Mônica disse...

Francisco, Nos aqui tambem estamos com três candidatos a presidente.
Mas se fosse escrever uma carta para eles, seria bem diferente, pois cada um deles tem muitas desvantagens.
Nao sei que rumo o Brasil vai ter com a Dilma ou com o Aecio e agora crescendo com a Marina?
Sabe aquele ditado se correr o bicho pega se ficar parado o bicho vai te pegar?
Vamos ver....
Com carinho Monica

Anónimo disse...

Comentário, por uma vez entusiasta, da 'velha senhora':

sei-me chata e impertinente
mas também sei estar de acordo:
parabéns, é excelente
este post! nem recordo

nenhum outro que pudesse
me convir de tal maneira
e convir tanto ao ps,
digo-o eu, rimalhadeira.
oh yes!

Anónimo disse...

Caro embaixador, o meu amigo Alcipe não pode falar, porque esse é dos que vai lá pôr umas velinhas ao Santo António de Lisboa, mas eu, que não gosto evidentemente de nenhum deles, porque ambos não passam de reles republicanos, digo-lhe que o seu texto é inteligente e hábil na postura seguramente equidistante que sabe adoptar. Devo dizer-lhe que, ao contrário de muitos, acho que o processo das primárias até mobilizou e despertou o PS; e que aqueles que pensam que o PS está "feito" com esta divisão talvez venham a ter uma surpresa! Quem viu bem isto, aliás, num comentário televisivo recente, foi o Dr. Santana Lopes, político muito mais competente e hábil do que se pensa por aí (eu cá votarei nele, se for candidato, uma vez que o Senhor Dom Duarte infelizmente não se decide…) .

Pelo Rei e pela Grei

a) Henrique de Menezes Vasconcellos (Vinhais)

Anónimo disse...

É, cada vez mais, sem qualquer espanto, que se assiste ao afastamento total dos portugueses da política. Não há qualquer confiança nos políticos portugueses e muito eles têm feito por isso. Poder-se-á afirmar que é a política que guia o País, pois é, mas tem guiado muito mal. Os portugueses querem é que não lhes tirem dinheiro dos bolsos por inúmeros actos de má gestão que não cometeram. Agora, Seguro ou Costa, PS ou PSD, é tudo farinha do mesmo saco.

mbs disse...

se há frase que me "encanita" é a última do anónimo das 10.23... :-P

Ésse Gê (sectário-geral) disse...

Estou com Francisco Cunha Ribeiro, principalmente no que respeita a Guterres.

Anónimo disse...

A 'velha senhora' parece indignar-se com o comentário de Alcipe/Vinhais:

ai seu vinhais duma figa,
sibilino e reticente!
com que então "seguramente"
a "equidistante" assim liga,
ao comentar a postura
de sexa, sempre segura?