terça-feira, 30 de setembro de 2014

Alpoim Calvão

Morreu Alpoim Calvão. No dia 25 de abril de 1974, foi a sua estranha e nunca bem explicada deslocação matinal às instalações da Direção Geral de Segurança (ex-PIDE), na rua António Maria Cardoso, que deu alento aos respetivos agentes, os levou a optar pela resistência e permitiu que tivessem tempo para destruir importante documentação. Mais tarde, Calvão viria a ser um dos mais decisivos operacionais do MDLP, o movimento com que Spínola pretendeu reverter o curso do processo político e que ficou ligado a vários atentados, alguns mortais, no norte do país. O momento da desaparição de Alpoim Calvão não pode branquear este seu passado.

Alpoim Calvão havia sido, ao tempo da guerra colonial, um militar valoroso, titular da mais alta condecoração portuguesa, a Torre e Espada, sendo, até hoje, o mais condecorado militar da Armada portuguesa. A sua coragem era lendária e, em alguns meios, era conhecido como o "007 português". Em 1970, comandou a chamada "Operação Mar Verde", um golpe de mão ordenado por Spínola, dentro da República da Guiné, que tinha como objetivo central prender Amílcar Cabral. A ação provocou morte e destruição em Conacri, não cumpriu o objetivo essencial* e transformou-se num imenso embaraço para as autoridades portuguesas.

Soube agora que Alpoim Calvão escreveu três livros. O único que li, "De Conacry ao MDLP", é um relato essencial, pelo que diz e pelo que deixa implícito, para se entender melhor o ambiente do desastre colonial e uma certa perspetiva do período revolucionário.

* Em tempo: relevo um erro. Com efeito, o objetivo de libertar prisioneiros portugueses que estavam nas mãos do PAIGC foi plenamente atingido na operação.

9 comentários:

patricio branco disse...

um daqueles nomes perdidos na história de que conhecemos a sonoridade. pois pena nunca ter contado o que tratou na pide dgs nessa manhã, talvez apagar registos pessoais de colaboração, dele e doutros...

Anónimo disse...

"O momento da desaparição de Alpoim Calvão não pode branquear este seu passado."
Ai não pode não. Para quem tem memória nem com água benta.
José Barros

Anónimo disse...

O comandante Alpoim Galvão era contra a instalação do regime comunista em Portugal e actuou em conformidade como entendeu que deveria fazer e nunca, em momento algum, se ouviu dizer que se tivesse arrependido. Em 2010 foi condecorado com uma das mais altas condecorações da Marinha. Porque raio se deveria branquear o seu passado? O passado de um "Torre e espada" e de um homem de carácter e convicções? Caramba, parecer-me-ia demais.
João Vieira

Anónimo disse...

Acrescento que na Operação «Mar Verde» Amílcar Cabral foi morto e outros dirigentes do PAIGC escaparam por pouco.
Esse operacional condecorado (não pelos olhos bonitos, como se costuma dizer), escreveu os livros que vale a pena ler, por nunca terem sido desmentidos.
O mesmo homem (espanto dos espantos...) tinha uma excelente colecção de Arte, escolhida com conselhos deuma personalidade dita «de esquerda». Neste Portugal manso sempre se passeou no Chiado, Bertrand, etc. sem que alguém o conhecesse e lhe dissesse alguma coisa menos simpática...

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Anónimo das 20.08: não confunda. Amílcar Cabral não foi morto na "Operação Mar Verde"

Anónimo disse...

Alpoim Galvão foi o que foi antes e depois do 25 de Abril, mas sei que gostava de música e de Arte. Em 1983, organizei uma viagem a NY, para ouvir música no MET e no Lincoln Center, e Alpoim Galvão inscreveu-se com a Mulher. Havia gente de esquerda, de direita e do centro. Lembro-me, entre outros, de António Mega Ferreira, de Alfredo Nobre da Costa, mulher e filha, de dois professores de Medicina (Cascão de Anciães e Juvenal Esteves), de Maria Olga e Manuel José Vaz (saudoso Presidente do São Carlos e da Culturgest), de um futuro diplomata, Jorge Torres Pereira, hoje Embaixador em Pequim, e de vários queridos amigos . Lá encontrámos António Monteiro, número dois na ONU, João Lobo Antunes, professor em Columbia, e João Paes, Conselheiro Cultural em Washington.Todos nos demos bem.
JPGarcia

luisa disse...

Não esquecer a morte do Padre Max e de Maria de Lurdes, a jovem de 19 anos, assassinados à bomba, assassínio atribuído ao mdlp, pese embora os tribunais nunca tenham conseguido condenações

Anónimo disse...

João Vieira bem pode dizer que Calvão agiu em conformidade para evitar um regime comunista em Portugal.

Mas na sede da PIDE, no dia da revolução, pelos vistos estava mais empenhado na manutenção do regime fascista, uma vez que nada anunciava regime fosse de que cor fosse.

Helder Do Coutto disse...

Não é só por ser relíquia do Estado Novo, que isto não me incomoda nada, pois todo mundo tem Direito e é livre de escolher no que acredita. O problema com este senhor defunto é ter sido traficante internacional de armas com a proteção de um cherne que por aí anda, quem não sabe, fique a saber. E usarem versos do Dr. Torga, se ele soubesse os vergastava se pudesse.