terça-feira, 2 de setembro de 2014

25 anos

Em 2014, deveríamos estar a celebrar a passagem de 25 anos sobre o fim do muro de Berlim, símbolo da Guerra Fria. Ora a verdade é que, pelo contrário, estamos a assistir à rápida reconstituição de um novo cenário de elevada tensão.

A Guerra Fria havia criado algumas “regras” na ordem internacional, numa leitura quase comum que ambos os lados iam aceitando daquilo que Ialta tinha desenhado. Fora desse indizível consenso, em várias zonas do mundo, onde conflituavam os poderes, continuaram-se a medir regularmente as forças, com avanços e recuos estratégicos que acabaram por evoluir de forma muito díspar.

O final da União Soviética mudou tudo isso e uma apressada revisão estratégica fez desaparecer quase todas as anteriores “regras”. Do lado ocidental, tudo foi visto como uma vitória, com maior ou menor exaltação. Do lado de Moscovo, nenhuma alegria foi partilhada e, pelo contrário, o fim do país foi sentido, pelos russos, como uma humilhação nacional.  

Aproveitando a janela de oportunidade criada pela fragilidade conjuntural de Moscovo, o Ocidente cuidou em alargar o seu modelo de segurança e de desenvolvimento a Estados do centro e leste do continente, na NATO e na União Europeia. Com os EUA como claro “backseat driver”, os europeus entenderam – e bem – que o acolhimento das novas democracias nesses “clubes” era, para além de um imperativo estratégico, um gesto de justiça histórica. Como forma de “compensação”, a Rússia seria cooptada para modelos de diálogo e cooperação cada vez mais integrados. Até na NATO, que mudaria de paradigma e que quase já só se preocupava com questões “out of area”. A UE deixou-se cair num diálogo economicista com Moscovo, descansada na miragem liberal de que já não pode haver guerras entre países onde se vendem Mac’Donalds.

A ressaca histórica russa gerou, entretanto, Vladimir Putin, que foi dando iniludíveis sinais da reconstituição de um modelo autoritário com que o Ocidente fingia poder ir convivendo. Do lado de cá, os traumas históricos bálticos e polacos, com uma cumplicidade errática de Berlim, foram influenciando a UE no sentido de “esticar a corda” com Moscovo. E viu-se então o espetáculo de Bruxelas a estimular, na Ucrânia, o derrube, por um golpe de Estado, de um presidente que havia sido democraticamente eleito, como forma a garantir em Kiev um governo favorável à relação privilegiada com o Ocidente.

A UE já havia sido complacente no modo inaceitável como as minorias russas foram tratadas nos Estados bálticos e, de forma irresponsável, nada cuidou em as tentar proteger na “nova” Ucrânia. O resultado está à vista: deu um pretexto nacionalista a Putin, para quem um tratado de Direito internacional é uma obra de ficção, e ao proteger sem limites nem moderação a tática prevalecente em Kiev, colocou-nos agora na soleira de uma guerra. Para regredirmos 25 anos, já só falta fazer ingressar a “Ucrânia de Kiev” na NATO.
Texto do artigo que hoje publico no "Diário Económico"

9 comentários:

Zuricher disse...

Caro embaixador, em geral concordo com a tese que expõe mas acrescento algo. Putin só vai em frente porque sabe que não terá oposição. Tradicionalmente os Russos apenas entendem a linguagem da força. Stalin ilustrou-o bem ao perguntar quantas divisões tinha o papa deixando implícito que ao não ter forças militares era totalmente irrelevante o que dissesse. E, convenhamos, pragmaticamente estava coberto de razão. Pouco depois do final da guerra George Keenan enviou o que ficou conhecido como "Long Telegram" onde alude muito certeiramente à mentalidade russa. E isto são apenas dois exemplos desgarrados onde muitos mais poderiam ser dados indo atrás nos tempos até Ivan o Terrivel.

Assim as coisas, Putin só poderia ser forçado a pensar havendo uma ameaça credivel de uso da força. Que não há. Sabe tão bem como qualquer de nós que as familias Europeias, principalmente da Europa Ocidental, não aceitarão receber caixões com cadaveres de filhos seus. Sabe que a Europa está demasiado acomodada a uma vida modorrenta e que não aceita que esta seja incomodada com uma guerra.

Ou seja, a Europa resolveu esticar a corda sem cuidar de ter meios militares para acudir quando ela partisse. Putin "called the bluff" e vai continuar alegremente. A Ucrânia é só a segunda peça da reconstituição do império sovietico.

Anónimo disse...

Por aqui no MNE, só não leu quem não quis, pois está na síntese nacional do "site" interno do Ministério, a que todos os diplomatas têm acesso. Bom artigo!

ignatz disse...

atão a dita europa democrática patrocina um golpe de estado com intenção de prejudicar os interesses russos e vomecê queria que o putin ficasse quieto. muita paciência teve ele inicialmente até esgotar a diplomacia que a casca grossa do ocidente fez ouvidos de mercador. usaram e abusaram de má educação, valor que vexa tanto preza, fabricaram factos falsos, esgotaram sanções económicas e o rasmussen prometeu guerra, agora estão escandalizados com as queixinhas do incompetente barroso. queimaram a lenha toda e agora que faz falta para o inverno que aí vem.

patricio branco disse...

que saudades da guerra fria, havia regras rígidas respeitadas pelos 2 blocos, zonas de influência. a excepção foi quando a urss quis instalar armamento nuclear em cuba em 1962 e teve que recuar, afinal é isso mesmo que os eua através da nato estão agora a querer fazer, com a diferença que a coexistência pacifica terminou...

Defreitas disse...

Depois de ter semeado a ingerência, a guerra civil e o caos da Líbia e do Iraque, da Síria à Ucrânia, a pretensa "comunidade internacional"; formada pelos EUA e os seus vassalos da UE, atiça as chamas que ela propagou por toda a parte.

A irresponsabilidade e o desgaste político do sistema capitalista imperialista que destrói os Estados constituídos, com a cumplicidade dos media, apoiando-se sobre os Talibãs, depois sobre os Sionistas mais extremistas, e ainda sobre os nazis como na Ucrânia, ao mesmo tempo que se reclamam hipocritamente dos Direitos do Homem, conduz o mundo à fascismo e a uma nova guerra.

A Historia ensina-nos que nada se deve esperar do “backseat driver”, isto é, duma nação que se construiu sobre a violação dos 400 tratados assinados com os povos autóctones (os Índios). Os Russos compreenderam e não se deixarão levar no rolo.


O Senhor Embaixador escreve: "o Ocidente cuidou em alargar o seu modelo de segurança e de desenvolvimento a Estados do centro e leste do continente, na NATO e na União Europeia"
Mas, e a segurança da Rússia, com os mísseis da NATO à porta?

Desenvolvimento? Sim, o ocidente está muito interessado na destruição da cooperação Ucrânia/Rússia, na aquisição a preço vil das terras agrícolas do Nordeste (as famosas terras negras), no controlo dos gasodutos que alimentam o mercado europeu e a dominação das famosas terras prometidas à fracturação hidráulica (em continuidade com as formações geológicas polacas). Os planos estão, segundo parece, prontos!)

Putin propôs oportunamente negociações triparti tas com a UE e a Ucrânia para estabelecer acordos de "libre échange", nos quais a Ucrânia seria a ponte natural entre o Oeste e o Leste. Que responderam os europeus – isto é os US americanos? Que a Ucrânia devia escolher entre a UE e a Federação Russa. Creio que foi um grande erro.

Defreitas disse...

Quando o Senhor Zuricher escreve : "A Ucrânia é só a segunda peça da reconstituição do império soviético." gostaria de saber onde estão as bases militares russas no estrangeiro sobre as quais seria fundado o "império" soviético. O nome duma só base!

Em contra partida sabe-se , graças a Chalmers Johnson, professor da universidade de Califórnia e antigo consultante da CIA, os nomes das 868 bases militares americanas no estrangeiro, com os 200.000 militares e 100.000 civis que as mantêm em estado de marcha, em 46 países. A começar pela própria Alemanha ocupada desde o fim da última guerra!

Quando se quer falar de "imperialismo" é preciso permanecer na realidade.

"Império" só há um, Cher Monsieur!

Quem invadiu o Iraque e o Afeganistão? Quem bombardeou durante oito meses a Líbia para conseguir assassinar o seu presidente e uma boa parte da sua família e a maior parte dos seus partidários? Quem derrubou Laurent Gbagbo na Costa do Marfim? Que recrutou, treinou, financiou e armou aqueles doidos varridos do "allah wakbar" afim de assassinar o presidente sírio?

Aparece claramente que os governos belicosos da NATO querem levar-nos à guerra. Sanções económicas, provocações militares e acusações sem provas, (MH-17 nenhuma publicação dos registos áudio e dados de voo).

Claro que suportamos uma propaganda de guerra intensa. Os media, aplicam-se a transmitir uma propaganda visando a condenara Rússia e mesmo a odiar o seu presidente. Fabrica-se assim, pouco a pouco, o nosso consentimento à guerra.

Fazem-nos odiar e condenar estes Ucranianos que escolheram por referendo de se ligar à Rússia. Bombardeiam perante os nossos olhos estes separatistas ucranianos com toda a nossa benevolência.

Os factos sao estes.

Alcipe disse...

Não podia estar mais de acordo. Já quase só divergimos quanto a Santo Antônio: o de Lisboa ou o de Pádua?

Temos que arranjar temas fracturantes, que nos dividam, para marcarmos a nossa individualidade.

Abraço de Baku



Anónimo disse...

Aprecio os comentários lúcidos de De Freitas, umas pedradas neste charco, recheado de hipocrisia e manipulação. Cada vez me reconheço menos nesta UE actual. Por este andar, esta irresponsabilidade, ainda acabamos por nos meter numa "alhada" com sérias consequências. As mesmas vozes que atacam a Rússia de Putin, ressonam para ao lado com Gaza e os procedimentos de Israel.
P.

Anónimo disse...

Só falta acrescentar : quem vai pagar a factura?
Os EUA e a Russia acabarão (acabam sempre) por se entender , porque têm muito em comum ( dimensões, armamento nuclear...) amplas margens para negociar em prol dos interesses respectivos (Pacifico)e ...respeitam-se mutuamente.