quinta-feira, 21 de agosto de 2014

UNITA

Na sua crónica de hoje no DN, Ferreira Fernandes refere o momento em que, como "convidado" da UNITA, se recusou a entrevistar Wilson dos Santos, um quadro caído em desgraça na organização e que, pouco tempo depois, viria por ela a ser assassinado, tal como toda a sua família. O jornalista disse então a frase que todos os profissionais da comunicação social deveriam proferir em idênticas ocasiões: "não entrevisto presos".

A UNITA é um caso, ao mesmo tempo politicamente interessante e trágico, quer na vida política angolana, quer nas relações daquele país com Portugal. Em Angola, foi a sua recusa em aceitar o veredito das urnas que prolongou uma guerra civil insensata. Em Portugal, o desafeto pelo MPLA levou parte da sociedade política portuguesa a alimentar uma bizarra admiração por um movimento em cujo anti-comunismo muitos viram a emergência de uma possível Angola democrática. Romagens de admiradores lusos de Jonas Savimbi fizeram-se então à Jamba, onde "viram a luz" e as raízes do nascimento de uma Angola utópica, de que se tornariam arautos em Portugal, com ampla benevolência mediática.

Há uma coisa que essas pessoas, entre os quais conto alguns amigos, parece nunca se terem dado conta: pode e deve-se criticar sem peias a barbárie sinistra montada por Jonas Savimbi sem, necessariamente, ter de se aplaudir os métodos do governo de Luanda. (Mas esses são precisamente os mesmos que, nos dias de hoje, logo levantam o dedo acusador a quem classifique de criminosas as ações praticadas por Israel em Gaza, acusando-os de cumplicidade objetiva com os métodos terroristas do Hamas).

Importa acrescentar, para benefício de quem já se não lembrar, que as Nações Unidas (mundo ocidental incluído) condenaram veementemente a inobservância pela UNITA dos resultados eleitorais em Angola, o que levou à imposição pela ONU de um alargado conjunto de sanções à organização, aos seus dirigentes e a todos os países que dela eram cúmplices. Uma "troika" para a monitorização do processo angolano foi criada em Nova Iorque, com Portugal, Rússia a Estados Unidos nessas funções. Ao tempo em que nos coube a presidência rotativa dessa "troika", recordo laboriosos almoços na nossa residência na ONU, com os representantes permanentes russo e americano, respetivamente Sergey Lavrov (atual MNE russo) e John Negroponte (que seria depois o verdadeiro "administrador" americano no Iraque), acompanhados por Ibrahim Gambari, um nigeriano que o SG da ONU destacou para acompanhar o Comité de sanções à UNITA. Esse trabalho continuou até um dia de 2002, em que Savimbi, que optara por continuar a alimentar a luta armada, foi morto numa emboscada. A UNITA regressou então à vida política normal, mas o passado da organização e as responsabilidades do seu líder não devem ser esquecidas.

Há pouco tempo, falei aqui do impressionante relato de Dora Fonte, "O Rapto", uma cooperante portuguesa presa pela UNITA em Sumbe e obrigada, com outros estrangeiros, a palmilhar milhares de quilómetros até à Jamba, numa mera operação de propaganda da organização. Esse interessante relato dá-nos conta, de forma impressiva, sobre o ambiente de terror que se vivia no âmbito da UNITA.

Agora, acabo de ler o relato, mais contido mas também muito claro, feito por Jardo Muekalia, um importante quadro da UNITA, sobre a sua experiência como representante da organização no exterior. O caso de Wilson dos Santos, que refiro no início deste texto, é por ele desenvolvido, com alguns detalhe e pormenores, nesse seu livro "Angola: a segunda revolução - memórias da luta pela democracia", já de 2010. E o recorte da figura de Jonas Savimbi fica bem claro nas suas páginas.

Muekalia era representante da organização em Washington ao tempo em que eu estava em Nova Iorque. Através de um amigo comum, manifestou um dia interesse em encontrar-se discretamente comigo. Mesmo sem pedir orientação a Lisboa, e num contacto telefónico breve, dei-lhe conta da minha indisponibilidade, como representante português na ONU, de ter uma conversa com o delegado de um grupo político que as próprias Nações Unidas tinham considerado "fora da lei". Portugal teria, se o quisesse, outras formas de contactar a UNITA, e o contrário também era verdade. Como membro da "troika" de observadores do processo angolano, não estava disponível para surgir envolvido num diálogo lateral cujo aproveitamento propagandístico seria bem provável. Muekalia, como o livro documenta, era um diplomata hábil. Julgo que compreendeu logo a minha posição.

3 comentários:

zpf disse...

Caro Embaixador,
Difícil ser mais certeiro…
ZP

Anónimo disse...

Bem haja! A verdade dos "nossos" amigos nem sempre pode ser a "verdade" que deve ser registada com lisura!!!

Anónimo disse...

"Mas esses são precisamente os mesmos que, nos dias de hoje, logo levantam o dedo acusador a quem classifique de criminosas as ações praticadas por Israel em Gaza, acusando-os de cumplicidade objetiva com os métodos terroristas do Hamas"

unita... hmmm porque sera?

cumprimentos