domingo, 17 de agosto de 2014

Os postos

Há dias, numa solta conversa de Verão, surgiu a questão frequentemente colocada aos diplomatas: qual a colocação no estrangeiro de que mais gostámos. Tenho sempre uma grande dificuldade em responder a essa pergunta, que nunca resolvi bem perante mim mesmo. A razão, aliás, é bem simples: não somos "os mesmos" ao longo do tempo, não temos exatamente a mesma anterior experiência e as expetativas quanto ao futuro quando nos confrontamos com um novo desafio. Em cada lugar a que chegamos somos pessoas diferentes ou, como dizia Ortega y Gasset, "nós somos nós e as nossas circunstâncias". A idade influencia o modo como olhamos as coisas, a vivência anterior torna certos lugares mais interessantes num certo período da vida, essas mesmas cidades ou países tornam-se mais atrativas ou menos agradáveis, dependendo do tempo em que por ela passamos. Mas também são importantes os amigos que criamos, os colegas com que convivemos e até os estados de saúde, nossos ou alheios, que alteram as perceções que nos ficam desses locais.

Vivi um posto como Oslo com o entusiasmo "maçarico" de ser a primeira experiência de trabalho no exterior, passei em Luanda dos tempos mais tensos e profissionalmente desafiantes de toda a minha carreira, pude "ler" em Londres o que Portugal significa perante essa Europa que ainda conta, pressenti em Nova Iorque que, com empenhamento, podemos facilmente "to punch above our weight", tive em Viena a prova de como, com alguma "arte" se pode dar a volta por cima a "ratoeiras" profissionais bem urdidas, vivi no Brasil uma das experiências humanas e diplomáticas mais fascinantes que um diplomata português pode ter e, finalmente, reeencontrei em França, cuja idiossincrática leitura da Europa sempre mobilizou a minha curiosidade, um Portugal expatriado de extrema dignidade, embora sob o peso dos tempos mais dramáticos da nossa afirmação externa recente.

Mas, depois daquela conversa de Verão, e da constatação clara de que me posso dar como excecionalmente satisfeito com todas as experiências profissionais que tive, dei comigo a colocar-me outra questão: que postos diplomáticos não fiz e gostaria de ter feito? Afastadas as opções lúdicas - o Estado não nos paga para estar em certos locais só porque eles são agradáveis para viver ou para fazer turismo - olhei friamente para as alternativas profissionais que me "falharam" e cheguei a três cidades em que, com total franqueza, gostaria de ter trabalhado: Madrid, Rabat e Buenos Aires. Por duas vezes me foi oferecido o ensejo de ser colocado na capital espanhola, e nunca aproveitei a hipótese. Rabat poderia ter sido, se assim o quisesse, o meu primeiro posto. Já Buenos Aires nunca apareceu no meu "screen".

A Espanha é o mais relevante posto bilateral que um diplomata português pode ter. A intensidade das relações, os desafios estratégicos da proximidade, a frequente diferente perspetiva nos assuntos europeus e a diversidade cultural e nacional espanhola devem constituir uma experiência fascinante para um diplomata entusiasmado e atento, como sempre procurei ser. O nosso único vizinho terrestre, com o qual temos uma relação não isenta de uma inescapável ambiguidade, converte Madrid num desafio profissional único. A eleger uma única "frustração" em toda a minha carreira, essa terá sido o facto de não ter servido em Madrid.

Considero Marrocos, não obstante toda a dificuldade que a barreira cultural deve criar, uma outra oportunidade profissional de extremo interesse. Vou dizer uma coisa que alguns portugueses não entenderão: Marrocos, cuja capital está mais próxima de Lisboa do que Madrid, é um país cujo potencial de desenvolvimento da relação com Portugal o país está ainda muito longe de ter entendido, em especial na perspetiva da própria relação marroquina com Espanha e França. O futuro se encarregará de o demonstrar, se e quando viermos a ter uma política externa à altura.

Finalmente, porquê Buenos Aires? Desde logo, porque é um país fascinante, mas essencialmente porque entendo que, tendo nós a relação que temos com o Brasil - uma relação que, só por si, mereceria um "tratado" -, temos estrita obrigação de saber (um dia...) explorar o imenso potencial que existe na nossa articulação com um representante singular de um mundo hispânico que é o seu contraponto, que nos olha como um parceiro interessante e amigo, até para "escapar" ao abraço demasiado paternal  (com tudo o que complexo isso traz, como bem sabemos) da antiga potência colonial. E a Argentina é um caso ímpar nesse mundo latino-americano, no qual projeta a sua história ciclotímica, a sua ambição e a sua cultura, as suas frustrações e o modo muito particular de se colocar no xadrez desse espaço geopolítico de imenso futuro.

Nesta altura do texto, alguns colegas que me estejam a ler, estar-se-ão a perguntar: mas não gostaria ele de ter sido embaixador num posto tão importante como Washington? E Roma, essa cidade mítica para tanto diplomata? E a Representação junto da União Europeia, por onde hoje passa o essencial dos nossos interesses? Em diferentes tempos, tive o ensejo de ter sido colocado nesses três importantes postos e não o fiz, sempre e exclusivamente, apenas por opção pessoal. Reconheço, sem a menor dúvida, que se trata de postos diplomáticos cimeiros, do maior interesse e relevância, mas a nossa vida é feita de escolhas e eu sou plenamente responsável pelas minhas.

Mas vou mais longe. Noutra dimensão, ter-me-iam também interessado Moscovo, Nova Deli, Berlim (se falasse alemão, confesso que seria das primeiras opções), Pequim ou Tóquio. E teria curiosidade profissional em ter servido em postos tão diversos como Teerão, Ancara, Varsóvia ou em consulados-gerais com a importância de Barcelona ou São Paulo. Cada um de nós tem o direito de fazer as suas opções e as minhas aí ficam, de forma muito sincera. Aposto em como alguns amigos meus devem ter ficado surpreendidos com o que acabam de ler.

32 comentários:

patricio branco disse...

bom exercidio de apreciação do que foi o percurso e de imaginação ou especulação sobre o que mais poderia ter sido.

Anónimo disse...

Eu não fiquei surpreendido. Discordo apenas da parte em que o Senhor Embaixador diz que podemos dar a volta por cima de ratoeiras profissionais. Quando as urdiduras vêm montadas pelos nossos comensais e compagnons de route que apenas querem o nosso bem - deles - é muito difícil sair por cima.
Cada vez que o PS ganha as eleições a minha filha diz-me com razão:"Papá 'tás tramado nas tuas próximas colocações, apesar de seres rosa há três décadas, pelo menos..."

Anónimo disse...

Nem sempre se pode escolher os postos porque, a maioria das vezes, o "tabuleiro de xadrez" das colocações está montado e a aguardar o inquilino seguinte (Madrid e Bruxelas... next!).

Como refere e bem o comentador das 11:08 os "nossos comensais e compagnons de route" tratam bem da saúde dos outros para salvaguardar os seus lugares em próximos concursos e desviar do caminho os "indesejáveis". Tantos bons diplomatas que ficam pelo caminho e tantos menos bons que vão subindo, subindo, subindo... Só precisam de um bom padrinho que os guie logo no início da carreira...

Anónimo disse...

O facto marcante deste verão é o apoio de António Vitorino a Carlos Moedas. Não é o facto de o PSD estar a esfregar as mãos de contente com uma oposição que oferece brindes destes de mão beijada. É a reflexão que se pode fazer sobre estas personagens que estão sempre de bem com o poder qualquer que ele seja. É claro que há um perdedor que é o Partido Socialista que não sabe como há de gerir estas figuras que nada têm de rebeldes, pelo contrário, conhecem de cor e salteado os ademanes e os truques cortesãos de cortejar, cobiçar e disfrutar do poder. Destas personagens Libera nos Domine.

Francisco Seixas da Costa disse...

Aos Anónimos das 11.08 e das 14.12. A "gestão" de uma carreira é um fenómeno complexo. Nela se junta uma imensidão de fatores, de que a sorte não está ausente. Valendo o que digo o que vale, tenho, contudo, uma "teoria" que não vi infirmada pelos factos: um funcionário cumpridor, sempre disponível (horas, fins-de-semana, interromper férias), que não traga os problemas pessoais para a "casa" ("baldas" para frequentes questões familiares), correto e educado no trato e na criação de uma boa relação com os outros (não "pôr-se à frente" dos outros), leal e muito competente (isto é, muito responsável, que saiba exprimir-se bem, oralmente e por escrito, nas várias línguas), que não seja percebido como "troublemaker" (cedo demais...), que seja informado e leia mais do que a média, que demonstre bom-senso, sentido do interesse nacional e ideias próprias construtivas (mas que não tenha uma "política externa" pessoal), tem uma elevada possibilidade de vir a ter uma boa carreira (o que não significa que não lhe calhe "penar" num ou outro posto mais difícil e desagradável) E criei também uma constatação, fruto da experiência pessoal: pode ser-se um "looner", não ter nunca padrinhos (nem alimentar prosélitos ou "seguidores", que depois se distribuem por lugares-chave), não cultivar redes (por mail ou telefone) e, mesmo assim, ter um excelente percurso profissional. Em síntese, como "chave" do possível (mas não garantida, claro) de sucesso, eu recomendaria a um jovem diplomata: trabalhe muito e muito bem e seja visto como um discreto "troubleshooter" em quem se pode confiar e delegar plenanente. Depois, é a sorte, a qual, como dizia o malandro de Santa Comba, dá muito trabalho.

São disse...

Gostei do texto e de saber as suas opções e gostos.

Por favor, diga-me como deve ser tratado para que não aconteça o que aconteceu há dias no facebook.

Mencionei , concordando, a sua opinião de que Moon se deveria demitir do cargo, por causa da agressão de Israel ao gueto de Gaza.

Então , um senhor resolveu dizer que era impossível alguém do regime ter uma posição dessas , dado que o Governo apoia Israel...e , em determinado momento, colocou o link para um texto que nem sequer li.

É que de repente entendi que como o tratara por embaixador, o dito senhor achou que ainda estava em funções.Pelo que alterei para "antigo embaixador" e tudo ficou resolvido, até porque lhe pedi desculpa de o ter induzido em erro, ainda que involuntariamnete.

Os meus agradecimentos desde já e bom domingo

Francisco Seixas da Costa disse...

Cara São: como é que trataria o general Loureiro dos Santos? Por ex-general? Proceda da mesma forma com os embaixadores...

Anónimo disse...

Caro embaixador, no seguimento do seu penúltimo comentário, permita-me que lhe pergunte: que livros é que recomenda a um aspirante a diplomata? É certo que o instituto diplomático oferece uma enorme bibliografia, mas da sua própria experiência, que livros recomendaria e (já agora, não querendo abusar) que outro tipo de publicações recomendaria a um jovem estudante interessado na carreira?
Com os melhores cumprimentos

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Anónimo das 16.20. Não sei o que lhe responder. Fui ver a lista "recomendada" pelo ID e fiquei assarapantado. Ao lado de obras de altíssima qualidade, convivem ali panfletos medíocres e estudos menores, tudo "biased" em favor da cultura anglo-saxónica, como se a produção francófona tivesse deixado de existir. A esmagadora maioria do que por ali se lista (porque é de uma simples lista, sem o menor critério, que se trata), é impossível de ser absorvida e deve dar a imagem de uma "barreira" instransponível. O que eu recomendaria? Acharia importante que lessem uma boa obra de conjunto sobre as relações internacionais no século XX, tipo Duroselle. O importante é perceberem-se os grandes "trends" e movimentos - guerras mundiais, evolução europeia, África descolonizada, evolução do papel dos EUA, linhas gerais da Guerra Fria, novo mundo árabe e mundo pós-comunista. Sobre Portugal, leiam-se com vantagem os estudos do António José Telo e consultem-se os volumes sobre o Século XX da História de Portugal de José Matoso. E chega e sobra!
Não sei o que possa recomendar sobre relações económicas internacionais ou sobre direito internacional (há bons simples manuais) ou sobre direito europeu (leiam bem estudos de poucas páginas). No dia a dia, sigam as grandes questões em jornais (artigos de Teresa de Sousa ou Jorge Almeida Fernandes no Público, de Miguel Monjardino no Expresso, de Bernardo Pires de Lima no DN), evitem blogues ideológicos (o meu é 100% dispensável). Se puderem, assinem o "The Economist" (descontando o pendor liberal). Revistas: procurem bons textos no Nação e Defesa e na Relações Internacionais e, muito em especial, na JANUS - Anuário de Relações Internacionais. Comecem mesmo por aqui, onde está o essencial.

Francisco Seixas da Costa disse...

Aditamento ao comentario anterior. Recomendo vivamente o Pos-Guerra, Historia da Europa depous de 1945, de Tony Judt. Mas não é para ler e "preservar" o livro. É para dobrar, "estragar" e sublinhar o texto. É assim que se estuda...

Anónimo disse...

Caro embaixador, segue um sincero agradecimento - pelas obras aconselhadas e pela disponibilidade.

Anónimo disse...

O conselho ao pretendente a diplomata deveria ser o mesmo que Vitorino Nemésio aconselhava à generalidade das pessoas: "deve-se ler muito e tudo, para o que der e vier". Chega ler só Matoso e uns estudos indefinidos de Telo? Parece-me pouco, embora bom.
João Vieira

Anónimo disse...

Nunca imaginei que um diplomata pudesse recusar certas colocações. Escolher entre duas ou três possibilidades, ainda posso entender. Mas se o ministro quiser colocar o diplomata de carreira A ou B no posto X ou Z, como é que A ou B podem escapar a isso?
A verdade é que os leigos, isto é, eu e aqueles 9 milhões novecentos e muitos mil que nunca passaram pelo MNE, não fazem a mais pequena ideia de como funciona aquela casa. Não é uma casa "com paredes de vidro", como diria Álvaro Cunhal, embora essa sua expressão, pelo dúbio emprego que lhe deu, não possa servir de padrão. Mas o MNE não é um partido político, nem uma empresa, nem sequer uma instituição privada de interesse público.
Será utópico desejar que exista uma diplomacia transparente - e escrutinável, como sói dizer-se? Ou estarão os contribuintes e os eleitores para sempre barrados e arredados de todos os meandros da diplomacia, considerada esta como um absoluto segredo de Estado?
Um abraço amigo do
ZB

Anónimo disse...

A ideia de que as carreiras na função pública (mas também na privada, por exemplo e em especial na banca) são função da competência, é autentica ficção! Mesmo no tempo do "malandro" de Santa Comba, em que a "sorte" dava, incomparavelmente, muito mais trabalho do que agora. Obviamente que o conceito de sorte de então é muito diferente do de agora.
É admirável, no entanto, a sua disponibilidade para os outros, por isso, e com a reserva de desconhecer por completo a área diplomática, estou convencido que o Sr. Embaixador é uma das exceções. No caso contrário também lho diria.
antonio pa

Anónimo disse...



Ao anónimo das 18.34, um aspirante a diplomata, não escreve nem diz, caro embaixador.

Senhor Embaixador, sempre!

A sorte dá muito trabalho, tão verdade. Vá treinando...

Anónimo disse...

O texto inicial refere opções pessoais, que por o serem, são naturalmente discutíveis. Já os comentários do Senhor Embaixador aos comentários e sobretudo os que se referem à gestão das carreiras são de uma ingenuidade que não lhe conhecia. Pelos mesmos conclui que a pertença a um dos dois lobis dominantes não é determinante para a evolução e para os destinos. Bem haja por tanta inocência.

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro ZB. Desde já, convém notar que estamos a falar de uma carreira ao longo de décadas, em que as coisas nem sempre funcionaram da mesma forma. Antes de se ser embaixador, há postos para os quais a vontade de um embaixador que escolhe um funcionário é determinante. Tive convites de embaixadores para outros postos tão díspares como Genève, OCDE (Paris), Kinshasa, Lusaka ou México, que não aceitei por razões diversas. Para os lugares de embaixador, há sondagens ou convites (do Secretário-Geral, de secretários de Estado ou do próprio ministro) e, muitas vezes, é possível dizer que não, embora, às vezes, com algumas consequências. Mas estas práticas são difíceis de explicar, embora me pareça que o caráter "conspirativo" da carreira seja um tanto mitológico.

Francisco Seixas da Costa disse...

Ao Anónimo das 21.59. Não é possível convencer quem acha, à partida, que há forças obscuras que estão sempre por detrás de tudo. É uma "escola" eterna. A essas pessoas, e sem prejuízo de poder ser pontualmente injusto, começaria por recomendar duas regras simples: trabalhem muito e chateiem pouco! Com sorte, podem ter uma boa carreira! Se preferirem os tais lóbis - já agora, diga quais são! - desejo-lhe sorte

Anónimo disse...

Desta vez também gostei dos comentários e das respostas aos mesmos. A carreira diplomática é, como qualquer outra carreira profissional, feita ao longo do tempo aproveitando as oportunidades que são apresentadas ao profissional no exercício da sua profissão. Mas as carreiras hoje em dia são dificeis de ser aceites como carreiras profissionais porque se deseja sempre um sucesso sem tréguas e para isso pode valer tudo. É um pouco como na política.

Anónimo disse...

E,sob o ponto de vista gastronómico, diga-nos lá, Senhor Embaixador, qual o País em que preferiu desempenhar a sua actividade?

Anónimo disse...

“Trabalhem muito e chateiem pouco!” Quer o Post, quer os comentários que faz, demonstram ou ingenuidade ou uma mentalidade do “sistema”. Ou ambas. O mais provável. Há quem tenha trabalhado muito - e bem -, sem que ninguém lhe tenha reconhecido essa dedicação e há quem tenha, toda a vida, sido um calaceiro e tenha subido ao topo da carreira. Por, “chatear”, entenda-se todo aquele que reclama, justificadamente, contra as arbitrariedades da “Casa”, que acontecem muitas das vezes. É bem conhecida a sua posição contra os diplomatas que recorrem para o Supremo Tribunal Administrativo, ou requerem Providências Cautelares de decisões que acham injustas e prejudiciais tomadas pela hierarquia do MNE. A questão é que, desde há uns anos a esta parte, os diplomatas já não têm uma atitude subserviente perante a hierarquia, como sucedia no seu tempo. Hoje respeita-se a hierarquia, sem medos. Respeita-se pela antiguidade e pela qualidade dessa mesma hierarquia, sempre que a tem. Porque, por vezes não a possui. O diplomata hoje está consciente dos seus direitos como profissional e cidadão e, se necessário for, em face de uma injustiça, arbitrariedade, ou abuso de autoridade, recorre das decisões iníquas daí resultantes. Lamentavelmente, ainda subsiste a velha mentalidade corporativa (que você subscreve, percebe-se), que não aceita esse tipo de atitudes da parte do diplomata atingido que se defende, e reage negativamente sobre o funcionário que “teve o atrevimento” de contestar uma decisão da “Casa”, ou seja, da hierarquia do MNE. Por outro lado, a carreira não se faz ou não progride apenas com base nesta “receita” ingénua que aqui prescreve. Há já algum tempo que os apoios pessoais, as posições políticas, o estar-se em Gabinetes, etc, são um factor essencial para subir na carreira. Basta ver como se processam as promoções, quer a Conselheiro, quer a Ministro Plenipotenciário (uma boa parte dos promovidos são como a “pescada, que antes de o ser já era”). E basta ver a importância que a colocação em determinados lugares (nos gabinetes ministeriais, de secretários estado, do secretário-geral, dos directores-gerais – DGPE, DGAE -, etc) tem nas promoções dos funcionários e nas suas colocações em determinados Postos no estrangeiro, bem como na tal progressão e gestão futura da carreira. Quem o lê e não pertence ao MNE até acredita que isto aqui é um mar de rosas. Para quem quer ingressar na carreira diplomática, recordo o que sempre ouvi desde que nela ingressei: que o MNE é um saco de lacraus! Convém pois, jovens pretendentes a diplomatas, estarem cientes disto e evitarem “ser mordidos”. Traduzindo por miúdos o que aqui o embaixador vos diz, para terem uma “bela carreira”: bola baixa, alguma graxa, humildade, conseguir apoios pessoais da hierarquia (importantes no Conselho Diplomático para colocações no estrangeiro e promoções), encostos políticos (PSD, PS, CDS) também dão muito jeito, disponibilidade, obediência ao chefe, nunca o conteste, nunca recorra das decisões injustas da hierarquia, aceite-as sem refilar, alguma qualidade naquilo que faz, mas isto vem depois e será compensado. Um dia chegará ao topo da carreira e aí já pode asneirar, que ficará impune (a não ser que cometa um crime).
a)Claustros

Anónimo disse...

Ao anónimo das 21:59. Aprenda, nunca deve dizer-se que o rei vai nu...isso só provoca ódios desnecessários nos eleitos e pode hipotecar uma carreira. Seja diplomata.

Francisco Seixas da Costa disse...

O comentário de "Claustros" é típico de uma certa maneira estar na carreira. É uma atitude de um ressabiado, de quem assistiu a algumas injustiças (e há-as), de quem não teve o percurso que entendeu ser-lhe devido e que, manifestamente, passou ao lado da carreira a que se achava com direito. O MNE não é um mar de rosas, nem um oásis de justiça. O que eu quis dizer na (inevitável) caricatura do post é que, por uma regra que apurei ao longo de décadas, o mérito é quase sempre compensado. Não afirmei que o demérito era sempre punido, longe disso! Há, de facto, calaceiros que tiveram uma boa carreira, embora raramente tenham chegado ao topo, mas nunca conheci "quem tenha trabalhado muito - e bem -, sem que ninguém lhe tenha reconhecido essa dedicação". Não contesto que estar num gabinete pode ajudar a uma promoção ou a uma colocação, mas gostava de notar que, frequentemente, quem é escolhido para essas funções tem uma qualidade profissional acima da média (embora por esses gabinetes tenha passado muita gente sem essa qualificação). Uma frase do texto não admito: "É bem conhecida a sua posição contra os diplomatas que recorrem para o Supremo Tribunal Administrativo, ou requerem Providências Cautelares de decisões que acham injustas e prejudiciais tomadas pela hierarquia do MNE.". Essa agora! Alguém alguma vez me ouviu uma palavra contra a legitimidade do recurso dessa litigância perante flagrantes injustiças? Tenho uma história pessoal de defesa dos direitos dos diplomatas que pede meças. Negociei com o poder político o Estatuto dos Diplomatas, fui vice-presidente da Associação Sindical (que só integrei quando passou a ser "sindical") e sempre me bati, junto da hierarquia (como membro eleito do Conselho Diplomático) e na imprensa (quem o fez mais?), mesmo em "ciclos" adversos, pela dignidade da carreira. E já pensou o "Claustros" esta coisa muito simples: por que razão me "exponho" a discutir estas coisas desta forma, tendo anónimos com interlocutores, com total abertura? Por uma razão bem singela: não tenho telhados de vidro e isso, meu caro, é um "letreiro" que, desde sempre, trago comigo com orgulho.

Anónimo disse...

Caro colega,
Tem toda a razão em sublinhar e bem aquilo que fez pela carreira, que ninguém desmente. Pelo contrário! Embora o Estatuto enferme de algumas aberrações jurídicas, como aquelas que em tempos o Provedor de Justiça chamou a atenção, a ler no que foi publicado numa notícia. O que eu pretendi dizer é que você não tem grande simpatia por quem coloca processos ao ministério, preferindo que o diplomata negoceie o problema com a hierarquia. Por sinal, nunca coloquei um único processo à “Casa”, mas conheço – quem não conhece! – inúmeros exemplos em que tal sucedeu e os resultados (ou “punições”) que os funcionários vieram a sofrer. A hierarquia, não há muitos anos, na pessoa de um ex-SG (que ambos conhecemos bem), chegou ao ponto de solicitar aos “competentes serviços do MNE” (evito mencionar quais, para não melindrar os mesmos) que funcionários tinham, ao longo das suas carreiras, colocado processos contra o Ministério! Devo dizer que o MNE até nem me tem tratado assim tão mal. Não tendo chegado a “Full-Rank”, cheguei, à categoria que nos dá já algumas regalias, como a da jubilação, permanência no quadro externo até aos 65 anos, poder chefiar uma Missão diplomática e no quadro interno poder exercer chefias superiores – a de ministro plenipotenciário. Mas, tal não me impede de olhar para esta carreira e esta Secretaria de Estado com alguma distância e reserva, visto ter assistido a injustiças, abusos, incompetências, a par de “saltos de canguru” na progressão da profissão e nas colocações externas, por razões que nada tinham a ver com competência e mérito. O problema é que muitos não abordam esta questão, entendendo ser uma coisa menor, que não tem prejudicado a imagem da carreira e a de muitos colegas – quando não é assim. E é aqui que divergimos. Você não releva isso, atribuindo-lhe menor importância, preferido optimizar os outros aspectos, enquanto que eu sou de opinião de que estas atitudes estão, gradual e efectivamente, a minar a carreira. Mas enfim é assunto para quem ou acaba de ingressar nela, ou está a meio do caminho. Já não é para mim, que estou na reta final. Não vale a pena ferver em pouca água. A carreira não merece – embora para connosco até não nos tenha sido ingrata. Goze mas é a sua merecida aposentação. Farei o mesmo em breve. E deixemos os problemas, vicissitudes e idiossincrasias do que é a carreira diplomática hoje para os que cá continuarão por bons e maus anos ainda. No fundo, o que se tem vindo a passar na carreira diplomática, não é mais do que aquilo que se assiste hoje em dia, em termos de valores, comportamentos, atitudes, etc, noutros órgãos e carreiras do Estado, na Política e no País em geral. As palavras de ordem hoje em dia são uma ambição sem limites e todos os meios justificam os fins que se pretendem alcançar. Sou (somos), felizmente, de outra geração. Com outros princípios. Que vão escasseando!
a)Claustros

patricio branco disse...

pois o vaticano, posto muito desejado por muitos que estão no fim da carreira, uma especie de coroação esse sítio, um prestigio, mas qual o retrato dos que obtêm o vaticano em contraste com os que têm madrid, ou washington, ou delnato ou mesmo roma? por vezes o que sai do vaticano ainda tem direito a chefe do protocolo ou até de secretario geral.

curiosamente, há países que oferecem postos relaxantes para terminar a carreira, um embaixador espanhol em camberra terminou a carreira sendo transferido para o consulado geral em elvas (quando espanha lá tinha um) a seu pedido; cabral melo neto terminou a carreira como c g no porto, pensando que ia ter sossego e tempo para escrever, sairam-lhe os planos furados; e um prestigioso embaixador de espanha nas nu, arias qq coisa, creio, passou de lá para c g em los angeles ou s. francisco.

tambem não é certo que a carreira no estrangeiro termina aos 65 anos, há maneiras legais de contornar o limite e há casos.

qualquer carreira tem os seus espinhos e conflitos internos, competições, armadilhas, etc, a militar, a universitaria, a magistratura, a eclesiastica devem ser iguais nesses meandros à diplomatica.

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Patricio Branco
Em Portugal, não há a tradição de alguém que tenha exercido funções com "cartas de embaixador" (ministro plenipotenciário) e, muito menos, que tenha sido embaixador "full rank" ser nomeado para um posto consular. Já houve casos, mas são muito raros. No Brasil, isso acontece com frequência, mas é preciso ter em conta que, por lá, o limite de idade para o exercício de funções no exterior praticamente pode ser sempre derrogado por razões políticas. O caso espanhol é diferente: vive-se naquele país uma "vingança cíclica" entre a esquerda e a direita que faz com que, na mudança do ciclo político, possam acontecer as coisas mais fantásticas, como ir de embaixador de um posto da maior importância para "nº2" num posto secundário.
Não entendi a sua nota sobre as exceções à "regra dos 65" entre nós. Salvo por escassos meses, para resolver questões pontuais e transitórias, não conheço exceções relevantes à regra. Conhece alguém que tenha ficado em posto no exterior até aos 66 anos? Eu não.

Anónimo disse...

Houve alguns casos em que um funcionário que tinha estado como chefe de missão, com credenciais de embaixador, de seguida foi para Cônsul-Geral. Assim de repente, ocorrem-me dois exemplos: um CM que estava em Riad e depois foi para Paris como C-G e um outro que depois de ter sido CM na Cidade do México foi para C-G em Zurique. Mas, deve haver mais, talvez, embora, como refere, poucos, dada a nossa tradição. Não sei se boa ou má, mas corporativa, seguramente. Porque diabo haveria de cair os pergaminhos a alguém que exerceu as funções de embaixador de vir depois exercer outras como Cônsul-Geral? Os americanos também têm a prática de enviar alguém que exerceu o cargo de embaixador para, por exemplo, nº 2 numa outra embaixada. E ninguém fica por isso diminuído. Mas nós cá somos uns principes. Sexa é Sexa! Pois eu prefiro ser c-g em Barcelona do que CM em Abuja!

Anónimo disse...

Como apreciei os comentários do "Claustros" que são tão raros nos nossos dias.

a)Anónimo das 14:12 de 17 de Agosto

Anónimo disse...

Caro anónimo das 21.34,

Quando (se) o "convidarem" para CM em Abuja, é melhor aceitar...

"A vida é uma festa, ou você se diverte, ou você dança".

patricio branco disse...

se um funcionario depois de ter sido chefe de missão tem interesse em ir para cg por esta ou aquelas razões, e alem dos 2 que cita um comentador há outros, de cm em lima para cg em ny, p ex, pois está tudo justificado. possivelmente para alguns é preferivel ser cg numa boa cidade que cm num mau/pessimo país, outros pensam o inverso, mas cada um que escolha. e há quem queira estar em lisboa, pois seja.

mas voltando ao vaticano, é embaixada que terá de facto uns critérios particulares de selecção parece-me. quais as principais caracteristicas tipo de quem é para lá mandado?

um funcionário pode contornar e estender o limite de idade no estrangeiro se for passado à situação de missão extraordinária de serviço, não apenas uns meses, um ano, mais.

há cgs de grande prestigio, presumo que macau, rio de janeiro e paris, talvez outros, o sejam.

essa de atenas ir vender a casa, residencia, está boa...será que os gregos tambem necessitarão de vender a de lisboa? bom negócio...

ler algumas boas memórias de embaixadores ingleses, franceses, americanos, tambem pode ser boa formação para um jovem ou mesmo mais senior diplomata. memórias não de faits divers, episódios pitorescos, mas relatando serviço profissional do pesado, diligencias, situações de crise, etc. os livros brancos tambem mostram documentação interessantissima e util de ler...

Anónimo disse...

Se a vida é uma festa, prefiro divertir-me. Se danço, ainda piso a parceira! Entre o calor de Abuja e o calor de Barcelona, sempre prefiro comer Pata Negra, com o fresco do Mediterrâneo por perto. Quero lá saber das credenciais! Embora prefira Abuja a Riad, por exemplo.

Anónimo disse...

Meu caro Embaixador,
Fico surpreendido por nao ter incluindo nos postos por onde gostaria de ter passado, e servido, lugares tao importantes para a diplomacia portuguesas como bissau, dili, s. Tome... Ai sim grandes vultos da diplomacia portuguesa podem realizar todo o seu grande potencial e ser uteis ao pais..Bem ve: por maior que seja a sua genialidade, o que pode fazer , em nome de Portugal, um Grande Embaixador em Paris, Berlim, Londres?