segunda-feira, 25 de agosto de 2014

O erro de Ferreira Fernandes

Como os leitores deste blogue já terão notado, estou frequentemente de acordo com Ferreira Fernandes, nos comentários que faz na sua coluna na última página do DN. Mas, como é da vida, há exceções. Ontem foi uma delas.

Ferreira Fernandes, num exercício desafiador aos dois contendores pela liderança do PS, incita-os a porem cobro à prática lançada pelas estruturas distritais de Braga daquela estimável agremiação partidária no sentido de manter, quiçá mesmo de inscrever, alguns mortos nas suas listas. Insurge-se contra esta iniciativa, colando-se ao argumento de que isso pode distorcer a verdade do resultado eleitoral. O preciosismo é eticamente frágil e historicamente desrespeitador.

Sobre a ética, deixo a apreciação do mérito dos autos ao juízo de cada um quanto à moralidade das lideranças socialistas locais. Já quanto à História, alto aí! Um partido não nasce hoje, acarreta consigo uma memória, dele fazem parte os que cá estão, mas que não estariam onde estão se um passado não tivesse sido construído por quantos, entretanto, já se libertaram da chatice da lei da vida. Alguém que ajudou a construir um partido, apenas pelo conjuntural facto de ter deixado de ter participação ativa no quotidiano da existência, deixa de "existir"? Que leitura mais simplista!

Noutro registo, que seria da toponímia se nos esquecêssemos de quem fez as instituições? Acaso não recorda Ferreira Fernandes, ao subir diariamente o elevador da casa que já foi da Moagem e que hoje é cada vez mais do dinheiro vivo do senhor Mosquito, figuras venerandas de antigas direções do seu jornal, seja um dos meus antecessores na embaixada em Paris, Augusto de Castro, seja aquele que com ele próprio partilha as iniciais, Fernando Fragoso, cujos impagáveis editoriais me divertiam as manhãs da "primavera" pré-abril? O passado, caro Ferreira Fernandes, mesmo enterrado, está aí! Como dizia um filósofo de Santa Comba, "só havemos de chorar os mortos se os vivos os não merecerem". 

O PS de Braga, ao prolongar a presença de ilustres mortos nas suas listas - e são muitos! - revela uma apreciável devoção por um passado que, naquele partido e naquela cidade, não tem - não temos! - o direito de esquecer. Será que um Armando Bacelar, que nos idos da CEUD de 1969, por ali levantava com coragem a voz socialista contra os Santos da Cunha da época, e apenas pelo facto de ter desaparecido da lista dos vivos, merece ter uma palavra menos pesada nos destinos do PS local do que aqueles que, também em nome do partido, votaram a estátua de um cónego ou de quantos, ao longo dos anos, parquearam interesses ao lado de um empreendedor com o sugestivo nome de Névoa? Há mortos cuja voz dignifica mais um partido do que muitos que hoje por lá andam.

O PS de Braga só prova que não esquece Lopes Graça quando, no seu "Vozes ao alto!", proclamava: "E até mortos irão ao nosso lado". Deixe os mortos socialistas votar em paz, meu caro Ferreira Fernandes! Deixe-os participar na vida do partido, até porque por lá permanecem alguns vivos a fazer de mortos e outros que já o estão e ainda não se deram conta disso. E a única forma de não ter de descriminar entre toda essa fauna é deixá-los votar a todos. Até porque, como também dizia o outro, e no estado em que isto anda, "todos não somos demais"...

18 comentários:

Um Jeito Manso disse...

Brinca, Embaixador, brinca.

Mas não deixe que, com a sua brincadeira, alguns politicamente defuntos se sintam legitimados.

Algum crivo tem que haver. Está bem que se permita que analfabrutos ocupem lugares de destaque nos partidos, que avençados a soldo nem se sabe bem de quem se sentem na AR. Mas, credo, à falta de melhor, já admitimos mortos de verdade?

Por favor, retrate-se, Embaixador. Olhe que os analfabrutos não são de boa pescaria no que a tiradas de fino recorte irónico diz respeito.

ignatz disse...

desculpe lá qualquer coisinha, oh camarada, mas não percebi bem o seu ponto de vista. defende a inscrição de pessoas que já não existem ou o direito de voto dos mortos? é que não sendo exactamente a mesma coisa são ambas vigarice e argumentar o estado a que isto chegou é fraquinho para disfarçar a chapelada que o seu candidato necessita para ser eleito. se o ridículo não colar, pode sempre argumentar que foi ironia fina num blogue fino ou mesmo falta de sentido de humor da minha vesícula.

ARD disse...


O PS só ganharia em agrupar todos os seus militantes já falecidos (e, já agora, alguns dos vivos) , tal como faz, por ex., com as mulheres, numa Federação dos Socialistas Defuntos. Veríamos se o empenho e a militância dos mortos de Braga se alarga ao nível nacional.
Esclareço que, quando falo de vivos, me refiro aos que estão é mal enterrados...

Manuel Silva disse...

Caro Senhor Embaixador:
Parabéns pelo seu post.
É ironia fina do mais puro quilate (24).
Se me permite a sugestão, estique um pouco a sua capacidade crítica sem limites às propostas dos candidatos.
Para começar, deixo-lhe a si e aos visitantes deste seu espaço a sugestão de leitura do post «Moção António Costa: defender "os nossos interesses nacionais" na UE, sem dizer como», noutro blog chamado O Economista Português, de Luís Salgado Matos.

Anónimo disse...

Vai-me desculpar, mas não faz qualquer sentido aquilo que defende. Cumprimentos.

ignatz disse...

a mizé de braga tamém já tinha dito qualquer coisa parecida, este poste é homenagem à homenagem de quem homenageou pagando as quotas dos cotas entretanto falecidos.

jmc disse...

É natural que uma direcção de "zombies" amplie a sua base de apoio junto dos mortos.

Francisco Seixas da Costa disse...

Ó ignatz! Não diga que não percebeu o que escrevi?! Logo você!

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Anónimo das 10.21: o dureito à ironia é imprescritível...

ignatz disse...

oh chefe, percebi tudo, menos o que perguntei e você não respondeu, como é habitual nas suas salgalhadas irónicas, mas eu repito: inscrição de mortos ou direito de voto dos mortos. parece que ironia não é consigo.

Anónimo disse...

...brilhante!
A melhor posta do açougue.

Joaquim Moura disse...

Gostei do seu post.
Ainda que a ironia não seja o seu estilo mais habitual parece-me aquele que melhor se lhe adequa. Principalmente porque permite ficar sempre em cima do muro, arte em que é mestre. Coisas da profissão.
O remake do Walking Dead, em exibição, não entusiasma e apresenta um argumento muito previsível. Já achava a série original muito aborrecida, esta versão segurista é mais do mesmo e só tem a novidade de que alguns dos mortos falam. Mas se podem andar também podem falar. Acho justo. E votar é só mais um passo.

Anónimo disse...

no final: "descriminar"? Não será antes discriminar? e claro que não precisa de aprovar este meu comentário.

Anónimo disse...

Nesta “democracia”, como se vê, vale tudo. Podiam elaborar um pouco mais e dizer que os mortos pagaram adiantado… e até deixaram o voto em testamento …
Mas, pelos vistos estamos a chegar ao far west: Acabo de ler uma sentença: facto provado: O ofendido foi falar com o opositor sobre a ofensa; facto não provado: Os temos concretos da conversa…; sentença: não ficou provado que o ofendido tivesse feito qualquer oposição… vale mesmo tudo e às claras…
antónio pa

José Couto Nogueira disse...

Caro Embaixador, lendo os comentários ao seu solilóquio, espero que não se sinta injuriado; já devia saber que o sentido de humor não é o forte dos portugueses, mais virados para a chalaça.
Como sempre, é um prazer lê-lo!

Anónimo disse...

Podia-se até fazer umas sessões de espiritismo para saber a opinião dos já desparecidos. Essas sessões seriam públicas para que ninguém duvidasse da sua veracidade.
Isto vai bem vai....
Estarei a delirar mas no "Antigo Regime" já se faziam coisas destas.
Estaremos na mesma situação??? Tudo isto é areia de mais para o meu camião.

Antonio Cristovao disse...

O melhor post sobre a irrelevancia das diretas

patricio branco disse...

há maneiras de ver as coisas, diferentes perspectivas, cadernos nascidos no passado que continuam acrescentados ao correr dos anos sem se cortar as folhas do passado, pois é um criterio, aliás parte-se do principio que esses militantes falecidos não votam, nem irá ninguem por eles, logo não haverá eleições falsificadas.
manter, não manter os nomes? isso faz-me lembrar os anuários em que quem se aposenta ou morre logo é tirado de lá, perdendo-se a memória dessas pessoas da casa já não no activo ou desaparecidas.
mas tudo isto resultaria em problemas pouco praticos e dificeis de resolver...