quinta-feira, 14 de agosto de 2014

"A Questão Agrária"


Foi em 1971, em Paris. A livraria existia (ainda existe?) na rue de Monsieur le Prince, quase a chegar ao boulevard St. Michel, ao Luxembourg. Tanto quanto me recordo (mas posso estar enganado), havia, na altura, uma grade a bordar um passeio alto. Hoje, julgo que há por aí umas escadas a compensar o desnível forte desse passeio.

Não sei como fui lá parar, mas deve ter sido por uma dica de alguém que me disse que era possível aí adquirir a primeira edição, brasileira, da obra de Álvaro Cunhal, "A Questão Agrária em Portugal", editada pela "Civilização Brasileira". Não a devo ter encontrado na "Joie de Lire", repositório de "esquerdalhices" portuguesas onde me abastecia, sempre que passava por Paris.

Cunhal surgia-nos então como a grande figura mítica dentre os principais atores políticos da oposição à ditadura. Eu ouvira falar desta obra, que era tida por "fundamental". Consegui-la foi algo para mim muito interessante, porque me permitia ajudar à construção de uma biblioteca que, por essa época, eu cuidava em formar sobre a oposição ao Estado Novo - e que, ainda hoje, constituiu um conjunto muito completo de obras que me orgulho possuir (e que um dia irá também integrar a Biblioteca Municipal de Vila Real). Lembro-me que adquiri logo dois exemplares - e que foi uma compra cara! -, um dos quais para um amigo "do partido". Não sei como os trouxe para Portugal.

Anos mais tarde, em 1980, de passagem por Paris, fui a uma "Fête de l'Humanité" em La Courneuve. Lá estava o livro à venda no stand do PCP. Comprei mais um exemplar, também para oferecer.

Esta questão agrária ainda é atual? Leio que a ministra Assunção Cristas quer reverter a decisão de Francisco de Sá Carneiro de entregar parcelas de uma herdade alentejana a diversos rendeiros. O "Público", no quadro de comemoração das obras proibidas pela ditadura, anunciou ontem o lançamento de um "fac-simile" desta obra. Resta-me confessar que me não recordo de ter lido uma única linha desse livro "histórico". E agora, tenho mais que ler... 

3 comentários:

patricio branco disse...

sim, hoje será uma curiosidade, uma raridade bibliografica para colecionadores, uma fonte para estudiosos das teorias economicas agrarias.

Portugalredecouvertes disse...


Na altura parecia mesmo que tínhamos chegado ao fim da exploração do homem pelo homem, a terra a quem a trabalha, eu aprendia essas teorias na escola de França (muitos professores acreditavam mesmo), mas na prática acontecia em Portugal!
era mesmo pioneirismo! as minhas colegas da aula babadas de inveja...

Anónimo disse...

o que anda a ler, Senhor Embaixador?

- PP