quinta-feira, 7 de agosto de 2014

A frase de Carlos Costa

Carlos Costa, governador do Banco de Portugal é homem sério e competente. Neste difícil caso do BES pode ter cometido alguns erros na avaliação atempada dos factos, o que conduziu a que o seu processo de decisão acabasse por parecer desfasado daquilo que a realidade exigiria. Mas nós não estamos na pele dele nem temos ideia das "descobertas" que, tanto ele como Vitor Bento, foram sucessivamente fazendo, à medida que a "cebola" BES ia sendo descascada. Alguém que sabe do que fala disse-me que a sensação que eles tiveram foi a de um cirurgião que só acaba por ter a verdadeira noção da gravidade da doença depois de "abrir" o paciente. Ao dizer isto, estou a ter para com ele a consideração que muitos dos seus amigos não tiveram para com Vitor Constâncio.

Em abono de Carlos Costa, devo dizer que, "visto, lido e respigado" (onde é que isto se dizia, no passado?) muito do que já se escreveu sobre o assunto, fica a sensação de que a solução encontrada terá sido a que, potencialmente, parece ser a mais favorável, no equilíbrio global de interesses. Que, por definição, não é neutro para nenhum deles.

Numa coisa, porém, Carlos Costa pode ter cometido um grave erro: ao ter afirmado que "a medida de resolução, agora decidida pelo Banco de Portugal, e em contraste com outras soluções que foram adotadas no passado, não terá qualquer custo para o erário público e nem para os contribuintes". Esqueceu-se porventura de acrescentar: "se tudo correr bem"...

É hoje evidente que isso pode, ou não, ser verdade. Para a vida, essa frase vai ficar-lhe colada à pele. Se tiver razão, a sua presciência será creditada, com louvor, no seu excelente currículo de grande servidor público. Se acaso se tiver enganado, esse erro não lhe será perdoado pela História. E pelos contribuintes.

13 comentários:

Fernando Correia de Oliveira disse...

Dos eventuais erros de Carlos Costa à frente do Regulador saberemos no futuro. Dos erros de Vítor Constâncio e do preço deles à frente do Regulador já sabemos. Há aqui uma grande diferença. Para além da intolerável sobranceria de Vítor Constâncio e do chuto para cima que teve depois de ter falhado vergonhosamente nos seus deveres. Carlos Costa, pelo menos, não se comporta como "adiantado mental" quando interpelado sobre a sua actuação.

Anónimo disse...

Este é, sem dúvida, um dos seus bons posts! A afirmação do Governador do BP não será esquecida... Mas o que ainda estará por descobrir no "testamento" da família ES?!

Anónimo disse...

Será que o BE não está a aproveitar a oportunidade para acabar com os banqueiros das repúblicas das bananas que ainda restam nesta Europa a 28 e em Portugal durante o post-PREC??

jmc disse...

A grande diferença de comportamento na supervisão entre Vítor Constâncio e Carlos Costa é o facto do BPN já ter acontecido. Mesmo assim, quem acha que a supervisão no caso BES foi eficaz é só para não dar a mão à palmatória

Carlos Fonseca disse...

Há ainda um pormenor (ou "pormaior", como costumava escrever o jornalista Carlos Pinhão), que o sr. embaixador não abordou.

Se o Banco de Portugal já suspeitava em 2013 de que algo estava podre no "reino" do BES, como foi possível ter sido autorizada a recente OPV do banco que, sabemos agora, deixa tanta gente - não necessariamente rica, mas que julgava estar a fazer uma boa aplicação das suas poupanças - de "calças na mão"?

Não terá havido alguma leviandade, quer da parte do Banco de Portugal, quer da parte da CMVM?

E não devia esta omissão das duas entidades ter consequências para os responsáveis das duas entidades em causa?

Anónimo disse...

Uma pessoa que trabalhou com João de Deus Pinheiro nunca deveria ter subido na vida depois disso.

opjj disse...

Provavelmente 4900 M€ levarão a recuperar 15 anos se tudo correr bem e com lucros anuais de centenas de milhões. Muita água vai rolar até lá.
Cumps.

Anónimo disse...

Fernando Correia de Oliveira tem, seguramente, a sua razão. Constâncio NUNCA deveria ter sido "premiado" com o lugar onde hoje está depois da incompetencia que demonstrou, que custou mais de 4 mil milhões aos contribuintes. Já Costa, esteve a ressonar enquanto o BES fazia trafulhices em cima do nariz dele. Dois incompetentes que mereciam ser despedidos e mandados para casa. Gente incapaz! Uma vergonha de 2 supervisores! Repugna-me ve-los a continuarem a usufruir de benesses profissionais depois de terem estado a dormir na forma!
Augusto Marques

Joaquim Moura disse...

Este post indigna-me.
Faz um juízo sobre a seriedade e competência do Governador do Banco de Portugal, não baseado nos factos reais e conhecidos, mas em supostas "descobertas" que só "eles" conhecem e que nos impedem a nós, comuns cidadãos, fazer justiça à seriedade e competência do Senhor Carlos Costa.
Poupe-nos a tanta sagacidade e perspicácia que a mim cheira mais a pura adivinhação.
A competência do Senhor Carlos Costa permitiu, entre outras coisas, que o Senhor Ricardo Salgado - sim foi ele que o permitiu porque não o suspendeu de funções como era seu dever - aumentasse os prejuízos do BES, já depois de lhe ter comunicado que o ía substituir, em mais 1,5 mil milhões de euros. É o próprio Carlos Costa que o afirma na sua comunicação.
Não é verdade que não o podia ter previsto. Podia e devia, tanto mais que já sabia que no 1º trimestre apesar das instruções em contrário a exposição do BES ao GES tinha continuado a aumentar.
Dizer que Carlos Costa é competente porque optou pela menos má das soluções para a recapitalizações do BES, é o mesmo que dizer que um pirómano, que acaba de reduzir a cinzas um prédio, é um excelente bombeiro, porque se distinguiu no combate ao incêndio que havia ateado.

Joaquim Moura disse...

Permita-me acrescentar a razão da minha indignação - que acabei por não mencionar no comentário anterior.
Estou indignado porque não imaginei poder assistir a tanta irresponsabilidade e incompetência no exercício de funções alta responsabilidade, como a revelada pelo Sr. Carlos Costa.
No início do passado mês de Junho, o senhor Carlos Costa autorizou o BES, administrado pelo Sr. Ricardo Salgado, a fazer um aumento de capital de 1045 milhões de euros ao preço de € 0,65 por acção. A informação disponibilizada aos interessados na operação foi um prospecto aprovado pelos reguladores, que contém informação financeira que o Sr. Carlos Costa, já sabia não ser totalmente verdadeira. Apesar disso a operação foi realizada e as acções vendidas a muitos clientes do BES nos balcões ao preço de 0,65. Muitos desses clientes fizeram-no porque não imaginavam sequer que os reguladores pudessem aprovar uma operação baseada em informação que não reflectisse a verdadeira situação financeira do BES. Muitos destes milhares de clientes, são pequenos accionistas que investiram uma parte das suas poupanças obtidas com uma vida de trabalho, outros são pequenos e médios empresários que tem uma relação de confiança com o BES de muitos anos e que para garantirem a renovação dos seus financiamentos dão o seu consentimento em comprar as acções sugeridas pelo seu gestor de conta.
Curiosamente muito dos accionistas de referência, como o Credit Agricole, o Bradesco e os maiores, não arriscaram a subscrição da parte que lhes cabia (porque terá sido?).
Hoje, essas acções valem zero.
Mais de 30.000 pequenos accionistas foram enganados com a cumplicidade do tão sério e competente Sr. Carlos Costa (e não só).
Ainda hoje se viu uma prova da honestidade intelectual do Sr. Costa, ao citar um artigo publicado no Fígaro elogioso para a sua pessoa. Eu não conheço o artigo do Fígaro, mas nos últimos dias milhões de pessoas no mundo inteiro, leram e ouviram, o que o Wall Street Journal, O NY Times (ontem em editorial), a Bloomberg, o El País escreveram e disseram sobre o senhor Costa.
Devia ter lido e ter ouvido, para ter a noção da rel imagem que la+ foram tem a rspeito do Sr. Costa e das autoridades de supervisão do mercado em Portugal.
Estamos abaixo de zero.

Anónimo disse...

Inteiramente de acordo com o comentador Joaquim Moura.
a)Pequeno Accionista, que ficou a arder em 30 mil euros por via da atitude irresponsável do Sr, Carlos Costa

Joaquim Moura disse...

Vai-se a ver e o "homem sério" , afinal, parece que não é assim tão sério e mentiu no parlamento.
Quem o diz hoje, em comunicado, é a CMVM:
http://www.publico.pt/economia/noticia/bes-cmvm-desconhecia-decisoes-que-tudo-indica-influenciaram-precos-de-accoes-antes-da-suspensao-1665847

Joaquim Moura disse...

Pelo que se vai sabendo, o Sr. Carlos Costa mentiu descaradamente no parlamento. E é a própria CMVM a desmenti-lo a insinuar que foi ele o responsável pela derrocada da cotação das acções na 6ª feira, por uso de informação priveligiada.
Ainda mantém que ele é um homem sério e competente?
http://www.publico.pt/economia/noticia/banco-de-portugal-come%C3%A7ou-a-preparar-resgate-do-bes-cinco-dias-antes-da-intervencao-1665900