domingo, 10 de agosto de 2014

À conversa no "Pereira" (11)

- Olha lá! Então agora deixaste de ser embaixador? Um jornal trata-te por "ex-embaixador".
- É apenas um lapso. Algumas pessoas acham que quem deixa de chefiar de uma embaixada passa a "ex". Desconhecem que a categoria de embaixador é o último escalão da carreira diplomática e é independente do facto de se dirigir ou não uma embaixada. Houve mesmo embaixadores que nunca chefiaram uma embaixada.
- Não acredito!
- Por exemplo, o Franco Nogueira.
- O quê?! O embaixador Franco Nogueira, o MNE do Salazar, nunca foi embaixador em nenhum sítio?
- Não, o máximo posto que ocupou no estrangeiro foi de cônsul-geral.
- Não fazia a menor ideia.
- E já viste quem ali vai a passear?
- Tens razão! É o general Eanes!
- Mais um que ainda se arrisca a que, um dia, alguém o trate por ex-general...

5 comentários:

http://lusosucessos.blogspot.com disse...

Senho Embaixador,
Absolutamente embaixador até parta para os anjinhos e escrito na memória para sempre.
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Porém, no meu caso particular e porque servi vários embaixadores, alguns só o foram no papel, dou-lhes o nome de chefes de missão.
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Embaixador Francisco Seixas da Costa terá e com justiça o estatuto que merece, para sempre, porque pertence ao grupo de embaixadores da "velha guarda" (felizmente ainda servi
um) que ainda não estavam contaminados com a União Europeia.
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Embaixadores da velha guarda trabalhavam para o nosso cantinho (com escassa verba do Orçamento do Funcionamento) e jardim plantado à beira-mar.
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades e chegaram, depois, as facilidades.
Seu admirador
José Martins

Anónimo disse...

Não tem muito a ver mas lembrei-me que, em França, os Ministros, Secretários e Sub-Secretários de Estado são para sempre tratados por "Monsieur (ou Madame) le/la Ministre", mesmo que o tenham sido só por um dia. Em Portugal seria bonito...
Um abraço do JPGarcia

josé neves disse...

Pois, mas um combatente mal deixa o campo de combate passa imediatamente a ex-combatente.
Reconheço que "combatente" não é uma carreira e nem o posto mais baixo quanto o mais elevado de uma carreira. Mas pergunto, pelo facto de terminar a sua comissão ou tempo de guerra, deixou de ter sido combatente para passar a ser um ex-combatente? E nesse caso os monumentos ao "Soldado Desconhecido" ou aos "Combatentes na Grande Guerra" ou aos "Combatentes da Guerra Colonial" não deveriam designar-se "Monumento aos ex-combatentes de tal e tal". Também nas campas de combatentes mortos em combate se deveria colocar "aqui jaz fulano ex-combatente do Ultramar na Guiné"
Não será esta posição mais uma mesquinha picuinhice bem à medida da nossa tacanha pequenez de ser e desagradecer quem deu o corpo às balas pela Nação.
O tratamento, como fazem os franceses, e lembrado acima, daria uma dignidade merecida a quem correu perigo de vida ao contrário da indignidade que implica o prefixo ex que retira à existência do indivíduo uma parte importante do que foi a sua vida activa, parte essa toda dedicada ao designado bem comum.

paísdo que foi a vida de uma foi

Anónimo disse...

Um pequeno “à parte”: o que é de lamentar, hoje em dia e de há uns tempos a esta parte, na nossa carreira, é o facto de alguém ser promovido a Embaixador sem nunca ter exercido essas funções, chefiando uma Missão diplomática, ou, vir a desempenhar determinados cargos nos serviços internos, como o de Director-Geral sem nunca ter estado à frente de uma Chefia de Missão. O caso de Franco Nogueira tem, de certo modo, características diferentes e insere-se num contexto político diferente. E, depois, foi Ministro. Não me faz impressão que um funcionário que exerça ou tenha exercido funções políticas, como as de Secretário de Estado, ou Ministro, venha, posteriormente, ou durante o desempenho desses lugares, a ser promovido a Embaixador. Ao exercer ou ter exercido um cargo desse tipo de responsabilidade, o funcionário revela uma determinada capacidade profissional, de elevada responsabilidade (política e não só) e, nesse sentido, não repugna nada, muito pelo contrário, que venha a chefiar uma Missão diplomática e ser promovido a Embaixador. O que ultimamente se tem assistido é de algum modo uma desvalorização da categoria de Embaixador e até de determinados cargos nos serviços internos, como os D-G (sobretudo nas DGPE e DGAE), quando se promovem a Embaixador funcionários com relativamente pouca experiência e sem provas das no quadro externo (com responsabilidades de Chefia de Missão), o que é uma mais-valia indispensável para quem ocupa funções de Director-Geral. Já não incluo aqui o lugar actual de SG-adjunto, que antes era ocupado por alguém que tinha estado, pelo menos uma vez, à frente de uma Missão Diplomática com credenciais de Embaixador, visto a figura de SG-adjunto ser, hoje em dia, uma espécie de Chefe de Gabinete do SG (e a de Chefe de Gabinete ter baixado para uma espécie de assessor). Por outro lado, assiste-se desde há um tempo a esta parte, a uma excessiva sobrevalorização dos funcionários com menos anos de serviço na carreira, em prejuízo daqueles com mais experiência, quer no quadro externo, quer no interno, desvalorizando completamente a antiguidade (naturalmente com provas dadas e responsabilidade), em prol, tão só, da “meritocracia”. Ora, como bem se sabe, as promoções com base apenas no mérito, com total exclusão da tal antiguidade (com provas dadas), têm permitido todo o tipo de atropelos na carreira diplomática, todo o género de manipulações, com muito tráfico de influências à mistura. Se a isto acrescentarmos uma cada vez maior politização da carreira, temos os ingredientes que têm catapultado muitos diplomatas, ainda “relativamente imberbes do ponto de vista profissional”, para lugares que antes eram ocupados por colegas igualmente competentes, mas mais experientes, o que só contribuía para uma maior ponderação, razoabilidade e saber (e maior visão) nas decisões a tomar sobre a gestão da nossa política externa e na discussão dessas questões com as diversas tutelas. Com estas palavras não procuro, de modo nenhum, defender uma posição tipo “velho do Restelo”. Há, indiscutivelmente, funcionários mais novos que se têm revelado excelentes profissionais e outros que o virão a ser, sem a menor dúvida. Trata-se apenas de demonstrar que a experiência, sempre que exercida com critério e responsabilidade, é uma indispensável mais-valia na carreira diplomática. Mas, infelizmente conta cada vez menos.
a)Rilvas

josé ricardo disse...

Senhor Seixas da Costa,

eu prefiro o republicano "senhor" para todos. Acho, aliás, da maior piroseira que nos juramentos protocolares dos ministros e secretários de estado, os nomes venham antecedidos pelo respetivo grau académico, como se estivéssemos numa qualquer apresentação de provas de uma qualquer universidade.

Sendo Francisco Seixas da Costa, nunca deixará de ser embaixador.

Um abraço.

José Ricardo

ps. a Assembleia Municipal da minha terra (Torre de Moncorvo) aboliu o tratamento que pacoviamente, em Portugal, costuma anteceder o nome.

ps 2. "- Olhe, pode-me tratar por engenheiro. A si não lhe faz diferença e a mim faz-me muito jeito". (já que falamos em mitos urbanos, neste caso, bem portugueses).

José Ricardo (dr. da mula russa, como diria a minha mãe).