quarta-feira, 16 de julho de 2014

Robin Cook


Foi anunciada a saída de William Hague, de "Foreign Secretary" do governo britânico, que passa a líder parlamentar do seu partido na Câmara dos Comuns. Isso trouxe-me à memória a figura de Robin Cook, que teve precisamente o mesmo percurso, depois de ter dirigido a diplomacia britânica entre 1997 e 2001.

Recordo bem o dia em que acompanhei Jaime Gama na visita do recém-empossado Robin Cook (que nada tem a ver com um seu homónimo escritor de romances), na sala da nossa REPER bruxelense. Os serviços do MNE tinham preparado para nós pastas com alguns temas passíveis de serem suscitados na reunião. O novo ministro britânico, numa lógica bem mais simples, tinha apenas duas folhas de A4, ligadas por aqueles lacinhos de fio com extremos metálicos, que fazem a imagem de marca do "civil service"... Como me habituei a ler documentos ao contrário, tomei atenção aos "talking points" que estavam à frente de Cook. Neles se sintetizavam, cada um em duas ou três linhas sem "bolds", os escassos assuntos que o Reino Unido queria colocar na reunião, seguidos da antecipação da possível resposta portuguesa, nalguns casos com sugestões para réplica. Numa segunda parte do texto, fazia-se uma "previsão" de temas que Jaime Gama podia, pelo seu lado, vir a levantar. Lembro-me que Gama foi muito pouco previsível nas poucas questões em que tocou, tendo ficado para sempre com a sensação de que os britânicos, dessa vez, não acertaram uma...
Robin Cook tentou lançar uma "diplomacia ética", que desde o início se confrontou com a "realpolitik" dos negócios. Trabalhista ou conservadora, a administração diplomática britânica segue uma lógica de fins muito profissional e rigorosa, pouco dada a flutuações. Segundo Palmerston, "a Grã-Bretanha não tem amigos, só interesses", embora eu ache que, às vezes, tem interesse em ter amigos... Um dia se falará do modo como, nesse tempo, o Reino Unido atuava perante a Europa e, no que diretamente nos respeita, relativamente à questão de Timor. Mas, se bem me recordo, não variou muito a atitude dos vários contrapartes britânicos que fui tendo nos Assuntos Europeus: Davis Davis, Doug Henderson, Joyce Queen, Geoff Hoon e Peter Hain.
A última imagem que guardo de Robin Cook foi a conversa que tivemos, sentados lado a lado, num jantar em Nice, no dia da assinatura do tratado europeu com esse nome, em 26 de fevereiro de 2001. Uma semana depois, eu iria sair do governo para ir ocupar a chefia da nossa representação na ONU. Fiquei surpreendido quando Cook inquiriu: "Sais por algum conflito com o Jaime?". Expliquei-lhe que esse era um boato corrente e recorrente, mas sem o menor fundamento, e que, como há mais de um ano estava planeado, regressava à minha carreira profissional após a presidência portuguesa da UE e depois de concluir a negociação do tratado que tinha sido assinado nesse dia. Foi então que recebi dele esta confidência: "Sei por experiência própria que, às vezes, as coisas não são fáceis dentro dos governos. Eu próprio tenho as minhas divergências com Tony (Blair). Tenho a sensação, aliás, de que se ocupasse uma pasta ligada a questões de política interna, já há muito que teria saído do "cabinet" ". Não tendo nenhuma intimidade com Robin Cook, fiquei surpreendido pela candura desta revelação. Mas, de facto, já persistiam fortes rumores sobre as divergências entre o primeiro-ministro britânico e o seu "Foreign Secretary", que era tido por demasiado pró-europeu. E, menos de três meses depois desta conversa, Cook seria afastado por Blair do "Foreign Office" para ir para líder dos Comuns, com lugar no governo, mas num segundo plano. Como agora vai acontecer a William Hague.
Tempos depois, Robin Cook sairia com estrondo, mas com honra, desse novo cargo, em protesto contra a posição de Tony Blair na questão do Iraque. Deixou a esse propósito um livro curioso, com o título simbólico de "The Point of Departure", onde, nomeadamente, relata cenas passadas nos conselhos de ministros, nesses tempos tensos. Guardo dessas memórias (que ainda devo ter encaixotadas algures) o episódio divertido de uma conversa com a rainha mãe, em que esta intercede para que não sejam vendidos os edifícios de algumas embaixadas britânicas pelo mundo (por cá, não sei de alguma "rainha mãe" tentou travar a depredadora cultura Re/max que atravessou o MNE, nestes últimos anos).

Robin Cook viria a morrer subitamente, de ataque cardíaco, aos 59 anos. Tinha como hóbi escrever para jornais sobre corridas de cavalos, assunto sobre que era um reconhecido especialista. Guardo dele para sempre a imagem de um homem muito cordial e simpático.     

4 comentários:

Anónimo disse...

Se calhar a rainha mãe de cá, também tentou...

Anónimo disse...

Robin “cooked”: a good epitaph, (tal como cá…)
Se estamos a falar da mesma nossa rainha mãe, estou certo que não tentou. Feitios…
antonio pa

Anónimo disse...

O que eu apreciei ler este seu Post. Você deveria um dia escrever umas memórias diplomáticas. Sucesso garantido, meu caro!
a)Rilvas

patricio branco disse...

à boa maneira britanica introduzia sempre nos seus discursos de fundo oprtunamente citações de shakespeare ou outros literatos ingleses ou um dito humoristico, uma graça, que punha a audiencia a rir e bem disposta para o ouvir.
passeando de barco num lago alemão na companhia do seu homólogo alemão num dia de mau tempo disse depois a propósito, na conferencia que deu horas depois para uma audiencia, que perder um ministro dos estrangeiros num naufragio seria coisa aceitavel, mas perder 2 ministros dos estrangeiros ao mesmo tempo seria já não seria nada aceitavel.
e na abertura duma presidencia portuguesa da ue em janeiro, estava se a 6 de janeiro, disse, citando os titulos de 2 peças de shakespeare, que fazia votos para que essa presidencia que começava numa noite de reis e terminava numa noite de verão fosse uma excelente presidencia.
interessantes estes homens que têm na sua preparação e disposição umas notas humanisticas e as sabem usar.
pois desconhecia as memórias de cook the point of departure, leitura boa sem duvida...