terça-feira, 22 de julho de 2014

Os inúteis

Foi necessário que, na passada semana, Bagão Felix tivesse utilizado o seu "megafone" mediático para que as Finanças cuidassem de vir pressurosamente a terreiro, por fonte ainda assim anónima, a clarificar o que não era claro: que os funcionários públicos na reforma não estão impedidos de dar contributos que lhe sejam solicitados por entidades públicas, desde que pro bono, a título gracioso.

Sou consultor de duas universidades públicas e faço parte de um grupo de trabalho criado por um diploma interministerial. Não recebo um cêntimo por estas tarefas, mas é com grande prazer que presto esse meu contributo. Faço-o pelo que considero ser meu dever tentar ser útil ao Estado, mesmo na condição de reformado, depois de 42 anos de orgulhoso servidor ativo da "coisa pública".

Como muitas outras pessoas nas mesmas circunstâncias, interroguei-me quando vi publicada a Lei 11/14, de 6 de março. Contrariamente ao anónimo oráculo do Terreiro do Paço, não tomei o "wording" do texto legal à conta de um pretenso "excesso de zelo" (ficando por clarificar o que entendem por "zelo"). Tomei-o pelo que ele era, de facto, e que, agora e sob pressão do escândalo, o poder político teve atabalhoadamente de retificar, ainda assim com um mero "parecer": o interesse em afastar do convívio com o Estado, tão rapidamente quanto possível, os antigos servidores públicos, uns "inúteis" tidos por potenciais desafetos à nova cultura político-administrativa dominante, por forma a evitar que eles venham a "poluir" esse arejado ambiente, com as suas ideias de outrora e com a sua opinião datada.

O escriba de serviço foi longe demais? Talvez, mas não cometeu nenhum lapso, era para ser mesmo assim! Eles fazem asneiras mas não fazem erros. De quem freudianamente "matou o pai" e agora parece querer "privatizar a mãe", tudo é de esperar. Quem os não conhecer que os compre...

11 comentários:

Portugalredecouvertes disse...


Espero que nessas medidas não estejam incluídas as romarias!

São disse...

Para não lhe roubar muito tempo e porque também não o tenho, permito-me fazer meus este post e o que dedicou a Israel.

Os meus respeitos e agradecimentos.

Anónimo disse...

Caro Francisco,

Muito bem! Desconhecia o problema. Eu, que estou de licença sem vencimento, voltei ao MNE há algumas semanas para falar do que a Fundação Gulbenkian fez, faz e fará por esse Mundo fora - a título gracioso, claro. Espero que eu e quem me convidou não venhamos a ser punidos e que esta nova interpretação seja retroactiva.
Um abraço do JPGarcia

EGR disse...

Senhor Embaixador : o problema deles é mesmo o de receio que lhe poluam o ambiente.
Comportamento típico dos medíocres!

Anónimo disse...

Esta gente confunde-me.Estas parvoeiras, parecem-me um "mix"de intencionalidade, incompetência e esperteza saloia, duma cambada de putos a que nós todos estamos sujeitos e tramados.

Anónimo disse...

Subscrevo a São. Este foi mais um seu bem conseguido Post.
Com amizade,

Um Jeito Manso disse...

Ora bem, Embaixador! Assim gosto. Nem meias palavras nem punhos de renda: pão, pão, queijo, queijo.

De resto, se falar com muitas subtilezas, os verdadeiros inúteis que nos desgovernam não o compreenderão.

Agora o que me espanta e agonia um bocadinho, sabe o que é? É que tenham que ser pessoas da área do Governo a desmontar e revoltar-se contra as bacoradas sucessivas deste governo. Bagão Félix, Manuela Ferreira Leite ou Pacheco pereira fazem uma oposição mais séria do que o Tozé dos ferrinhos. só espero é que as primárias sirvam para correr com ele para ver se alguém faz oposição a sério a estes sujeitos que estão a acabar com tudo o que presta no nosso País.

Seja como for, fico muito contente por vê-lo a dar um murro na mesa. Que venham mais porque razão para isso é o que infelizmente não nos falta. E que a força não lhe falte, já agora.

Anónimo disse...

Senhor Embaixador,

Essa de "privatizar a mãe" na terra onde nasci tem um nome muito feio que nada tem a ver com os amáveis lagareiros...

Pouco a pouco, mas a largos passos eles vão avançando para a "privatização total", assim nem vale a pena entrar em conflitos com a Constituição nem em "reformá-la".

O problema está nos sofás "eminentes" que encontram certos "funcionários efémeros" e governantes que foram "parachutados" das grandes empresas e grupos...

Paris en été est un beau cadeau!

Anónimo disse...

Isto não é só um problema de educação, está muito mais enraizado. É um problema cultural.
A educação ajuda, mas são precisas bases culturais muito sólidas!
José Barros

Anónimo disse...

São apenas reles. Muito reles, as criaturas que nos desgovernam. A história dos últimos anos está cheia destes episódios. Veja-se, também, como exemplo, a forma como o ministro da educação despachou a realização dos exames pelos professores.

David Caldeira

JS disse...

Aparentemente a lógica que apoia esta insólita legislação é a seguinte:
Se existe algum "trabalho" que tenha mesmo que ser executado, em organismo público, esse posto deve ser preenchido ou por uma transferência de outros serviços descontinuados, ou por um desempregado...
"Pro bono", nestes casos, retira oportunidades a quem tem necessidade de subsistência, rendimento profissional...
O conceito de pensionista do estado é pois, para "cumprir", sempre.
Curiosamente vemos nos dois mais altos postos da Nação dois "reformados"!.
Legislar é uma arte....
Cordialmente.