domingo, 13 de julho de 2014

O fim do Bloco

O Bloco de Esquerda foi uma lufada de ar fresco num determinado momento da vida política portuguesa. O "cheiro" de uma oportunidade no quadro partidário, num tempo em que o PCP dava (ainda mais) sinais de anquilosamento e o PS se afundava no pragmatismo do poder, criou um movimento que diluiu barreiras que até então se pensava serem intransponíveis: entre comunistas críticos, maoístas de origens contrastantes e trotskistas disponíveis a um compromisso. Desde sempre "eleito" de uma comunicação social complacente, o Bloco ganhou um espaço público fortemente desproporcionado face à sua real importância democrática. Por um certo tempo, reconheço que trouxe um discurso novo e desempoeirado à cena política doméstica, antes de ter mergulhado na furiosa adoção do "politicamente correto" sectário.

Servido por figuras com inegável capacidade intelectual, de Miguel Portas a Francisco Louçã, passando por Fernando Rosas e Luis Fazenda, bem como João Semedo ou José Manuel Pureza, o Bloco deu mostras de estar unido nos momentos de "fluxo" dos ciclos políticos e de revelar fáceis fissuras nos tempos de refluxo. O seu ADN algo autoritário (Stalin e Trotsky não foram dos maiores democratas...) veio facilmente ao de cima em crises que envolveram figuras que lhe estiveram próximas mas que, por qualquer razão, se afastaram do seu controlo, como foi o caso de Rui Tavares, Daniel Oliveira ou Joana Amaral Dias, e agora parece acontecer com Ana Drago. Numa marca organizativa politicamente adolescente, pareceu ter sempre pudor em assumir em pleno a chefia de Louçã, até cair numa patética liderança bicéfala, que a opinião pública nunca tomou muito a sério.

Mas a crise do Bloco é ideológica, não de forma. Paladino das causas fraturantes, o Bloco nunca teve a humildade do trabalhoso compromisso com a realidade, preferindo trilhar os fáceis caminhos da "pureza" doutrinária. Sem as "tropas" sindicais do PCP, não foi capaz de criar uma linha original que desse ao eleitorado comunista uma razão para deslocar para ele o seu voto. Ao PS, cuja ala esquerda procurou seduzir, deu uma irrecuperável "bofetada" histórica, ao ter contribuído para o derrube do seu governo em 2011, numa "coligação" aberta com a direita unida, devendo ainda ter de explicar se afinal preferiu a "troika" que depois aí veio e que o seu voto (bem como o do PCP) também contribuiu para chamar. 

Nos últimos tempos, esgotadas as temáticas dos direitos, o Bloco dedicou-se a adubar um crescente radicalismo político, colando-se a tudo quanto "mexesse" contra o governo, alimentando o discurso velho e relho contra o "grande capital", que a desregulação financeira facilitou, favorecendo hipóteses "albanesas" de saída da crise (como o abandono da UE), demonstrando assim uma clara irresponsabilidade política e um desnorte estratégico que o colocavam fora de qualquer solução política construtiva. Adepto do "crescimento", pugna contudo por um modelo de sociedade que afasta o investimento produtivo e a criação de emprego, projetando a menos apelativa imagem de um país que pretende estimular a entrada de capital exterior, que parece ser, até prova em contrário, a única forma desse "crescimento" surgir. Num clássico tropismo tradicional da extrema-esquerda, passa o tempo a clamar pela "unidade", ao mesmo tempo que se "balcaniza" cada vez mais em grupos e iniciativas, heterónimos da sua cissiparidade endémica. Agora, o seu estertor anuncia-se e apenas a oportunista tribuna mediática permite que a sua bancada parlamentar sobreviva até às legislativas.

De certo modo, tenho pena ao ver este fim pouco glorioso do Bloco. É que, olhando para ele, não consigo deixar de sentir uma certa nostalgia por uma "movida" política de que, há décadas atrás, me senti próximo. E dou comigo a pensar que o voto de muitos portugueses, como se viu nas últimas eleições europeias, continua a ser desperdiçado de forma frustrante em formações que, podendo acolher os frutos do seu descontentamento, não têm a menor hipótese, pelo irrealismo do que propõem, de contribuir para a construção do nosso futuro coletivo.

10 comentários:

Anónimo disse...

É uma pena o que está a suceder ao BE, de algum tempo a esta parte. Para além das figuras que enumera, gostaria de acrescentar a Mariana Mortágua, a Marisa Matias, a Catarina Martins, João Semendo, Pedro Filipe Soares, Helena Neves, etc, etc. O que me custa a compreender é o facto de pessoas inteligentes e bem preparadas e articuladas intelectualmente não serem capaz de perceber que o sectarismo não leva a nada, bem pelo contrário, leva ao enfraquecimento do partido, como está a suceder. Mandaria o bom senso que depois do que se passou nestas últimas eleições europeias, mas mesmo nas anteriores, que se repensasse o BE, sobretudo a sua estratégia e posicionamento político, face aos outros partidos de esquerda, do PS aos pequenos outros, enfase que já tinha sido dado por Ana Drago. Com esta atitude, fica a esquerda mais pobre, porque o BE poderá desaparecer, e voltamos ao antes do BE, com os do costume, PS, PSD, PCP e essa coisa, o CDS-PP (o partido de Paulo Portas, que não o era antes de ele tomar conta do CDS e o subverter por completo, tornando-o um partido extremista e popularucho, à sua imagem). Quem sabe se o PS poderá vir a beneficiar disto. É provável, mas por pouco. Ao BE resta pouco ou quase nenhum tempo para dar a volta. Depois desta demissão sonante, de Ana Drago, era bom que o Bloco procurasse antecipar o seu congresso e fizesse “mea culpa”. Mas, não vai suceder. No fim de contas, para quem conheceu bem os grupúsculos da dita extrema-esquerda de há 3 décadas atrás, o que se está a passar se calhar tem a ver com o velho revivalismo dessas diferenças e sectarismos. E assim não se vai lá. “2015 poderá ser o "requiem” do BE. Uma pena! Tal como muitos outros, também votei neles, acreditei neles, sonhei com eles, mas vejo agora que o projecto está a desfazer-se. Por culpa deles e só deles.

iseixas disse...

Concordo vai ser, já é uma perda, mas que fazer...

Anónimo disse...

Mais um partido do Chiado que vai à vida porque não tem um bancozinho por trás...apenas correlegionários dos que não "terão sido grandes "democratas": stalin e trotski"???
Mas estes queriam a rebaldaria nos costumes, os outros, também daí, querem a rebaldaria na economia e na governação que, praticamente estão instaladas. Se não fosse a D. Angela, aonde esta gente já nos tinha levado!
antonio pa

patricio branco disse...

o que é na verdade e pratica o be?
4 ou 5 deputados inteligentes, que falam e expõem bem, com bom aspecto, bem vestidos? sim
um partido com implantação em sindicatos? não.
um partido que está disposto a entrar em coligação com outro partido num governo? não
uma, o que se chama de, formação de esquerda radical chique, integrando intelectuais, universitários, profissionais liberais, etc? sim.
para estarem no parlamento, nacional ou europeu, e unicamente aí intervirem no que afinal não passa dum exercicio de retorica inteligente? sim.
pois então o be que desça à terra e na impossibilidade disso, que o partido termine e cada um dos deputados bloquistas integre outro partido e aí seja util, se quiser.
ou que venham outros pequenos partidos, o da terra, o livre...

Anónimo disse...

O Bloco e PCP, são os preferenciais aliados da direita.
Quem levou a direita ao poder? Lembram-se da votação da dita moção, não lembram?! Pois. A direita está-lhes grata. Os portugueses, é que se lixaram.

Anónimo disse...

Bela análise, embora lamente ter de concordar (não em tudo) consigo

Anónimo disse...

"radicalismo pequeno burgues de fachada socialista", cavalo de troia do imperialismo

cumprimentos

Anónimo disse...


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Jose Gomez Bulhao Mas que é o BE actualmente? Um partido fechado em si mesmo, no seu casulo, narcisista, sem raizes práticas na sociedade e ainda por cima fracturado, os dirigentes em debandada, etc

10 h · Gosto · 1
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Armando Ramalho Como qualquer casamento que não dá certo. Acabar com a farsa é o mais digno, ganham todos. O PS que aprenda pois pode acabar mal.

10 h · Gosto · 2
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José Ribeiro O BE é um projeto falhado porque quer concorrer no mesmo terreno ocupado há muitos anos pelos estalinistas. Neste momento eles sobem e os do BE descem e vão acabar por desaparecer.

Desde o princípio que o BE é uma espécie de contraplacado: um conglomerado de partidos que, por sua vez, já são um conglomerado de partidos e movimentos mais pequeno. Ou a síntese formava uma nova e outra entidade para ocupar o espaço político adequado ou (está em processo) desagrega-se como a humidade vai separando as placas do contraplacado,
Eurico Dias

(Agora mesmo, no faceboock).

jj.amarante disse...

Os jornais muitas vezes ampliam a relevância dos pequenos partidos, como se pode constatar neste gráfico mentiroso: http://imagenscomtexto.blogspot.pt/2009/09/graficos-mentirosos.html

opjj disse...

O seu último parágrafo aplica-se tb ao BE.
Em termos práticos o BE sucumbe porque não tem jobs for the boys.
Cumps.