segunda-feira, 28 de julho de 2014

Na escuridão

Aproximava-se a hora de jantar. Combinara ir colocar a minha mala no quarto do hotel, naquela imensa cidade, e voltar ao lóbi, já de fato vestido, cerca de um quarto de hora depois. Abri a porta do quarto com o cartão eletrónico e logo as luzes da suite onde iria dormir se abriram. Entrei e a porta fechou-se, lentamente, atrás de mim. Com a mala numa mão e a pasta noutra caminhei até chegar junto à cama, já bem distante da porta por onde entrara. Depositei a mala sobre a cama. Também o casaco. Tirei a camisa suada da longa viagem. Ainda dava tempo para tomar um rápido banho. Comecei a abrir a mala, para arrumar a roupa no armário, quando todas as lâmpadas do quarto, subitamente, se apagaram. Era já noite, as cortinas deviam estar corridas (às escuras, eu não fazia ideia onde seria a janela), nem uma réstea de luminosidade pairava naquele espaço que eu presumia largo. Deveria ter colocado o cartão no lugar de ativação das luzes, provavelmente junto à entrada, mas dava-me agora conta de que não o havia feito. E onde estaria o cartão? Talvez sobre a cama. Caramba, naquele hotel, o "time lag" programado das luzes era bem curto, menos de 30 segundos!

Imprudentemente, sem refletir bem, comecei a mover-me. Tentava encontrar a porta. Bati contra um candeeiro. Andei um pouco mais e tropecei no que me pareceu ser uma mesa. Várias coisas caíram ao chão, entre as quais um telefone que passou a lançar um silvo. Tateando, avancei e algo anguloso espetou-se-me na cintura (um móvel, pela certa) e, à frente das minhas mãos, uma televisão de plasma tremeu e correu sérios riscos. Continuei a procurar avançar. Foi então que caí sobre uma outra mesa (devia ser isso, presumi) e, desamparado, fui aterrar sobre algo que me pareceu ser uma cadeira. Devia ter derrubado também tudo o que estava sobre a mesa (mais tarde vim a constatar que era fruta, a garrafa de água e a ritual carta de boas-vindas no "manager"). Em que diabo da zona da suite (tinha percebido vagamente, à entrada, ser uma suite, com vários espaços distintos) estaria eu? A cama, ponto inicial de referência, com base na qual eu talvez pudesse reconstituir o percurso feito desde a entrada, já lá ficara muito para trás (ou para a frente, sei lá!). Estava totalmente baralhado quanto à geografia do espaço.

Não costumo "empanicar", mas dei por mim a constatar que estava a ficar sem soluções. E já com um problema acrescido. É que, a certo passo (no sentido literal), pisei algo que estalou. Era vidro, devia ser talvez de algum copo que eu derrubara. Tinha de passar a ter muito cuidado, para não cair e ferir-me, ainda por cima de tronco nu. Parei para pensar (c'os diabos! Já tinha passado por situações bem mais difíceis, isto era apenas um "fait divers", embora embaraçante). Lembrei-me da regra de saída dos labirintos: caminhar sempre num só sentido, para a esquerda ou para a direita. Foi o que tentei fazer. E lá continuei a tatear, com grande atenção. Sentia-me ridículo, para não me sentir desesperado. Agarrei algo: era um quadro. Consegui "escapar-lhe", sem danos colaterais. Sem uso da vista, o resto dos sentidos ficam mais apurados. Ouvi o que pareceu ser um longínquo ruído de canos e, nessa direção, senti uma porta. Baixei-me e senti que tinha mármore no chão: era a casa de banho. Passei ao longo do espaço da sua porta e continuei. Animado pela descoberta, acalmei e animei-me. Por algum tempo mais, mas que não deve ter sido tanto como isso, continuei a porfiar na busca do caminho de saída de um quarto de cuja configuração não guardara a menor ideia, aquando da minha entrada, já uma eternidade atrás. Fiquei entretanto a reconhecer a existência de mais um quadro, até que a porta de entrada, finalmente!, surgiu na minha mão. Já me ria comigo mesmo, da trapalhada em que me tinha metido. Aliviado pelo seu termo.

Abri a porta do corredor e, encandeado pela luz, dei imediatamente de caras com um membro da delegação portuguesa que passava em frente. Era um homem que se juntara conosco naquele hotel, creio que de uma empresa, era uma pessoa com quem me tinha cruzado mas com a qual não trocara uma palavra. Ia já bem aperaltado para o repasto. Imagino como deve ter olhado para mim, em tronco nu, projetando um ar algo desaustinado e estremunhado, com uma aparência estranha, natural de quem emergia de uma aventura, solitária e inédita, num quarto escuro. Mas ele não podia saber. Sorri-lhe, imagino que com um sorriso amarelo, tentando transmitir um tom de naturalidade, sem coragem de lhe relatar o que me estava a acontecer. Os embaixadores, por definição da função, querem-se gente calma e "rassurante", dominadores da situação, em especial nos países onde estão acreditados. O que era o meu caso. Ele desapareceu ao fundo do corredor, deitando ainda um olhar de soslaio, ao voltar da esquina.

O meu problema não tinha acabado. Mas tinha evoluído. Dispunha agora da ténue luz do corredor a iluminar-me o acesso ao início do quarto, mas não podia largar a porta para ir à procura da chave, que estaria algures sobre a cama (ou no bolso do casaco?). Em qualquer caso, era bem lá longe, lá para dentro. Não podia, porquê? Porque, se a largasse, a porta se fecharia automaticamente. E se eu fosse à portaria, pedir outra chave? Em tronco nu?! Doze andares abaixo?! Seria um belo espetáculo, para toda a nossa delegação, ministros incluídos, de certo juntos, à conversa, já de fato e gravata para a função que se seguia! Lembrei-me que poderia ter pedido ao desconhecido da delegação para avisar a receção, mas não tinha tido o sangue-frio para agarrar a ideia a tempo. E ali estava eu, feito parvo, meio despido, agarrado à porta do quarto, com as pessoas à minha espera no hall do hotel. 

Foi então que a vi aparecer, linda, "dressed to kill", caminhando pelo corredor, aproximando-se da porta do meu quarto, em direção ao elevador. Já não era muito nova, mas era muito bem "desenhada" e caminhava num estudado "catwalk". Olhava para mim com um ligeiro sorriso. Curiosidade? Pena? Conhecendo-me, acho que devo ter "feito peito", para amortecer a imagem da barriga...

- Excuse me! Could I ask you a favour?

Não sei o que a beldade possa ter pensado, mas constatei que me lançou um sorriso prometedor (no sentido prático da resolução do meu problema, entenda-se, porque as belas não são destituídas de bom coração). "In a nutshell", expliquei-lhe a situação. Qual era então o favor? Que me emprestasse o seu cartão-chave, para eu poder "dar à luz" e ir descobrir o meu próprio cartão. Porém, iria ter que fechar a porta, por alguns instantes, expliquei-lhe, não ousando naturalmente convidá-la a entrar, caso em que seguramente pensaria que eu lhe estava a "fazer a folha".

- Don't worry! I'll keep it open for you! disse ela, prática e colaborante. E ficou na ombreira, com um pé dentro do quarto, segurando a porta.

A luz fez-se e, em escassos segundos, recuperei a minha chave sobre a cama, e, com um sorriso do tamanho do mundo, vim ter à porta com a minha salvadora. Sempre em tronco nu, entreguei-lhe, entre desvanecidos agradecimentos, o seu precioso cartão. Ela também continuava a sorrir.

Foi então, nesse preciso instante, que passaram no corredor dois outros membros da nossa delegação. Fizeram-nos um olhar malandro, ao verem a beldade "sair" do meu quarto, comigo "ainda" em tronco nu. Tinhamos todos chegado àquele hotel há menos de meia hora. "Estes embaixadores não perdem tempo", devem ter pensado. Talvez para manter o "prestígio", quando  mais tarde, me cruzei com com eles à entrada para o jantar, trocámos um mútuo esgar que se tornava algo cúmplice, cuidando em não desapimentar a história.

Porque me lembrei disto hoje? Porque acabo de chegar a Varsóvia, porque voltei a ficar às escuras no quarto de um hotel, exatamente pela mesma razão da historieta que acabo de relatar. A diferença é que este é um hotel cuja geografia dos quartos conheço "de ginjeira" e, dez segundos depois, tinha o problema resolvido. Confesso que ainda deitei um olhar para o corredor. Mas qual beldade, qual carapuça!

18 comentários:

Paulo Roberto Almeida disse...

Esta cronica vivida vale por um conto inventados, dos melhores que já li.
Ganharia um concurso de crônicas mundanas...

Anónimo disse...

Transponha esta histéria para o Unique, em S. Paulo e foi, exacatamente, mas sem a beldade, o que me aconteceu. No meu caso foi pior porque os corredorres desse hotel estão à media luz...

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Anónimo das 09.21: acertou!

Feio Almeida disse...

Ele acontece cada uma na vida (como esta) que sem muito esforço davam pelo menos um pequeno filme de suspense. No presente caso a situação está tão bem descrita que torna a sua leitura irresistível até ao fim.
Como já estou habituado ao seus saborosos apontamentos não estranho nada e só espero que um dia publique uma compilação dos mesmos. Os meus sinceros cumprimentos, e até à próxima.

Anónimo disse...

Belo conto!!

Anónimo disse...

Exemplar! Do melhor que vicê escreveu por aqui até hoje. Parabéns.

CSC

patricio branco disse...

tudo se resolve mesmo que com vários incidentes pelo meio, uns piores, outros mais agradaveis, e a primeira experiencia deu conhecimento acumulado para resolver facilmente o sucesso de ontem...

Anónimo disse...

"Não há mal que sempre dure, nem bem que nunca acabe". A história fica beneficiada quando é composta com uma beldade loira!...

Alain Demoustier disse...

adorei , mais uma prova da existência de Deus
um abraço Alain

Anónimo disse...

Fartei-me de rir!

Isabel Seixas disse...

Um episódio bem engraçado, sem dúvida, bem aliciante a transcrição cheia de suspense,parabéns.

Anónimo disse...

Gostei. São estes textos que também me fazem passar por aqui com regularidade.

Anónimo disse...

Quanto à loira, devia ter dourado mais a pílula. Aí é que seria ficção. Assim, parece uma realidade frouxa. O García Márquez dizia que a realidade supera sempre a ficção.

Francisco Seixas da Costa disse...

Mas quem é que disse que "ela" era loura? A senhora em causa era morena

Guilherme Sanches disse...

Bela história, humor em alta.
E para futuros apagões, não é necessária a chave do quarto.
Para manter a luz acesa, não é uma chave, é um interrutor. Qualquer cartão ou cartolina serve.
Um abraço

Anónimo disse...

vejo isso ser filmado em um episódio de Mr. Bean. Hilário!

Anónimo disse...

Poça, por instantes pensei que ia substituir os pilotos da TAP.

josé ricardo disse...

um azar do caraças, este de Varsóvia.

um abraço,
josé ricardo