segunda-feira, 7 de julho de 2014

Fora de jogo

Eu era bem jovem, mas já gostava muito de futebol. Tinha, contudo, como acontece a quem chega a esse desporto, a grande dificuldade de entender a falta de "fora de jogo" - nesse tempo dizia-se "offside". Nas idas ao campo do Calvário, onde em alguns domingos íamos ver o Sport Club de Vila Real, o meu pai esforçava-se por me explicar o significado da falta, perante o sorriso complacente dos espetadores vizinhos e o meu visível embaraço. Nesse tempos não havia televisão, através de cujas imagens estas coisas podem hoje ser mostradas com pormenor e eficácia pedagógica. Lembro-me da nossa mesa da braseira servir de campo de explicação, com os peões do tabuleiro de xadrez a funcionarem como jogadores. Até que aprendi.

(Sei que, por escrito, estas coisas são difíceis de explicar, mas vale a pena tentar: está em posição de fora de jogo, sendo por isso punido com um livre indireto, o jogador que, no instante em que a bola lhe for passada por um colega de equipa, se encontrar num lugar no terreno em que não tenha, entre si e baliza adversária, dois ou mais jogadores da equipa contrária. No passado, o árbitro assinalava a falta no momento em que a bola partia, agora a prática é só apitar no momento em que o jogador faltoso recebe a bola. E, muitas vezes, nessa ocasião, a sua posição relativa é diferente daquela em que estava no momento em que a bola partiu, o que dá origem a muitas confusões... Até cá em casa!)

Uma noite dos anos 60, em casa do meu avô, reunimo-nos para ver, naqueles televisores a preto e branco da época, com muito grão e não menos névoa, um Benfica-Real Madrid.

Num certo momento da partida, Alfredo Di Stefano, o mago argentino que brilhava então no Real de Madrid, foi um dos protagonista de uma bela jogada.  Vendo o seu colega Puskas - outro génio! - adiantado e isolado, passou-lhe a bola. Eu gritei "off side!". Mesmo perante a minha continuada indignação, o árbitro não me "ouviu". E Puskas correu o resto do terreno e colocou a bola no fundo da baliza de Costa Pereira.

Foi nesse instante que o meu pai me explicou que a regra do "offside" tinha uma assinalável exceção: não se aplicava quando a situação se passava na metade do campo da equipa que detinha a bola. Quer Di Stefano quer Puskas - mas é este que importa -, estavam no seu próprio meio campo, isto é, antes da linha de meio campo. E isso muda tudo. Aprendi para sempre, e julgo que comigo muita gente, nessa noite.

Don Alfredo morreu hoje, aos 88 anos. Está, agora sim, definitivamente "fora de jogo". Era um mito vivo no Real e foi um dos melhores jogadores de todos os tempos. A mim, que sempre reverenciei o seu génio, ensinou-me "a única exceção do 'offside" (*). A ele lhe devo, poucos anos depois, ter "brilhado" num curso de arbitragem da Associação de Futebol de Vila Real. Aliás, outra carreira que perdi...

(*) Na realidade, há mais três exceções: nos pontapés de baliza, nos pontapés de canto e nos lançamentos da linha lateral.

10 comentários:

Carlos Fonseca disse...

Parece-me que seria difícil explicar melhor a lei do "offside" (como o meu pai nunca deixou de pronunciar. Tal como "back", "keeper", "half", etc. Curiosamente, não dizia "corner").

Quanto a Di Stefano, era um portento de técnica, aliada a uma excepcional visão do jogo.

Houve grandes futebolistas na sua época, alguns completamente esquecidos. Quem é que, em Portugal, se lembra hoje de Travassos, por exemplo? Nem a maior parte dos sportinguistas.

Francisco Seixas da Costa disse...

Essa agora, Carlos Fonseca! Eu vi jogar José Travassos! Ou melhor: o meu pai levou-me ao Estádio Nacional num Portugal-Suécia de má memória e sei que Travassos fazia parte da nossa equipa. Mas não me lembro...

Anónimo disse...

José Travassos, aliás o grande Zé da Europa.
Tive o prazer de o ver jogar, e depois conviver nos jogos do futebol de formação a que ele não faltava,nos campinhos junto ao velho Alvalade.

Saudações.

Silva.

Carlos Fonseca disse...

Sr. embaixador,

Claro que o senhor se lembra! O meu "ninguém" não passa de um desabafo. Repare que a seguir escrevi que "nem a maior parte dos sportinguistas" (se lembra). Logo, há uma minoria que se lembra.

Mas, atento como é, o senhor já deve ter notado que quando se fala nos melhores jogadores portugueses de sempre, raramente Travassos é citado, mesmo pelos profissionais do jornalismo especializado. Como se o futebol português tivesse começado na década de 1960. Preguiça?

Não por acaso, foi o primeiro futebolista português escolhido para uma seleccção europeia. Isto numa altura que havia, habitualmente, apenas um jogo dessa selecção por ano: a Inglaterra contra o Resto da Europa.

Anónimo disse...

Espero que seja desta que o Eusébio me apresente ao di Stefano. A selecção mundial cá de cima está a compor-se. Os que foram ao Brasil que olhem para aqui.
a) Jaime Graça

patricio branco disse...

esses miticos jogadores dos anos 50 e 60, quanto a puskas creio que a sua ida para espanha/real madrid se deve à revolta de 56 na hungria

Isabel Seixas disse...

Cada vez mais o fora de jogo se constitui num quebra cabeças, lamento Sr. Embaixador o Sr. conseguiu deixar-me mais baralhada e eu a pensar que não era possível...

Anónimo disse...

Nos lançamentos de linha lateral também não há offside.
O meu "professor" de futebol também foi o meu pai, com o precioso auxílio de outro argentino: Maradona.

David Caldeira

Isabel Seixas disse...

Temo que talvez só este governo a Sra Merkel ou a troika me expliquem objectivamente e a frio o fora de jogo e o offside.

Agora pessoas inclusivas...?!

Anónimo disse...

Jesus Correia, Vasques, Albano, Peyroteo e Travassos. Os Cinco Violinos. Um quinteto de luxo que o Sporting teve e que jamais repetiu. Não me importava de os ver no meu Benfas. Por sinal, o neto do Travassos é amigo do meu irmão.