quinta-feira, 10 de julho de 2014

A nova proposta sobre a dívida

De há muito que assumi a modéstia de só me pronunciar de forma definitiva não sobre o que sei mas apenas sobre aquilo sobre que julgo saber alguma coisa. E, mesmo assim... Vem isto a propósito da economia. Todos já percebemos, em definitivo, que, tal como a guerra é uma coisa demasiado importante para ser deixada exclusivamente aos militares (como disse Clemenceau), os últimos anos deixaram claro que é suicida deixar a economia apenas nas mãos dos economistas, que quase sempre nos "explicarão amanhã por que é que as coisas que previram ontem não aconteceram hoje". Mas daí a que qualquer fabiano se arrogue o direito de mandar bitaites sobre os "spreads" ou a "saída limpa", com ar de entendido, vai uma grande distância. Muito embora a economia não deva ser do múnus exclusivo dos economistas, as coisas necessitam de ser estudadas antes de, sobre elas, se poder formular uma opinião que se tenha por séria. E o ambiente de poluição ideológica e partidária dos assuntos que por aí se vive não ajuda ao tratamento racional destas coisas.

Surgiu agora uma nova proposta sobre a reestruturação da dívida. À hora a que escrevo, está a ser discutida na Faculdade de Direito de Lisboa. Pensei passar por lá para assistir ao debate, mas uma leitura do texto convenceu-me a não fazê-lo. Com o devido respeito pela opinião dos seus autores, entre os quais reconheço (alguns) nomes qualificados e que respeito, fiquei com a sensação de que se trata de um "nonstarter", de uma construção teórica inexequível, irrealista e que seria detrimental para muitas camadas da população, representando, além disso, uma brutal mudança de paradigma político-económico, à revelia do que a imagem do país necessita. Se acaso houvesse a vontade política de a pôr em funcionamento, o que nunca acontecerá, Portugal ficaria mais isolado do que nunca no plano internacional. Digo isto como um não especialista, mas apenas como cidadão que tem vindo a interessar-se por estas coisas da economia, sem sequer chegar a ter a pretensão de chegar ao grau de dúvida que eles próprios mantêm entre si...

3 comentários:

Anónimo disse...

Ter ido até lá não significava estar a endossar a proposta. Quanto á mesma, que com tempo gostaria de vir a ler (talvez a publiquem em livro), parece-me – talvez seja bizarro dizer isto – apesar de tudo, algo pouco ousada. Por outro lado, entre o que ali se propõe, do que se conhece da dita proposta e aquilo que se assinou (o Memorando) e se está a levar a cabo, há que reflectir naquilo que nos deve importar, ou seja, a situação dramática social e económica porque está a passar a larga maioria da população, aquela a quem verdadeiramente se exige sacrifícios e quem, de facto, está a pagar a crise, de que não é responsável (aqui, ocorrem-me sempre aquelas imbelicidades ditas por gente estúpida que gosta de dizer e repetir a aleivosia de que “vivemos acima das nossas possibilidades”. Ora, quem viveu foram a Banca e outros que tais, além de alguns decisores políticos quando assinaram negócios ruinosos em nome do Estado). Bem sei que não é fácil, sobretudo um país como o nosso, politicamente irrelevante, economicamente frágil, sem nenhuma capacidade de influenciar o que quer que seja a nível internacional e sobretudo da UE, conseguir obter condições financeiras que alivem este estado de coisas porque passamos, no plano social, no plano empresarial, etc. Mas, importará reconhecer, com esta política de austeridade, resultado do que se assinou (mal), bem como do que entretanto foi decidido por este governo e por pressões internacionais ligadas directa ou indirectamente aos nossos credores (veja-se, por exemplo, as declarações daquele responsável pela OCDE) a que este governo se submete alegremente, também não levantaremos a cabeça, nas próximas décadas, com o que isso significará ou implicará no nosso desenvolvimento e crescimento económico. Com esta política que nos está a ser imposta não temos, rigorosamente, futuro algum. É preciso conhecer bem o meio empresarial para entender isto mesmo. E quando digo mundo empresarial, não me refiro ás grandes empresas, mas as outras, aquelas que compõe a larga maioria do tecido empresarial do país, que vive com dificuldades que poucos, fora deste mundo, conhecem, ou imaginam. Sem juros baixos ás empresas, sem consumo privado, sem melhores salários, porque salários baixos implica uma retracção do consumo, sem incentivos fiscais ás empresas, sem investimento público em sectores e áreas onde o Estado pode ter um papel dinamizador (mar, ensino, investigação científica, etc), com apoios mais sólidos à agricultura e pescas á exportação, etc, não se vai lá. E esta política não tem isto em consideração. E assim iremos continuar a registar um forte desemprego, um esvaziamento da classe média que é vital numa economia moderna bem lubrificada, a assistir a uma emigração que nos leva gente qualificada para fora do país (provavelmente para sempre), um tecido industrial pouco dinâmico, em resumo um país que só servirá para aqui virem sugar-nos a mão-de-obra barata sem perspectivas económicas nenhumas. E com isto, uma Democracia falhada. O que se tem de exigir são juros a 1% em empréstimos directamente junto do BCE, que nós ajudamos a sustentar com os nossos impostos, entre outras soluções possíveis e não andar a encher os bolsos de abutres da Finança, como é o caso dos nossos credores (alguns detentores de posições nos nossos bancos).
António C.

opjj disse...

Será que vamos ter um pretendente a Querido Líder à imagem de KIM Jon-un ?

cumps

Paulo Roberto Almeida disse...

Um livro coletivo, publicado em Portugal, traz uma porposta para a renegociação da dívida portugues: "Portugal Pós-Troika", com a participação de Armindo J. Palma e outros sete autores.