terça-feira, 10 de junho de 2014

Padre Alberto

"Já vi que você nunca fará parte do meu rebanho", disse-me uma noite o padre Alberto Neto Simões Dias, com uma das gargalhadas sadias com que enchia os jantares a que, de quando em quando, estava presente, na casa de familiares seus e meus, onde eu vivi por cerca de cinco anos, a partir dos últimos meses de 1968. O meu irrecuperável esquerdismo divertia o padre Alberto, a quem me recordo de ter ouvido falar, pela primeira vez e com entusiasmo, de António Guterres. Era também muito próximo de Marcelo Rebelo de Sousa e, creio, de Adelino Amaro da Costa. Movia-se num mundo lisboeta de que eu estava e pretendia manter-me distante, de estudantes católicos, que ele conquistava e organizava com o seu entusiasmo e o seu verbo. Oriundo do Souto da Casa, perto do Fundão, o padre Alberto estudou e viveu desde cedo em Lisboa, onde se foi aproximando do catolicismo "progressista", como à época se dizia, onde preponderava um seu grande amigo, o padre José Felicidade Alves. Garantiu um lugar muito interessante junto da comunidade universitária e em diversos círculos de Lisboa. A famosa vigília na capela do Rato, na noite de 31 de dezembro de 1972, passou-se nesse seu espaço.

O padre Alberto foi uma figura que sempre tive por muito simpática. Cordial, excelente contador de histórias, falava-nos com graça das inúmeras iniciativas em que se envolvia. Os jantares com ele eram sempre momentos divertidos e, naqueles "anos do fim" do marcelismo, também muito instrutivos quanto à inquietação que então atravessava os meios católicos. Notava-se que pressentia que o mundo estava a mudar, que ele tentava ajudar a essa mudança, mas sem laivos radicais, apenas com a energia da palavra e uma forte vontade congregadora. Apesar das nossas diferenças, mantínhamos uma espécie de cumplicidade cívica subliminar, reforçada pelo nosso sportinguismo, que eu, porém, nunca quis aprofundar. Um dia, convidou-me para uma sua iniciativa, creio que um debate, no qual me disse que estariam pessoas de várias tendências, alguns não crentes, como seria o meu caso. Fiquei de pensar no assunto e, no final, desisti de ir. O meu sectarismo da época não era compatível com esse tipo de exercícios, que achava uma mera perda de tempo. Tenho ideia de que ficou sentido com essa minha recusa.

Perdemo-nos por completo de vista, a partir de meados de 1973. Ouvia falar dele, a espaços, à família. Mais de uma década depois, em 1987, ocorreu a sua morte trágica, em condições infelizmente nunca esclarecidas. Lembrei-me dele agora, ao ler a bela evocação que o seu conterrâneo, Fernando Paulouro das Neves, aqui lhe fez.

9 comentários:

ié-ié disse...

Também os meus Pais eram muito amigos do Padre Alberto, o meu Pai tocava guitarra na Capela do Rato, bem como o Pepe (António Feu).

O meu Pai gravou todas as homílias e eu, jovem universitário com asma, transcrevia-as do gravador (que tinha um pedal) para o papel.

E escreveu-se um livro...

Velhos tempos...

Luís Pinheiro de Almeida

Anónimo disse...

Que grande terra é essa a do Fundão (e cercanias).
Digo-o aqui, em segredo, pois casei com uma fundanense, e ando sempre a picá-la com essas "gentes das montanhas".
Muito me agradaria que de uma pequena aldeia vizinha surgisse o novo Presidente desta República que bem necessitada está de homens (e mulheres) brilhantes. O Senhor Padre é que sabia.

Anónimo disse...

E que o Senhor Padre, lá do céu, ilumine esse Homem da pequena aldeia vizinha para que ele se disponha e não permita que sejamos refugiados na nossa própria terra...

Anónimo disse...

Donas, I presume?

a) Dr Watson

Anónimo disse...

Indeed.
Elementar, caro Watson.

Julia Macias-Valet disse...

O Padre Alberto foi meu professor de Religião e Moral no então Liceu Nacional de Queluz durante vários anos (final do anos 70 e inicio dos anos 80) :-)
Nas suas aulas falávamos de tudo : de assuntos relacionados com a religião ou não, da actualidade, de música, do que nos ia na alma, da organização da escola, do grupo de teatro, do jornal do liceu, etc, etc etc...era um pouco como se diz agora : Open Bar ! :)

O meu Liceu chama-se hoje Escola Secundária Padre Alberto Neto...uma bonita homenagem de uma escola onde centenas de alunos tiveram a sorte de o conhecer, de debater, de rir, de aprender a seu lado.

Helena Sacadura Cabral disse...

Se bem leio nas entrelinhas creio que se irão candidatar a PR vários beirões.
Como meia beirã que sou, parece-me gente a mais...e a tornar a escolha mais difícil!

Anónimo disse...

Dr.ª Helena Sacadura Cabral: não exagere porque nem o António José Saraiva e o José Hermano Saraiva (Donas) podem candidatar-se. De família das Donas, só António Guterres. O Cunha Leal e o João Franco (Alcaide) também não podem.
Resto eu, mas não me posso revelar para já. A Dr.ª far-me-ia um grande favor se me dissesse quem são os meus possíveis opositores a Belém, para preparar a minha campanha na feira de Fundão e os almoços no Mário, no Alambique e na nova pousada no antigo Sanatório da Serra da Estrela. Penamacor fica fora de rota, para quem não conheça a geografia beirã.

Anónimo disse...

E foi ele que convenceu Vitor Damas a ser guarda-redes em vez de avançado.
José Navarro de Andrade