quinta-feira, 12 de junho de 2014

Os brasileiros e a nossa seleção

"Portugal vai ter de aprender alguma coisa mais. Vai ter de perceber, de uma vez por todas, que a sua relação com o Brasil tem uma assimetria inescapável e eterna. Para nós, o Brasil "é" português, é uma "criação" nossa e, por isso, crises à parte, ser pró-brasileiro em Portugal é a opção mais natural e óbvia, salvo na mediocridade xenófoba e minoritária de alguns "pixadores" anónimos da nossa imagem. Ora o Brasil é muito mais do que o que Portugal deixou pelo Brasil, é uma sociedade onde africanos, alemães, japoneses, árabes, italianos e tantos outros se projetaram e ajudaram a construir um fantástico país, no qual livremente cultivam, sem qualquer pressão uniformizadora, as suas memórias e tradições. Por essa razão, porque não têm galos de Barcelos ou caravelas quinhentistas na sala, nada os obriga a reverenciar uma "terrinha" de onde não vieram os seus antepassados, de onde talvez só apreciem o bolinho de bacalhau ou o pastel de Belém, lugar de Lisboa que aliás não sabem muito bem onde fica - no que estão no seu pleníssimo direito. Por isso, quando a grande maioria de nós, portugueses, se junta a amigos brasileiros para apoiar, sem hesitação, o "escrete canarinho", durante as "copas" por esse mundo fora, não devemos esperar uma retribuição idêntica. Temos de acordar para a realidade de que, em Blumenau é a seleção alemã a escolhida ou que, na Móoca paulistana, a squadra azzurra terá sempre preferência, pelo que a sorte do "time" português lhes será provavelmente indiferente, em especial depois da saída de Felipão. Quem, em Portugal, não entender isto, não vai conseguir entender nunca o Brasil".

Escrevi isto na introdução ao meu livro "Tanto Mar? Portugal, o Brasil e a Europa" (ed. Thesaurus, Brasília, 2008). Porque continuo a pensar o mesmo, aqui deixo esta reflexão. Para que não haja surpresas nem ilusões, nestes dias da presença dos futebolistas portugueses no Brasil.

16 comentários:

Pedro Lemos disse...

Discussão nada consensual no Brasil: quando descobrimos nossa brasilidade?

Até 1750, não parecia haver exatamente um 'país', e sim grandes núcleos de povoações isoladas, todas portuguesas: o movimento migratório era monopólio português (com tempero africano e indígena), inclusive ao sul, reservado aos açorianos.

Tomáz Antonio Gonzaga, artífice da inconfidência mineira (1789), declarou-se luso até os ossos (isso quando preso), mas a independência ocorreria apenas três décadas depois (1822), seguida (1850), pela imigração germânica ao sul, quando fundada a citada Blumenau.

O nosso Fernando Henrique Cardoso conta uma anedota atribuída a Marquês de Pombal, que incentivaria o casamento entre tugas e índias, desde que tivessem filhos: 'mais valia meio português que um espanhol'. Deu certo.

Ora, é inegável que Portugal construiu as bases do Brasil, deixando não apenas heranças culturais (idioma notadamente), mas também trazendo os frutos das grandes navegações, incluindo culturas agrícolas que se tornariam referência. Daí porque há quem diga que 'os portugueses têm o mundo nos ossos'.

Sem embargo, o sentimento de 'brasilidade' parece ter sido um longo e nada uniforme processo, tanto no tempo quanto no espaço, e sua construção parece ter contado com argamassas de vários nortes.

Sim, há aqui quem torça pela Alemanha, ou ainda pela Itália, ou até mesmo pelo Japão, mas é raro: a brasilidade contagia até os imigrantes calouros.

Os tugas devem sim se orgulhar por terem construído o Brasil, e tenho comigo que os laços 'emocionais' se desfizeram devido à onda nacionalista que contaminou nossa república durante um século, que influenciou até mesmo o conteúdo da história que nos foi contada (tal como ocorreu entre portugueses e espanhóis). E que, infelizmente, ainda faz vítimas, aqui e aí.

Anónimo disse...

Mas isso acontece em qualquer país de imigração!

Em Newark puxa-se pela equipa lusitana, no Texas pela Mexicana, em muitas partes da Argentina pela Itália, e assim por diante...

Aliás, basta ir a Portugal a um bairro Ucraniano para ver por quem eles puxam!

Aldema M Mckinney disse...

Costumo seguir seu blog. Gosto da forma e do conteudo dele. Hoje li o texto " Os brasileiros e a nossa selecao" com prazer e com carinho.Encantaram-me a lucidez de suas referencias e a compreensao de nossa realidade. Gosto muito de Portugal, pais que penso conhecer razoavelmente pelas muitas vezes que ai estive.Sou a propria "mescla" referida no seu texto:italiano,espanhol, judeu e portugues.Nos USA, onde estou por um tempo, procurarei ao menos saber o resultado dos jogos e torcerei pelo Brasil, por Portugal, pela Italia... e, mais ainda, torcerei para que o Brasil receba muito bem todos que para lah forem assistir 'a Copa.Carinhoso abraco
Aldema ( www.correndomundo.blogspot.com)

Catinga disse...

Bem... duvido que a maioria de "nós" puxe pela seleção brasileira. Já não estamos nos anos 80 em que ela nos servia de equipa substituta.

Anónimo disse...


100% de acordo.

Só a promoção de Portugal e dos portugueses para o topo das escalas mundiais - na Cultura, na Arte, na Ciência, no Desporto, na Finança, etc - determinará maior identificação do Brasil com este jardim.

Mutatis mutandis, olho da mesma maneira para a consolidação da CPLP e para a questão de Olivença.

amfernandes

Portugalredecouvertes disse...

penso que é acertado o que se escreve acima
esse diluir de cultura não ajuda ninguém!
assim ninguém se importará que as procissões desapareçam, que os conventos sejam deitados abaixo, que as igrejas barrocas sejam roubadas, etc...
deveríamos pelo contrário agradecer ao povo brasileiro o esforço que fazem para conservar o seu património,
caso os portugueses sejam transformados em "estado vegetativo" sempre poderão atravessar o Atlântico e ver obras de arte dos antigos artistas.

Anónimo disse...

Paulistano, Embaixador? Não será paulista?

patricio branco disse...

os brasileiros que receberam e seleção nacional ou esperam uma ocasião da ver, estão evidentemente à espera de ver cristiano ronaldo, uma estrela mundial conhecida lá e em todo o lado.
curioso que está a passar uma publicidade das linhas aereas dos emiratos em que ronaldo e pelé participam, e pelé é ignorado pelo japonês passageiro que não sabe quem ele é e lhe pede para lhe tirar uma fotografia com o ronaldo passando lhe a camara. 2 gerações de idolos do futebol, uma conhecida por todos, a outra não.
pois vê se quie os brasileiros que esperam a selecção portuguesa querem é ver ronaldo, na verdade apoiam a selecção brasileira, não falo dos portugueses emigrados no brasil que aliás se mostram divididos entre a portuguesa e a brasileira, pelas entrevista que lhes fazem.
ronaldo é uma estrela, vale ouro nas publicidade, que aproveite, etc

Anónimo disse...

Já tenho as duas bandeiras. No automóvel. O Cônsul de Portugal no Rio, Nuno melo , resumiu bem nossa posição:vamos torcer para que um país de língua portuguesa seja o campeão.

Anónimo disse...

Sou português, residente no Brasil há muito.
Percebo que o interesse de Portugal pelo Brasil é muito pequeno, Temos até TV coreana na grade das TVs a cabo, só em 2014 entrou a SIC na grade da NET a maior TV a cabo do país. A RTP libera seu sinal pela Internet com restrição, interrompe seu sinal com a mensagem "emissão não disponível deste programa na Internet para transmissão fora de Portugal". Por que?
Portugal pouco se divulga para o Brasil.

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Anónimo das 11.51. Não foi erro. "Paulistano" refere-se à cidade de S.Paulo. "Paulista" refere-se ao Estado de S. Paulo. Eu sou um preciosista nestas coisas... que aprendi no Brasil onde, quando cheguei, pensei que fossem sinónimos.

Anónimo disse...

Caro anónimo das 13.32.

Nuno de Mello Bello.

Fez lindamente em colocar duas bandeiras!

Alcipe disse...

O Rio apoia Portugal. S. Paulo apoia todo o mundo. Em Brasília devem apoiar quem estiver na moda e for mais "in"...

Pedro Lemos disse...

Se me permitem uma correção: a iRTP esteve na grade da TV paga brasileira desde o início, sendo substituída pela SIC sei lá porque.

Outrossim, a cultura açoriana é bastante presente no litoral de Santa Catarina. Houve mesmo um 'redescobrimento' da cultura açoriana décadas atrás (história longa demais). Contudo, não creio que os 'manezinhos' reverenciem sua herança a ponto de torcer por Portugal, mesmo num cenário de eliminação do Brasil.

A proclamação da república alterou eixo geopolítico brasileiro, fomentando seu isolamento, já natural devido as suas características geográficas. E Portugal também tem lá sua parcela de culpa, visto ter focado suas colônias por demasiado tempo.

Ainda assim, a Constituição Federal Brasileira reconhece a herança portuguesa, concedendo cidadania aos tugas que passarem a residir aqui de forma permanente, embora exija injusta reciprocidade. Digo injusta por dois motivos: nossa densidade demográfica é notadamente menor e nossa cultura é assaz heterogênea. Que moral há um cidadão brasileiro, nascido e criado numa colônia germânica, curtido no chucrute, pois, reivindicar cidadania portuguesa?

Os institutos jurídicos existem e a simpatia é mútua. Cumpre ao Brasil se desenvolver um pouco mais a fim de ser mais aprazível: do jeito que estamos, nem nós nos gostamos. E a Portugal? Cumpre o que?

Anónimo disse...

Pedro Lemos não concordo em alguns pontos de sua postura. A Hungria que mingua em população semelhante a alguns países da Europa, resolveu mudar por completo as exigências para a cidadania de descendentes.
Exigiam que se falasse o húngaro, língua dificílima, e sem interesse para o turismo, hoje apenas ter uma pequena noção da língua. Não era permitido pedir nacionalidade aos descendentes húngaros que saíram dos territórios ocupados depois de 1918. Isso restringia quase a totalidade dos descendentes, pois não se podia fazer pesquisas nos registros de outro país.Tudo isso foi revogado, e a Hungria saiu ganhando, pois além de aumentar sua população ganhou em turismo.
Eu tenho hoje nacionalidade húngara, mesmo comendo arroz com feijão, mas também o goulash,sem falar fluentemente o húngaro, mas muito feliz e honrado em ter a mesma nacionalidade de meus antepassados. Magyar-ország!

Pedro Lemos disse...

Caro anônimo,

Queira me desculpar, mas os casos parecem distintos: os húngaros passaram a adotar o 'jus sanguinis', semelhante ao que ocorre com os italianos, concedendo cidadania 'aos descendentes de húngaros'. Considera-se os aspectos culturais em detrimento do local de nascimento e 'geralmente' está limitada a duas gerações supervenientes ao núcleo familiar original.

O dispositivo constitucional brasileiro que referenciei envolve o 'jus solis', ou seja, concede naturalidade brasileira aos portugueses (natos ou naturalizados) desde que residam no Brasil, sejam ou não descendentes de brasileiros, e desde que Portugal faça o mesmo.