domingo, 15 de junho de 2014

Notícias do calor

Já falta pouco. Acabado o futebol do Brasil, ou ainda com ele à mistura, as nossas televisões vão começar a brindar-nos, por algumas semanas, com os fogos. Os telejornais abrirão com as "Sónias Cristinas", de "corneto" em punho, tendo como imagem de fundo o "espetáculo dantesco" (os lugares comuns são o prato forte dessas reportagens em direto) dos incêndios. "Populares" angustiados, afogueados e de mangueiras em punho serão filmados, por câmaras trémulas, a relatar, de forma compreensivelmente atabalhoada, o que viram e o que sofreram. Bombeiros exaustos irão espalhar suspeitas sobre a "mão criminosa" por detrás dos "reacendimentos" e falarão dos "rescaldos" em que estão envolvidos. Autarcas reclamarão da "falta de meios" e falarão dos "custos humanos e materiais" provocados pelo "flagelo" na sua zona. Ministros graves, num traje intermédio entre o oficial e o estival, acolitados por umas figuras da Proteção civil de bonés bizarros, prometerão "ajudas" e darão números sobre a "área já ardida este ano", prometendo um "rigoroso inquérito" sobre os casos mais estranhos. As autoridades policiais, já em pose de gabinete, anunciarão a "detenção de alguns presumíveis incendiários" e a investigação de "negócios estranhos" relacionados com a "atividade da indústria madeireira". E alguns "soldados da paz", por impreparação, má orientação ou azar, desaparecerão, com governantes no funeral. Ah! E a imprensa especulará sobre as "negociatas" ligadas a contratos de aluguer de aviões de combate aos fogos.

É assim todos os anos. Chegadas as chuvas de Outono, regressado o futebol da paróquia às televisões, ninguém mais falará dos matos secos que a incúria de todos deixa criar até junto às casas, dos corredores corta-fogos que devem ser reforçados, da escassa limpeza que continuará a ser feita nas zonas adjacentes aos caminhos nas serras, enfim, da planificação e execução de medidas preventivas, a montante do início da época mais quente, com envolvimento das autarquias, que deveria ser feita e ninguém faz. Disso só se falará de novo, no Verão de 2015, uma vez mais, quando já for demasiado tarde. Isto é, antes deste ciclo recomeçar.

Teremos de ser assim para sempre?

13 comentários:

Anónimo disse...

O português em geral não consegue prospectivar. Apenas vive o dia a dia sem mais. Queremos sempre "circo". Será por isso que somos como somos, ou será tudo por causa do sistema político que temos.....em que o Estado se encarrega de tudo para com a população, a troco de eleições.
Como sou não-politizado peço desculpa por este meu comentário.

opjj disse...

V.Exª diz bem, aproxima-se nova temporada de fogos.
Defendo há muitos anos que as Televisões não deveriam transmitir fogos directos ou indirectos. É um espectáculo vergonhoso e insentivador ao crime.
Agora, abrem noticiários com 2 notícias e o resto é futebol.Tb gosto de ver futebol, mas paranóia, não!Pois, é falta de assunto.
Talvez a sua observação seja mais ouvida!

Anónimo disse...

Para sempre, sem dúvida!
Felizmente eu "parto" antes...

Anónimo disse...

Amarante jå está a arder.

Anónimo disse...


o facto de dizer que os portugueses é que querem isto ou são aquilo dilui muitas responsabilidades
como se alguém lhes perguntasse alguma coisa sobre os programas das TV's e os artigos dos jornais

Helena Sacadura Cabral disse...

Eu só vejo as Carlas Alexandas!
:-))

Portugalredecouvertes disse...


Sr. Embaixador, não faça publicidade, envie estas mensagens de protestos a quem tem poder para resolver,
toda a gente agradece
muitos cumprimentos

patricio branco disse...

os incendios começaram mas só tiveram honra ou direito no telejornal passada 1/2 hora e a despachar, até lá foi o mundial, o entusiasmo que provoca a selecção portuguesa (que no fundo é a estrela ronaldo) entre os brasileiros, etc.
nada de iraque, de ucrania, isso não existe por aqui e para nós.
Vi às 2 o noticiero espanhol, se queremos saber algo do mundo temos de ir para fora, pois abriu com iraque, ucrania, correspondentes lá a cobrirem os acontecimentos, depois a proxima coroação do rei e os debates sobre monarquia ou republica, a situação no psoe-psc da catalunha e nada de mundial nem selecção espanhola até que apaguei meia hora depois.
enfim, diferenças.
no estado novo futebol, fado e marchas populares, no estado presente ainda mais futebol e marchas que antes, etc etc

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Caro Francisco

Os "fogos de Verão" são como as cerejas, vem uns atrás de outros, numa repetição anual o que lhes dá uma caricatura barata: é o ciclo da época.

Claro que não devia ser; mas, como diz o povo, o que tem de acontecer tem muita força; aqui é mais muita chama.

É sempre o jogo dos fingimentos: os "populares" fingem que limparam as suas terras; os ministros fingem que está tudo a postos, todos preparados para o "flagelo" (mais um chavão) que possa ocorrer; os tais senhores de boné da chamada Protecção Civil fingem que os dispositivos vão ter êxito. E por aí fora.

Só as chamas não fingem, são mesmo a sério, não lêem Pessoa, não sabem o que é um poeta fingidor, limitam-se a cumprir o seu destino, o seu fadário, a sua desgraça.

Por este andar, enquanto continuarmos a fingir isto nunca mais acaba. Isto, os incêndios; o outro isto um destes dias vai acabar - mal.

Abç

Anónimo disse...

Depois de se referirem aos cidadãos chamando-lhes "populares" o que é que se pode esperar? Populares porquê ? São indivíduos conhecidos por toda a sociedade? São autores de feitos notáveis que os transfomam em populares? "Populares" por pertencerem a uma imaginária mais baixa classe social? Em Democracia e numa República não se entende! Eu, não o aceito.
Francisco F. Teixeira

Isabel Seixas disse...

...

Investir na prevenção, eliminar o risco demonstraria a capacidade proativa dos governantes, fazer planeamento e porque não, fazer publicidade do planeamento feito demonstrando as vantagens de preservação do ecosistema.
Para quando um plano concertado de sinergias por exemplo também o s. Caetano e a nossa senhora da aparecida canalizarem as promessas para a prevenção da devastação e os peregrinos rumarem antes às florestas com todas as associações a cooperarem, as cruzes nomeadamente as vermelhas recrutarem profissionais para balsamos de mãos (deixar entretanto repousar joelhos e pés).

Organizar serviço cívico.
Claro cada excerto de mata limpa a presença dos representantes tas Tvs E das assembleias todas e mais algumas...

Olhe Sr. Embaixador sabe o que lhe digo, pouca vergonha é o que é.

JOÃO Santos disse...

O lembrar a aproximação da época ALFA, dos sinistros que assolarão as nossas florestas, faz-me rever a enumeração recente dos grandes sinistros, de outra natureza, como os de Alcafache, Cais do Sodré ou as Cheias de NOV67, todos com muitos mortos; só a referência ao desmonoramento do Farol da Gibalta (Caxias Mar52) que não lhe atribuiu mortos, estava errada, pois os mortos foram 10 e os feridos foram 38. Como é sabido a idade não perdoa e a memória esfuma-se! Tal como os vigias da floresta que não avisam a tempo (?), também o faroleiro da Gibalta foi acusado da gravidade do acidente, numa versão moderna e Salazarista, da "morte do mensageiro".

manuelpereirabarros Meira disse...

Porque não falar do preço miserável da madeira,o qual não paga a despesa de duas limpezas da área que a copa da árvore cobre? As exportações são grandiosas,quer de pasta ou papel,mas à custa da desgraça da grande maioria. Somos todos parvos,talvez,mas ninguém se surpreenda quando,preventivamente,retirar para o Brasil,como num acordar recente do povo português.