domingo, 29 de junho de 2014

Luis Fontoura (1933-2014)

Soube, há minutos, na intervenção televisiva de Marcelo Rebelo de Sousa, que morreu Luís Fontoura.
 
O Luís é um homem a quem devo um gesto de imensa, e inesperada, simpatia, num momento difícil da minha vida profissional. Nunca esqueci essa atitude, por parte de quem eu pensava que me conhecia mal. Esse abraço telefónico - e foram então muito poucos, mas bons... - foi o início de uma bela amizade e de uma aproximação que se reforçou com os tempos.
 
Encontrei-me, pela primeira vez, com Luís Fontoura, em 1973. Foi em "A Capital", o jornal a cujo conselho de administração ele presidia. Eu era militar, de visita de estudo ao jornal (já um dia contei a história aqui). Desde esse momento, guardei dele a imagem de um homem frontal, com ideias claras e vontade de as dizer. Alto.

Quase uma década mais tarde, o Luís foi a Angola, como secretário de Estado da Cooperação. Recordo um jantar, organizado pelo Fernando Andresen, na sua "suite" do "Trópico" (as "suites" eram, então, o que era possível nessa época...), onde ambos vivíamos. Foi uma noite interessantíssima, com o Luís a revelar-nos episódios pitorescos da vida política lisboeta, que ele comentava com imensa graça. Luís Fontoura passou depois pela presidência do então ICEP, estrutura a que deu um "abanão" de modernidade, que sempre avaliei muito positivamente (ao contrário de alguns amigos meus). E trabalhou muito na "nossa Escola", no ISCSP, onde lecionava. 
 
Fomo-nos sempre encontrando e comunicando, embora a espaços. Ele, grande e generoso, dava-me aqueles abraços imensos, seguidos de gargalhadas, as mais das vezes destinadas à evocação de figuras em relação às quais comungávamos uma distância crítica, de bom senso e bom gosto. Muito nos rimos...
 
Há cerca de dois anos, telefonou-me: tinha sido nomeado presidente da Comissão que ia rever o Conceito estratégico de Defesa e convidava-me para fazer parte desse grupo que tinha como mandato debater e redigir esse texto. Expliquei-lhe que, estando a viver em França, me era difícil assegurar uma participação capaz. Mas ninguém dizia que não a Luís Fontoura. E tive imenso gosto e senti-me muito honrado por fazer parte do grupo e dar o meu modesto contributo ao trabalho liderado por Luís Fontoura. Uma noite de setembro de 2012, em férias em Albi, em França, cerca da meia-noite, o Luís telefonou-me a pedir um texto sobre um determinado tema. "Você quer isso para quando?". "Para daqui a horas, claro! Ó Francisco, você faz isso com uma perna às costas!". Eram "apenas" três páginas. Lá estive eu, até às quatro da manhã, agarrado ao computador, a "produzir" a minha contribuição. Não era possível dizer que não ao Luís...
 
Um dia, já regressado a Lisboa, combinámos almoçar. No "Coelho da Rocha", mesa que ele muito apreciava. Surpreendentemente, o Luís não apareceu. A meio do almoço, telefonou a desculpar-se: "Desculpe lá! Tive de ir de urgência tratar um dos meus cancros", disse-me com a ligeireza, irónica e desafiante, com que se atrevia a tourear a fortuna. O "Coelho da Rocha" já desapareceu, há uns meses. O Luís, esse grande homem de bem, desapareceu hoje. O que me deixa muito triste. E agora, se me permitem, vou velá-lo à Estrela.   

2 comentários:

Anónimo disse...

Campo de Ourique é uma aldeia. Recordo o homem que nunca cumprimentei mas com quem me cruzei várias vezes em pleno verão vestido de forma jovem, dir-se-ia como se estivesse numa paragem tropical, África ou Cuba. Num país onde as pessoas se vestem mal, ou de forma pretensiosa ( lembro o ridículo de um apresentador da TVI andar sempre de lenço no bolso do casaco como pretensa imagem de marca pseudo-nobilitante), em que mesmo ao domingo se vê muita gente engravatada, Luis Fontoura assumia ao fim-de-semana um estilo desportivo e jovem que estava bem num País que não é a Polónia nem a Hungria. Testemunho simpatia ao homem que nunca cheguei a conhecer.

Anónimo disse...

Era um grande Senhor. Fez bem em recordá-lo.

CSC