segunda-feira, 2 de junho de 2014

Juan Carlos

Fui oficialmente educado a detestar a Espanha. Desde os livros da escola primária, o "perigo castelhano" só me não perturbava o sono por mera inconsciência juvenil e porque, em casa, as coisas era faladas de outra forma. No liceu, a História do (velho) Mattoso era um apelo profundo à reconquista de Olivença e um aviso subliminar à perfídia eterna de Madrid. Com a idade, comecei a olhar para outras Espanhas, de Unamuno a Llorca. Percebi que, por ali, nem tudo começava em Primo de Rivera e acabava no primarismo de Franco. Emocionei-me com as tragédias da Guerra civil e com a sorte dos vencidos, de Guernica a Madrid, das Asturias a Barcelona. Cedo fiquei ao lado de uma das "duas Espanhas". Quando entrei para a diplomacia, encontrei ainda, pelos corredores, os resquícios de uma cultura anti-Espanha, instilada por décadas de doutrinação salazarenta. Só Juan Carlos de Bourbon, que hoje anunciou que vai resignar, reconciliou Portugal, em definitivo, com a Espanha, como um todo. A Europa fez o resto. A Espanha, e com ela a península, devem muito à sabedoria de um homem que demonstrou sempre ser um bom amigo de Portugal. Em Espanha, eu teria sido "juancarlista". Embora o nome do novo rei não soe muito bem aos nossos ouvidos lusitanos, espero que consiga seguir o exemplo do pai. No que nos respeita, melhor é impossível.

23 comentários:

Anónimo disse...

Será que, à semelhança do que aconteceu com os casamentos (cobertura em direto por três canais televisivos), também vamos levar com a cerimónia de entronização?

Jose Tomaz Mello Breyner disse...

Senhor Embaixador

Gostava de perguntar se após a abdicação da Rainha da Holanda, do Rei dos Belgas, e agora do Rei de Espanha, se acha que "REI MORTO, REI POSTO continua a fazer sentido?

Não será melhor passarmos a Rei abdicado, Rei colocado?

Nacionalista disse...

"No liceu, a História do (velho) Mattoso era um apelo profundo à reconquista de Olivença e um aviso subliminar à perfídia eterna de Madrid."

E não é verdade que Olivença foi um esbulho a Portugal e que os "castelhanos" assinaram a sua devolução ?

Esbulho:privação da posse de uma coisa por meio de fraude ou de violência

Jose Tomaz Mello Breyner disse...

Verifico também que é bem mais fácil substituir o Chefe de Estado Espanhol que o lider do Partido Socialista

Anónimo disse...

"Emocionei-me com as tragédias da Guerra civil e com a sorte dos vencidos..."

A sério? Acha que os vencidos ter-se-iam comportado melhor? Que dirão os checo, e a malta do Leste?!

Anónimo disse...

Há muito de estranho neste texto para mim! Sempre entendi a frase “Nuestros hermanos” como tipificadora das nossas relações com o país vizinho e não me apercebi de qualquer instigação de animosidade por quem quer que fosse.
Salazar não terá sido suficientemente “Franco”?…
antónio pa

Anónimo disse...

Em política pode-se mudar tudo menos a geografia, dizia Bismarck.

Defreitas disse...

Rei por la gracia de ....Franco ! Fruto da Transição, esta monarquia morre aos bocados há já bastante tempo. Os elefantes do Botswana neste momento devem barrir para celebrar a notícia! E os juízes espanhóis afiam a espada da justiça para castigar os culpados de corrupção e negociatas várias que mancham a monarquia espanhola.
Esta abdicação vem tarde demais para salvar a monarquia. Trata-se duma lavagem da fachada dos Bourbons. Muitos Espanhóis dizem : basta !

Defreitas disse...

Ao Senhor Mello Breyner , que escreve: "Não será melhor passarmos a Rei abdicado, Rei colocado? " Mas, Juan Carlos não foi precisamente isso, um Rei colocado ? E colocado por quem? Um general fascista que provocou um golpe de estado contra a república, democraticamente eleita pelo povo. Resultado : 1 milhão de mortos !

João Pedro disse...

Caro Defreitas: vá lá ver porque é que o golpe em 1936 aconteceu: a república não conseguia controlar minimamente a ordem, em que até líderes parlamentares eram assassinados e atirados para a vala. Só se fossem loucos é que os espanhóis quereriam voltar a república de má memória. Para que conste, a monarquia foi escolhida em referendo pela esmagadora maioria dos eleitores. É a Juan Carlos que devem agradecer a sua liberdade, as autonomias que nunca tinham tido e a reconciliação nacional.

Anónimo disse...

Caro Mello Breyner,

Tem toda a razão!

Herança de avós...



patricio branco disse...

já o devia ter feito há uns 2 anos, a decadencia fisica do rei, as suas caçadas, a sua perda de popularidade, os escandalos do genro casado com a filha, tudo isto estava a minar a monarquia o que junto às catalunhas e pais basco não prometiam nada de bom.
que venha uma monarquia renovada e rejuvenescida com o rei filipe.
e já há quem diga fazendo humor que o rei telefonou ao pr cavaco informando o e perguntando-lhe porque não se demitia tambem, sempre eram 2...

Pedro Lemos disse...

E pá, leio um republicano declarado deitar elogios à uma monarquia prima da portuguesa? Nunca vivi sob uma monarquia, mas ela aparenta dar aos países, especialmente os ricos, um certo tom de continuidade isenta das inconstâncias partidárias.

Juan fez bem. Nasceu num tempo em que matar elefantes era romântico. Que o diga Hemingway. Nunca gozou do comedimento que o munus exige e a senilidade só há de agravar a tendência. Assim poderá gozar em paz as últimas forças que lhe restam.

Anónimo disse...

Considero lamentável as referências ao velho Prof. Matoso sobre a nossa desconfiança em relação aos nossos vizinhos espanhóis. Há cerca de um século, Afonso XIII de Espanha questionava os ingleses sobre se achavam inconveniente a invasão e anexação de Portugal pela Espanha dado o caos instalado no País pelo regime da 1ª República. Salazar, perante a ameaça franquista de se aliar ao Eixo alemão, italiano e japonês assinou um pacto ibérico com a Espanha com Franco para consultas mútuas em questões relacionadas com a Península Ibérica. Que eu saiba, o Conde de Barcelona, o pai do "Juanito" não foi exilar-se para Inglaterra ou outro País democrático. Nunca foi molestado enquanto viveu no Estoril e desenvolvia actividades contra o governo franquista. Respeite-se ao menos a história. José Amador

Anónimo disse...

Sempre me pareceu que o príncipe Filipe tem pouco expediente, para além de se casar com uma senhora que tem pinta de alpinista social. Não gosto do casal e penso que nuestros hermanos (que não são de se ficar como os portugueses) vão provocar uma reviravolta no sistema político.

Isabel BP

P.S. Fui familiarmente educada a gostar a Espanha já que uma das minhas "costelas" é raiana :))

Francisco Seixas da Costa disse...

Aos leitores distraídos. Eu não disse que, em Espanha, seria monárquico. Disse que seria "juancarlista".
Se não percebem a diferença...

J.Tavares de Moura disse...

Lendo o El País, de hoje, constato que os "juancarlistas" de ontem são os monárquicos de hoje.
Escreve-se em editorial coisas como esta: "La nación es la verdadera fuente de legitimidad de la Monarquía." A Nação? Mas qual delas?

Pedro Lemos disse...

Epa (aqui o epa brasileiro)! Consigno que não acusei o amigo de monarquista, apenas me soou divertida a menção elogiosa a um monarca tão próximo à monarquia portuguesa (e brasileira).

Sim, há que se diferenciar o elogio à figura do elogio à instituição: não é de fato necessário gostar de futebol pra se elogiar o Pelé!

Confesso que esse tema - monarquia - me agrada. Tudo porque a república brasileira sequestrou essa parte da nossa história: basta ver que os republicanos brasileiros enrolaram 100 anos para submeter a forma de governo a um plebiscito, sabotando os personagens e sem esclarecer quem seria hoje o rei. Ainda assim, os monarquistas arrecadaram 13,4% dos votos, chegando a 22% nas primeiras pesquisas. Pergunto-me o porquê desse índice estando a monarquia brasileira ausente do cenário há um século.

Anónimo disse...

Pelos vistos também é filipista. Quando fôr leonorista então será monárquico dos três costados. Basta um esforço duartenunista para ser dos quatro. Não contei comigo por modéstia mas sei que gosta de mim. Crabtree que o diga.
a) isabel II

Defreitas disse...

A Joao Pedro:



Em 1936, Caro João Pedro, foi a reacção de várias forças da direita que provocaram a guerra civil, que preferiram ao resultado democrático do voto que deu a maioria à Frente Popular. Foi a negação da democracia.

Esta guerra , este crime da direita espanhola, foi o rastilho mortal da guerra de 1939-1945 que incendiou a Europa. Mussolini e Hitler vão poder assim experimentar os bombardeamentos terroristas da legião Condor sobre Guernica e mais tarde sobre toda a Europa e treinar os soldados que desfilaram mais tarde em Paris.

A Inglaterra , protegeu os seus interesses financeiros em Espanha, ao bloquear as costas espanholas e ao pedir à França de não intervir, o que esta, cobardemente, aceitou e que vai pagar muito caro mais tarde.

Na realidade, a direita europeia preferia o fascismo à democracia. Os campos de concentração de Hitler, o nazismo, o fascismo metiam menos medo que a Frente Popular. Assim, 60 milhões de mortos e a destruição da Europa foram o resultado .

Para respeitar a História, é preciso dizer que se o deputado monárquico Calvo Sotelo foi assassinado, foi após o assassinato do deputado socialista Castillo, pelos franquistas. O assassinato de Costelo foi o álibi dos fascistas Sansurjo, Franco e Mola, exilados em Tetuao, para lançar o assalto à República.

Milhares de Espanhóis , homens e mulheres, foram presos, fuzilados, enforcados e torturados pelo Caudillo, que a Europa e os Estados Unidos protegeram até ao fim.

Portugal, também pagou caro a vitória dos franquistas. Plagiando Churchill, direi que uma cortina de ferro caiu na fronteira de Vilar Formoso, separando Portugal do mundo civilizado durante meio século. Foi preciso Abril de 1974 para abrir a porta da liberdade.

Isabel Seixas disse...

Subscrevo Defreitas, de resto quem explica os restantes fenómenos e sentires face aos reinados entrego a - Bruno Bettelheim

Em A psicanálise dos contos de fadas, Bruno Bettelheim faz uma radiografia das mais famosas histórias para crianças, arrancando-lhes seu verdadeiro significado. O autor mostra as razões, as motivações psicológicas, os significados emocionais, a função de divertimento, a linguagem simbólica do inconsciente que estão subjacentes nos contos infantis.

A Psicanálise dos Contos de Fadas - Bruno Bettelheim

Agora é indiscutível que o rei e a rainha fizeram uma boa parceria de trabalho, os dois bons profissionais, a instituição acima de tudo até das emoções, cumpriram na integra o mandato das aparências, (quase) até ao fim...

Pedro Lemos disse...

Submeter a 'questio' ao inconsciente coletivo explicaria algo, mas não tudo. Por que então os brasileiros cederam tão facilmente à república (inicialmente despótica) num tempo em que a monarquia era assaz popular e liberal?

Eu apostaria numa hipótese mais concreta: ao tempo do plebiscito (1993), o Brasil enfrentava os ecos de uma gravíssima crise econômica (que resultaria no famoso 'Plano Real'), cenário semelhante ao que se via ao final do período imperial (1890), e bem sabemos que tais crises deixam o terreno fértil ao voto-protesto e aos oportunistas de plantão.

O que, aliás, explicaria o fuzuê que vive Portugal hoje e o renovado sentimento antimonarquista na Espanha.

Pedro Lemos disse...

Submeter a 'questio' ao inconsciente coletivo explicaria algo, mas não tudo. Por que então os brasileiros cederam tão facilmente à república (inicialmente despótica) num tempo em que a monarquia era assaz popular e liberal?

Eu apostaria numa hipótese mais concreta: ao tempo do plebiscito (1993), o Brasil enfrentava os ecos de uma gravíssima crise econômica (que resultaria no famoso 'Plano Real'), cenário semelhante ao que se via ao final do período imperial (1890), e bem sabemos que tais crises deixam o terreno fértil ao voto-protesto e aos oportunistas de plantão.

O que, aliás, explicaria o fuzuê que vive Portugal hoje e o renovado sentimento antimonarquista na Espanha.