quinta-feira, 19 de junho de 2014

Conflito de gerações

Há dias, um muito jovem cronista do "Expresso", culto e de boa escrita, explicava que tinha sido em textos de Vasco da Graça Moura que tivera acesso, pela primeira vez, a alguns vocábulos estranhos, de um português de outros tempos. E dava como exemplo, entre outros, a palavra "mocho", que o escritor lhe ensinara também poder significar um pequeno banco. Dei comigo a pensar que há um mundo "novo" do qual nos distanciamos, cada vez mais.

Contei este episódio numa tertúlia. E logo um amigo me relatou uma coisa análoga. Tinha ido, com um colega muito mais jovem, a um bar da geração deste último. Aproximaram-se do balcão, sob a barulheira da forte música. À pergunta do barman sobre o que ia beber, optou por uma hipótese conservadora:

- JB, com água lisa.

A resposta do rapaz surpreendeu-o:

- Não temos!

Essa agora! Bem à vista, na estante do bar, estavam duas garrafas do "Justierini & Brooks": uma do "blend" corrente, outra do "quinze anos". Apontou, não sem alguma ironia, para elas.

O barman respondeu, com um ar impávido:

- Não é o whisky. Não temos é a água que pediu.

O meu amigo continuou com um largo sorriso:

- Não têm água lisa?!

O rapaz manteve-se impávido:

- Não. Lisa não temos. Só temos Luso.

11 comentários:

Mônica disse...

Gostei da piada por causa dos trocadilhos. MSS sou péssima PRS entender piada. Um abraço

Pedro Lemos disse...

'Tertúlia'? Deve ser nome de samba de Noel Rosa.

patricio branco disse...

mocho, pequeno banco rural e tosco de madeira, muitas vezes feito aproveitando a forma natural da parte da arvore donde a madeira foi tirada, com 3 ou 4 pés ou pernas, se vir um original é ficar com ele, comprá lo, no fundo é um bocado de arvore aproveitado para banco, os pés são cortados de maneira a terminarem todos à mesma altura, o troco onde está o assento limpo e desbastado e polido para ser mais cómodo, assim são os que conheço, a arvore mais utilizada a azinheira ou o sobreiro, pois peça de mobiliario de gente do campo, e santavam se à volta da lareira ou lume de chão nos mochos, tambem se levavam para fora e dava para estar ao ar livre um pouco, peça leve, pequena, lógica, ecologica, nunca se abateram arvores para fazer mochos em série, cada um tem a sua forma, a do bocado de arvore donde eram feitos, e os mais antigos estão polidos naturalmente pelo sentar e manusear de quem lá se sentava, pois há outras palavras que não conhecemos, hoje só usadas em textos mais eruditos, livros, literatura, cronicas, no outro dia apontaram me uma usada pelo escritor tiago rebelo, eu não sabia o significado, possivelmente nunca a tinha visto, e não era regionalismo, era de uso a nivel nacional por quem a conhecia.
quanto a água lisa não saber é grave, então esse barman não conhece os nomes dos ingredientes com que trabalha e que clientes pedem?

Anónimo disse...

A propósito de bebidas:
Há já uns largos anos, numa discoteca da cidade quando pedimos ao barman uma taça, a resposta soou-nos também bem estranha: de quê?
antonio pa

Zuricher disse...

Caro Embaixador, sigo há muito o seu blog, umas vezes concordando com o que escreve, noutras discordando directamente mas sempre com um grande prazer em ler prosa tão agradavel de ler, com ritmo, simples e acessivel mas não por isso vazia de conteúdo. Hoje, pela primeira vez, atrevo-me a deixar comentário.

Pese embora não ser antigo (leia-se idoso) nem nada próximo (nem aos 40 cheguei ainda) cultivo um certo nacionalismo da língua. Daí preferir usar palavras Portuguesas quando possivel. Sobre o uso de palavras que cairam em desuso, muitas delas definem melhor o que pretende significar-se do que os termos de uso corrente. Neste seu exemplo do mocho, dizer simplesmente "banco" é algo muito mais abrangente do que dizer "mocho" que significa algo muito mais específico. A língua serve também para entendermos e sermos entendidos e quanto mais precisos formos melhor. Pelo menos desde onde vejo a questão.

Quanto ao seu amigo que pediu um JB com água lisa, olhe, se lhe serve de consolo, quando eu digo carro de praça há muitos, demasiados, que olham para mim como se eu tivesse falado chinês...

Anónimo disse...

Esta malta é a “geração do bué”. Ainda hoje, por sinal, ouvi essa crítica na rádio (ou telefonia, como se costumava dizer). A crítica era que os jovens hoje falam e escrevem cada vez pior, enfermam de uma incapacidade para sintetizar, quer escrita, quer oralmente, mas, lá está, terá a ver também com uma certa degradação do Ensino neste país, de há uns anos a esta parte. Degradação devida ao facto de as exigências na qualidade do Ensino terem baixado, por culpa dos diversos Poderes Políticos, mas também porque o nível dos agentes do Ensino, os professores, também ele registou uma baixa de qualidade e exigência.
Mas, voltando ao Post. E se se perguntar a alguém mais novo: “Qual é a sua graça?”
Ficará a “olhar como boi para palácio”, frase esta que, possivelmente, também desconhecerão o significado.
Julgo, todavia, que este tipo de desconhecimentos sucede, sobretudo, a quem é da cidade e nela vive. Ainda outro dia, em dois locais diferentes, numa zona rural de Mafra um rapazito me dizia: “cá lhe trago o mocho que mandou fazer!” O tal mocho que VGM falava. Numa outra situação, um outro jovem, numa aldeia no Norte, disse, a propósito de um caso que se abordou, que fulano tinha a mania de “meter a foice em seara alheia”, o que suscitou da parte de um sobrinho nosso, que ali estava de passagem, curtas férias, vindo de Lisboa, onde nasceu e vive, um esclarecimento sobre o significado de tal frase.
Agora o tal “bué”, não há gajinha ou gajinho que não o diga “ad nauseam” e o desconheça!
Ainda hoje, no comboio para Lisboa duas estudantes universitárias, em conversa uma com a outra, utilizaram essa expressão vezes sem conta, assim como o “tá-se bem”, ao tlm. E a certa altura, uma criticou um seu professor, “por ser bué de exigente com o Português escrito, fogo!”



Anónimo disse...

Não é só no uso das palavras. É talvez desagradável admitir, porque significa ter idade, mas nota-se, com grande clareza, que está aí uma nova geração que já manda e que tem ideias diferentes. Estrebucham os da minha, chamam-lhes "garotos", como se não tivesse sido, precisamente, o mal da minha geração: chegar cedo demais a lugares de destaque sem preparação nenhuma e arrogantes da sua ignorância. Confio imenso na actual porque julgo que a minha foi muito disparatada e, ainda por cima, gaba-se imenso e quer condicionar o futuro.
João Vieira

lino disse...

Se o pasquim do balsas obrigasse os candidatos a escribas a "sentar o cu no mocho" o nosso jornalismo fedia menos!
Abraço

Helena Sacadura Cabral disse...

É isso. Agora percebi o lado tosco - mocho- de certos bancos...

Unknown disse...

Há tempos, na festa de um Tio que fazia 80 anos em que estavam mutos familiares com menos de 25 anos, para aí uns 30, recordava-se o Wisky saloio. Ninguém sabia o que era. E que bem sabia um brandy com água a imitar o whisky!

Isabel Seixas disse...

Curioso mas a avozinha e as tias diziam de mim, de nós, exatamente o mesmo .
Ó que falta de memória para as mesmas idiosincrasias das etapas de desenvolvimento, basicamente o ter uma linguagem própria desse tempo que significa criar , emancipar-se , ter também imaginação.

Há uma proximidade muito mas muito maior de partilha entre as gerações por exemplo os meus pais nunca saíram dos gostos musicais da Amália e afins que eu hoje partilho mas não desisti do pink floyd, dos beatles, dos creedence e afins e adotei os dos meus filhos Muse, Pearl jam e por aí...

Quanto ao ensino tomaramos nós ou não aguentariamos o nivel de exigência a começar pela fasquia das notas altas que exigem começar com explicações a matemática e português desde o básico e aumentar o número até ao fim do secundário para quem tem expectativas que os filhos tirem cursos superiores, já não falando da quase obrigatoriedade de frequentar paralelamente institutos de linguas...

Tomaramos nós ter a cultura que os nossos filhos têm na mesma fase de desenvolvimento...