sábado, 3 de maio de 2014

Veiga Simão

Em 1972, ao tempo em que era presidente da Assembleia Geral da Associação de Estudantes do ISCSPU (isso mesmo, com um "U"), tendo sido recentemente reeleito para o mesmo cargo, recebi um ofício do Ministério da Educação Nacional, que era dirigido a mim, na qualidade de presidente cessante, no qual se referia que, por despacho ministerial, toda a lista associativa eleita tinha sido "homologada" (a "homologação" era obrigatória antes da entrada em funções), com a exceção dos nomes de Fausto Bordalo Gomes Dias (esse mesmo, o Fausto, cantautor) e... de mim próprio. Estávamos na "primavera" marcelista. Três anos antes, em início de 1969, uma outra lista associativa, de que eu também fazia parte, fora "não homologada", sendo ministro Hermano Saraiva. Desta vez, o ministro era Veiga Simão, que hoje morreu.

As voltas da vida são muito curiosas. Fui embaixador junto da ONU, lugar que Veiga Simão viria a ocupar. Fui embaixador no Brasil, lugar que Hermano Saraiva também ocupou. Os dois ministros da Educação que não "homologaram" duas das eleições democráticas em que eu fora eleito viriam a ser sucedidos por mim naqueles postos.

Em 1997, Veiga Simão foi convidado por António Guterres para ministro da Defesa. Lembro-me que, para mim e para outros colegas de governo, alguns dos quais também antigos dirigentes académicos, a nomeação de Veiga Simão constituiu uma surpresa e "não caiu" muito bem. Mas, vistas as coisas com serenidade, não havia razão para tal. Veiga Simão já havia sido ministro da Indústria de Mário Soares, fora deputado pelo PS, tinha ocupado postos importantes na administração pública democrática e a sua elevada qualificação técnica era consensual. Além disso, o seu comportamento político depois do 25 de abril revelou que, tal como algumas outras figuras da administração caetanista, tinha aderido com indiscutível sinceridade às ideias democráticas. Daí a poder ser visto por alguns de nós como "one of us" ia, contudo, alguma distância.

Em substituição de Jaime Gama, acompanhei Veiga Simão a duas reuniões ministeriais da defunta UEO (União da Europa Ocidental), uma vez a Roma, outra a Bremmen. As delegações eram compostas pelos responsáveis dos Negócios estrangeiros e da Defesa de cada país, devendo tomar a palavra um após o outro. Sendo ministro, Veiga Simão chefiava naturalmente a delegação portuguesa. Porém, como logo se verificou desde o início da reunião de Roma, os responsáveis governamentais dos Negócios estrangeiros tomavam a palavra antes dos da Defesa. Deixei que fosse Veiga Simão a ter a perceção de que, não obstante eu ser secretário de Estado e o "número dois" da delegação, cabia-me falar antes dele. Sem entusiasmo mas com garbo, vergou-se à regra que estava a ser seguida à volta da mesa e disse-me para avançar. Assim fiz. No final, recordo-me da estranheza, não isenta de algum prazer, com que terminei a minha intervenção: "e agora, cedo a palavra ao meu colega Veiga Simão, ministro da Defesa do meu país". Como iam longe os tempos da minha "não homologação"! 

Um dia perguntei a alguém que conhecia bem o percurso político de Veiga Simão o que é que verdadeiramente impressionava na personagem. A sua grande inteligência, a abertura à modernidade e o seu entusiasmo, foi a resposta que retive. Julgo que um forte sentido de serviço público seria de acrescentar, com justiça, àquela descrição.  

7 comentários:

Francisco Seixas da Costa disse...

Uma amiga mandou-me por mail este texto: "Acabei de ler o post sobre Veiga Simão e como não estou acostumada a comentar em blogs mas porque gostava de partilhar uma atitude positiva relativamente ao último Ministro da Educação do Estado Novo relembro um facto que ouvi contado pelo próprio Zeca Afonso.
Quando estava já muito doente e sem grandes esperanças terá tentado ainda ir aos EU com muitas dificuldades monetárias e só com alguma ajuda de amigos.
Aí chegado e para seu grande espanto foi contactado por Veiga Simão que se disponibilizou para o apoiar em tudo o que pudesse.
O Zeca ficou muito surpreendido e aceitou a ajuda."

Anónimo disse...

Não foi o único: Adriano Moreira (fiquei de boca aberta quando soube de quem era pai, e por acaso tem uns ares...), Marcelo R S e tantos outros. Lembro-me de estenderem as capas negras em Vila Real para serem pisadas pelo Americo T., uma semana antes do 25 de abril, uma semana após este, já discutiam "O Capital" e ostentavam pins da fecml. Para nós, Durienses (e para muitos outros) isto não nos entrava na cabeça. Tanta inteligência... Deve ser o Marão que não nos deixa ver para além...
antónio pa

patricio branco disse...

um daqueles personagens de antes do 25a mas que se aceitam depois da data, até mario soares o aceitou para altos cargos.
nos dias 28 ou 29 de abril continuava a ir ao min educação despachar (esse ministerio não foi portanto uma prioridade da jsn)conforme me disse um seu assessor de gabinete nesses dias que encontrei na igreja da preaça de londres: e que aconteceu ao ministro veiga simão? continua a ir ao min a despachar processos pendentes, respondeu
há outros casos semelhantes, adriano moreira, freitas do amaral

Tiago Costa disse...

Caro Anónimo,

Penso que o Sr. Embaixador concordará comigo, uma vez que é do entendimento tácito do seu texto, que é de uma boa conduta democrática não proceder a saneamentos políticos por conta do passado de outrem.

Considero até que a maior vitória da nossa democracia (neste momento, pobremente murcha pelo copy paste de erros de 74 até entao) foi ter conseguido proceder a uma integração pacífica dos diversos quandrantes da sociedade, independentemente das suas ideias ou do seu passado.

Dito de outro modo, porque o que antes se passou possa ter sido mau ou não, não quer dizer que hoje tenhamos que fazer pior...

Anónimo disse...

Mudam-se os tempos - mudam-se as vontades! VIVER PARA RECORDAR...
Ele pertenceu aos que souberam adaptar-se...Paz à sua alma!

lidiasantos almeida sousa disse...

Relembro Veiga Simão quando foi Ministro da Educação e fez algumas visitas ao IST. Eu já percebia algo de politica e odiava o SALAZAR.
Mas este homem duma bonomia e simpatia extraordinárias conseguia cativar os alunos mais rebeldes, por ter sido ele ( ou não) a introduzir as matronas para apalparem as poucas mulheres (jovens) que lá estudavam num feudo de machos. Não chorei quando soube da sua morte, mas respeitei até porque já era bastante idoso.

Lamentei foi uma morte dum homem de 39 anos que morreu subitamente há poucos dias. infelizmente não me lembro agora do nome.

Cumprimentos para o Senhor Embaixador.

Anónimo disse...

E o Senhor Embaixador não quer elaborar sobre a lista dos espiões?