sexta-feira, 30 de maio de 2014

Sarsfield Cabral

Ainda antes do 25 de abril, um pequeno livro publicado pela editora Moraes chamou a minha atenção. Chamava-se "Uma perspectiva sobre Portugal" e era assinado por Francisco Sarsfield Cabral, um nome que eu me habituara, desde há uns anos antes, a ler na imprensa. Era um texto com que, à época, não concordava, porque transmitia uma leitura da sociedade e do futuro do país que eu identificava com uma visão demasiado conservadora. Isso mesmo escrevi numa nota crítica que o "Comércio do Funchal" então publicou. Lida hoje, a quatro décadas de distância, devo confessar que essa "perspectiva" de FSC (brincamos muito com a coincidência das nossas iniciais, que partilhamos com Francisco Sá Carneiro e com o jornalista Filipe Santos Costa) traduzia já uma forma refrescante de olhar as coisas, num tempo cinzento pouco dado ao brilho das ideias inovadoras.

Sarsfield Cabral é um jornalista, licenciado em Direito, que dedicou toda a sua carreira a "descriptar" a economia, a trazer para o leitor, o espetador ou o ouvinte uma leitura mais simplificada, mas nem por isso caricatural, dos aspetos económicos da sociedade. Isto parece coisa pouca, neste tempo em que qualquer estagiária televisiva de "corneto" na mão se arroga a mandar bitaites sobre a "saída limpa" ou o "défice estrutural". Mas não era assim, há umas décadas: quase ninguém na imprensa fazia esse esforço de simplificação, com rigor e precisão. Salvo Sarsfield Cabral e Daniel Amaral, não recordo mais nomes (mas admito que outros houvesse) que se tivessem destacado nessa pedagógica tarefa.

Só anos mais tarde, depois de muito o ler, vim a conhecer pessoalmente Sarsfield Cabral. Com ele tive, a partir de então, várias agradáveis conversas, públicas e privadas, sobre a Europa, de que sempre foi um fiel e ardente defensor, nomeadamente ao tempo em que chefiou a delegação da Comissão Europeia em Lisboa, depois de ter passado um período no MNE. Épocas houve em que não estivemos totalmente de acordo, embora no essencial sempre coincidíssemos. Mas criámos uma sólida relação pessoal, revestida já das vestes da amizade. Lembro-me agora que cheguei a desafiá-lo para uma aventura profissional, que ele entendeu não poder aceitar.

Li ontem que lhe acaba de ser atribuído um importante prémio de carreira, no seio da comunidade católica. Tinha já a intenção de fazer hoje uma nota neste blogue, a esse propósito. Para minha agradável surpresa, acabei por encontrá-lo, há horas, num jantar-palestra, onde lhe dei um forte abraço de parabéns. Mas quero aproveitar esta nota para aqui testemunhar a minha admiração sincera pelo grande profissional do jornalismo que é Francisco Sarsfield Cabral. Que, repito, é também um amigo.

8 comentários:

JMV disse...

Apesar de se dedicar a areas economicas, julgo que o dr. Francisco Sarsfield Cabral se licenciou em Direito. Julgo ate ter uma obra sua com incidencia juridica. Um pormenor, todavia, diria.

Anónimo disse...

Devo também ao Francisco Sarsfield Cabral o explicar as complicadas coisas da Europa de forma simples no Jornal das 9 quando eu era miúdo.
Haverá alguém que o faça bem?
Não sei. Mas eu poderia fazê-lo.
Em qualquer caso fazem falta bons explicadores da Europa.

Anónimo disse...

Conheci-o pessoalmente, mas só de vista, curiosamente, nos transportes públicos de Lisboa. Imaginava-o formado em economia. Sempre tive a impressão de um homem muito sensato. Os meus cumprimentos ao Senhor Embaixador e ao Dr. FSC.

Anónimo disse...

Pelo desenrolar deste post, comecei a ficar preocupada que viesse uma ma noticia... Mas fico feliz por saber que esta tudo bem com FSC, cujas analises lucidas muito aprecio e que aproveito para felicitar.

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro JMV. Muito obrigado pela sua nota. Já retifiquei

Unknown disse...

Parabéns Francisco.jose jardim

EGR disse...

Senhor Embaixador: partilho o seu apreço por Francisco Sarfield Cabral embora me não situe naquela que creio ser a sua area ideológica; sempre me pareceu um bom conhecedor dos temas que abordava bem como a seriedade intelectual com que o fazia.
Fui também leitor de Daniel Amaral; de facto é pena que hoje não existam,no chamado espaço mediatico, pessoas com tal qualidade.
De facto o panorama actual é simplesmente confragedor.
Havendo hoje os denominados cursos supereriores de comunocação social interrogo-me muitas vezes sobre o que lá se aprende.

Anónimo disse...

É preciso explicar às pessoas, "como se nós fossemos todos muito burros", o funcionamento da UE.
Falar para as pessoas em casa. Julgo que o Dr. Sarsfield Cabral seria um mestre nessa arte, porque é dos poucos que desce ao concreto baseado em conhecimentos técnicos e torna simples o que parece, e é-o juridicamente, complicado, pelo menos para o cidadão médio.
Em Portugal, os que têm conhecimentos técnicos muitas vezes não sabem exprimir-se com clareza e os que falam com a verve necessária, apoiam-se, não em conhecimentos técnicos, a maioria das vezes, mas sim em fogo fátuo.
Por exemplo, quase sempre quem fala da Comissão Europeia diz disparates sobre os seus reais poderes.
A COM não decide, a não ser em áreas muito limitadas.A COM representa e defende os interesses da UE no seu conjunto, apresenta propostas ao PE e ao Conselho e assegura a execução das políticas e dos fundos da UE Garante, ainda, o cumprimento da legislação europeia e representa a UE a nível internacional.
Mas os serviços da Comissão só elaboram propostas de lei.
É o Conselho que as adopta, isto é, os nossos Ministros. A tomada de decisão é tão democrática como a que ocorre internamente nos países europeus que são parte da UE.
Mas é frequente ouvir dizer que a culpa é da COM, sendo esta afirmação baseada na assumpção de que é culpado o que decide, o que gere, o que governa.
Os nossos PM "não prestam"- dizem uns- porque decidem, decidiram, decidirão mal - segundo esses mesmos alguns.
Pois tenho uma novidade para eles: quem decide na esfera europeia são sempre eles, os mesmos e não a COM.
A COM já fez o seu trabalho antes: dificilmente terá uma voz decisiva à mesa do Conselho, na fase final da adopção de uma proposta. contra a vontade dos hoje 28, a COM nada pode.
Alegrem-se todos aqueles que acham que os nossos políicos não prestam ( não é o meu caso) porque continuam a ser eles que decidem na UE. Pode, assim , continuara a falar dos ineptos decisores. Mas da COM, já basta. eu, pelo menos, já não aguento tanta ignorância. Perdoe-se-me o desabafo, que reconheço ser pouco humilde.