domingo, 25 de maio de 2014

O meu voto

Naquele ano de 1969, eu tinha pela primeira vez a possibilidade legal de votar. E era ano de eleições legislativas, as únicas a que um cidadão português tinha então direito, depois da ditadura ter abolido, anos antes, a eleição direta para o presidente da República, assustada que ficara com o "fenómeno" Humberto Delgado. E eleições autárquicas era coisa nunca vista: todos os autarcas eram nomeados pelo regime.

Um dia, vindo a Vila Real em férias, inquiri como poderia inscrever-me nos cadernos eleitorais. Foi-me dito que isso se fazia na Câmara Municipal. Na respetiva secretaria, ao colocar a questão, vi a interrogação circular por vários funcionários. Aparentemente, eu era a primeira pessoa, desde há anos, a suscitar o problema, porquanto a atualização dos cadernos se fazia, por regra, por via oficiosa. Vislumbrei algumas caras conhecidas a manifestarem curiosidade pelo meu zelo cívico. Um deles, amigo da família, baixando a voz, segredou-me, através do balcão: "Não vale a pena votar. Ganham sempre os mesmos!". Outros, mais alinhados com a "situação", pressentindo claramente a razão pela qual eu queria exercer o direito de voto, olhavam-me com um ar algo jocoso, partilhando entre si ironias, à distância. A agitação entre os estudantes universitários, como eu era à época, era conhecida e já havia uns zunzuns de que eu andava metido nessas coisas "associativas" e com o "reviralho". "Sai ao pai", ouvi dizer que alguém do regime comentara um dia, numa tertúlia da "Pompeia".

"Tem de falar com o Sr. Barreira. É ele quem trata disso". Aparentemente, o sr. Barreira era quem "tratava" dos cadernos eleitorais. Era uma das figuras mais conhecidas da cidade. Defesa central histórico do Sport Clube de Vila Real, com uma altura a rondar os dois metros, trabalhava, se não estou em erro, nos Serviços Municipalizados de Água e Eletricidade, que acolhia sempre muitos futebolistas. Como andava bastante em serviço externo, o sr. Barreira era pessoa difícil de encontrar. Andei dias até conseguir reunir com ele, o que teve lugar numa pequena sala da Câmara. Levei toda a papelada necessária para o ato de inscrição, que não era pouca. Estava tudo em ordem, podia "ir descansado". 

Mas eu não estava descansado. O sr. Barreira ficou claramente surpreendido, e até algo abespinhado, quando lhe disse que necessitaria de uma certidão da minha inscrição. "Aqui não passamos isso!". Respondi-lhe que, por lei, tinha direito a esse documento e mostrei-lhe as disposições legais que obrigavam as autoridades a atestarem, se assim fosse requerido, a inscrição nos cadernos eleitorais. "Mas se eu lhe garantir que está inscrito, não lhe chega?". Não, não me chegava. Nada tinha a ver com a palavra dele, derivava da minha desconfiança face ao regime (mas, claro, isso não lhe disse). "Vou falar com o chefe da secretaria. Mas o senhor está a criar um problema, sem necessidade". Expliquei que não prescindia da certidão (tinha aprendido isso num livro sobre legislação eleitoral, de José de Magalhães Godinho), que, se acaso me a não quisessem emitir, recorreria por requerimento para o Governador Civil. O sr. Barreira olhou para mim e, já mais sério, não se escusou a deixar cair: "Veja lá no que se mete!" Eu sabia no que me metia. E, alguns dias e outras diligências depois, lá obtive a desejada certidão. Que ainda guardo. E espalhei a notícia: depois de mim, várias foram as pessoas que, em Vila Real, se inscreveram nos cadernos eleitorais, nesse ano de 1969, embora não saiba quantos pediram uma certidão. Meses mais tarde, era tempo de "eleições" legislativas e eu por nada do mundo perderia o ensejo de exercer o meu direito de voto. Mesmo tendo a perfeita certeza de que então ganhavam "sempre os mesmos".

É também por isso, porque agora já não ganham "sempre os mesmos", porque lutei e corri riscos para poder ter uma palavra na escolha de quem me representará, que exerço o meu direito de voto. Que é também um dever, mesmo para aqueles que votam em sentido oposto ao meu, para quantos legitimamente decidem deixar o boletim em branco, como forma de marcarem o seu desagrado pelo leque de opções que lhes é proposto. Mas quem opta, pura e simplesmente, por não votar, por não "dizer" algo da sua vontade, perde um pouco a razão para depois vir a protestar contra as políticas que (quem vota) lhes impõem, torna-se num irrelevante "zero à esquerda" (ou "à direita") na vida cívica. 

11 comentários:

Anónimo disse...

Os políticos já não sabem o que dizer para o povo votar. Podiam oferecer um chupa-chupa a quem lá fosse. Não sentia tanta inutilidade no meu ato de hoje...
antonio pa

Defreitas disse...

A abstenção é um acto político que não leva a nenhum lado e que retira àquele que a pratica o direito de protestar depois.

Sabemos que um mundo de solidariedade e de partilha, rico da sua diversidade, é possível, através das lutas sociais e da democracia. Não é recusando de votar que lá poderemos chegar.

Senão, restaria só a insubmissão e a violência para obter a mudança por todos e para todos. Esta é a solução preferida por aqueles que habitualmente retiram proveito do caos... e que não leva a nenhum lado.

O voto é, por consequência, e de longe considerado como o meio por excelência de expressão democrática, capaz de influenciar as decisões politicas.

E como eco à história da primeira inscrição do cidadão Francisco Seixas da Costa nos cadernos eleitorais em Vila Real, permita que lhe conte a minha : Nem eu nem o meu Pai, nem a minha família foram jamais autorizados a votar na minha Pátria.

Por isso, logo à tarde, vou votar , naquela "Mairie" onde o meu grupo político , no qual milito desde sempre, foi derrotado há algumas semanas nas eleições municipais, apesar de ter sido um autarca da mesma durante cinco anos! Viva a democracia e ...a oposição !

Isabel Seixas disse...

A injustiça avança hoje a passo firme.
Os tiranos fazem planos para dez mil anos
Nenhuma voz além da dos que mandam.

O poder apregoa: as coisas continuarão a ser como são.
Quem ainda vive nunca diga: nunca!

O que é certo não está certo
Assim, como está, não ficará.

Depois de falarem os dominantes
Falarão os dominados.
Quem pois ousa dizer: nunca?

Se a opressão permanece a quem se deve ? A nós.
De que depende que ela acabe? Também de nós.
O que é esmagado, que se levante!
O que está perdido, lute!
Quem conhece a situação, por que ficará parado?
Porque os vencidos de hoje serão os vencedores de amanhã

E nunca será: ainda hoje.

Bertold Brecht

Isabel Seixas disse...

Concordo plenamente que o voto independentemente da forma como se exerce é um dever.

Também dou razão a Bertold Bretcht


O analfabeto político

O pior analfabeto, é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala, não participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo de vida,
O preço do feijão, do peixe, da farinha
Do aluguer, do sapato e do remédio
Depende das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro que
Se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia política.
Não sabe o imbecil,
Que da sua ignorância nasce a prostituta,
O menor abandonado,
O assaltante e o pior de todos os bandidos
Que é o político vigarista,
Pilantra, o corrupto e o espoliador
Das empresas nacionais e multinacionais.

Bertold Brecht

Catinga disse...

Se não se gosta de nenhuma das "propostas", se se acha que todos são mais do mesmo, faz-se o quê? Vota-se nulo? Um palavrão tem mais valor do que a ausência?

Deixem-se lá desses moralismos do "depois, não podem reclamar". As pessoas que não vão votar, já estão a exercer o seu direito. O direito de não ter de escolher gente que não lhes diz nada!

Catinga disse...

Quanto à sua história (estória é coisa que não existe), mostrou nela ter tido tomates (*), e ela é bem reveladora do pior que a sociedade do Estado Novo tinha: um paternalismo revoltante, próprio de quem não tem respeito pelo próximo.

Felizmente, hoje somos livres. Mas isso não noz faz, necessariamente, mais responsáveis. A nós ou a aqueles que querem o nosso voto.


(*) alguns recorreriam a tolos estrangeirismos aqui...

Anónimo disse...

"Quem cedo e bem aprende,
tarde ou nunca esquece".

Anónimo disse...

"Há pessoas que choram por saber que as rosas têm espinhos, há outros que sorriem por saber que oa espinhos têm rosas".

Anónimo disse...

E não é que, tal como dantes, agora também ganham sempre os mesmos ?
Ele há coisas do diabo...

JC

Colofon Livros disse...

Senhor Embaixador,

Tenho 30 anos fui sempre votar. Desta vez não fui. A propósito da sua história Lembrei-me que o meu avô, no tempo do Estado Novo, também não ia, não só porque de facto não valia a pena, mas também porque a participação na eleição contribuía (de certa forma) para a legitimação do regime.
A UE de hoje não é ilegítima, mas para lá caminha. Sobre o défice democrático da UE (relação entre o Parlamento e a Comissão, por exemplo) não ouvi uma palavra da boca dos Drs. Assis e Rangel. Não esqueço também as humilhações que Portugal sofreu nos últimos anos (sugestões para por a bandeira a meia haste, considerandos sobre a mentalidade decadente e colonialista de Portugal, etc).
Espero que a enorme abstenção que se irá sentir em toda a UE (com 3 ou 4 excepções) e que a assustadora (e repugnante) subida da extrema direita e da extrema esquerda sirva para "a Europa acordar".

Melhores cumprimentos,
Francisco Brito

Graça Sampaio disse...

Muito bem!! Subscrevo com veemência e agrado. Eu tinha já 27 anos quando pude votar pela primeira vez e, de então para cá, nunca faltei!!

Abraço