domingo, 25 de maio de 2014

O empate

Foi hoje de manhã. Encontrei-o à saída da sala de voto, em Vila Real. Já nos não víamos há um bom par de anos. Abraços, perguntas pela família, pela vida, o habitual.

De repente, no meio da conversa animada, o sorriso desapareceu, a cara fechou-se, notei-lhe um súbito silêncio, o olhar desviou-se e, por segundos, seguiu o percurso lento de uma senhora, já de avançada idade, de bengala, que se cruzava conosco, no corredor daquela escola.

Hesitei dizer alguma coisa, mas, perante aquela quase perturbação, não resisti: "Há algum problema?". Distendeu um pouco. "Problema não há! Mas viste aquela gaja?". Referia-se à senhora. "Sim. Mas não a conheço. O que foi?" Sorriu ao de leve, como que embaraçado. "É minha vizinha. É uma chata no nosso condomínio! Não lhe falo!". Isso via-se, mas eu continuava sem perceber nada.

"Ó pá! Eu sei que isto pode parecer um bocado estúpido, mas eu tenho a certeza de que a velha vota sempre ao contrário de mim. E, por um "galo das arábias", não é a primeira vez que a encontro numas eleições. Nestas ocasiões, fico sempre com a ideia que o meu voto não valeu a pena. Ela "empata" o meu voto." Demos umas boas gargalhadas, em seguida.

Fiquei com a sensação de que a raiva daquele meu velho amigo - que me disse que às vezes lê este blogue - era maior neste dia de grande abstenção, em que ele teria a secreta esperança de que a vizinha não tivesse aparecido. Não tive tempo de explicar-lhe que, com jeito e diplomacia, podia combinar um "pairing" com a senhora, como alguns deputados trabalhistas e conservadores faziam, faltando ambos às votações, não alterando o sentido global do resultado, comprometendo-se à ausência sob palavra de honra. Mas depois pensei que, com os liberais ao barulho e com o novo UKIP a baralhar ainda mais as contas (logo à noite logo veremos quanto), nem o velho "pairing" já funcionará como antigamente. 

13 comentários:

António Teixeira disse...

Para desempatar o meu voto, enviei este ano para a minha mãe em Vila Real, um panfleto do candidato socialista pelos Açores, Ricardo Serrão Santos. Isto por causa do "empate".
Eu empato sempre com a minha mãe.
Vamos ver se com o panfleto, e por uma vez, consigo com a minha mãe vote PS, não seja o Ricardo filho de uma grande amiga dela. Será que nem assim o vou conseguir ?

patricio branco disse...

boa maneira de ver a coisa, um voto que anula o outro...

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Caro Francisco

... E o prémio surpresa vai para... Marinho e Pintoooo!!!!!

Podem os da Terra bater palmas e erguer as almas de contentes; podem os comunistas embandeirar em arco com os resultados, podem os "aliancistas portugálicos" dizer que o PS ganhou mas por margem pequena, podem, podem, podem, que em Portugal todos ganham as eleições...

Só o (des)Governo tem de reconhecer que, de uma forma ou doutra, qualquer que ela seja, tem contra ele 70 % dos que votaram. Aqui não houve empate; bem pelo contrário houve sim um... desastre

Alcipe disse...

Premonitório, sem dúvida...

Defreitas disse...

Leio no DN esta manhã " De acordo com os resultados provisórios, quando faltam contabilizar uma freguesia de Vila Real que não comunicaram os resultados da votação...."

Terá sido a tal "gaja" que bloqueou a votação ?

Defreitas disse...

Marine le Pen, em França, Nigel Farage no RU, grandes vencedores dum moribundo: a Europa !
O eurofobo britânico não se coloca exactamente na mesma linha que Le Pen, mas estão de acordo sobre o essencial : destruir a Europa !

Com 25% dos votos nos países respectivos, é o grande "tsunami" para os partidos de governo tradicionais. Mas o grande vencedor desta noite é o partido da abstenção.
2017 será um ano "escaldante" na Europa.

Aqueles que não foram votar tomaram uma grande responsabilidade. Vão dever assumir no futuro os riscos duma grande convulsão que pode levar à insurreição generalizada, tanto mais que, mesmo com esta entrada dos eurofobos e eurocépticos pela grande porta no hemiciclo do parlamento de Estrasburgo ,
a composição do parlamento não será finalmente modificada, porque o partido conservador PPE e aliados conservarão o comando da instituição. Ce serà "un coup pour rien" !

Aliás, Juncker reivindica já a chefia. Mas será Merckel que decidirá daqui até ao fim do ano quem será o futuro presidente. Será um "marchandage" sem fim. Um mercado de vendedores de tapetes!

Imagino o que devem pensar aqueles que pensavam que o voto de ontem daria um novo rumo à Europa, quando constatarem que serão os mesmos que continuarão a governar, e que nada os obriga a mudar de breviário, com a grande sacerdotisa de Berlim a controlar de perto os paroquianos !

Resta que, perante a expectativa dos povos europeus, sobretudo para aqueles que punham tantas esperanças no resultado destas eleições, se não há um esforço gigantesco da parte dos responsáveis das Nações e de Bruxelas, para mudar de politica económica e democratizar as instituições, respondendo assim aos problemas que sobressaem destes resultados, o perigo será imenso de ver o nosso continente partir à deriva, obedecendo a impulsos extremistas que, no passado, levaram à confrontação.

Porque mesmo se estas eleições eram europeias, o impacto dos resultados nas políticas interiores dos Estados não se pode ignorar.

Uma nota especial para sublinhar a hipocrisia ancestral dos Britânicos, quando o ministro dos negócios estrangeiros William Hague, " dizendo-se "inconfortável"l com a subida dos partidos da extrema direita, estimou que " Bruxelas devia escutar o "descontentamento crescente" dos eleitores operando reformas"! Ele, representante do pais que talvez tenha feito mais mal à UE, desde o inicio, recusando a moeda única e servindo de porta aviões aos Estados Unidos da América e à sua politica de servidão para a Europa.

Anónimo disse...

The colour purple

Nao falo aqui do livro de Alice Walker ou do filme de Spilberg, mas sim do choque ao olhar esta manha para o mapa eleitoral no Reino Unido. A cor predominante e o roxo do UKIP. Em termos de lugares no Parlamento Europeu: Ukip 4, Labour 3, Tories 3, Verdes 0, Liberal-Democrats 0.

E em Franca...National Front a frente. Dinamarca nao parece animador.

Em Londres chove e faz frio neste "bank holiday" primaveril. Vou fazer um cha, comer scones com doce de morango e remoer...

Mais tarde rever na BBC2 "Cat on a hot tin roof". Richard Brooks me valha com um magnifico filme.

Saudades de Londres

F. Crabtree

Anónimo disse...

Erro

Afinal os Lib-Dem tem 1MP na Europa, os trabalhistas 20, Conservadores 19, Upik 24... Continua a contagem!

Cha, muito cha para aguentar.

F. Crabtree

Anónimo disse...

Boaventura de Sousa Santos diz no Publico que com esta Europa não vale a pena pois estamos numa espécie de "prisão".
Um antigo Embaixador de Portugal nas NU, OSCE, Brasil e França diz que a geo-política é sempre condicionada pela geografia de cada país. O jogo do reverso?

patricio branco disse...

o empate foi entre o ps e a ap, alem de que os 2 perderam, mas não aprendem com a abstenção, o pequeno numero de eleitos, a subida de novas formações, o amigo votou num e a vizinha logo foi votar no outro, isto vai assim, no país ao lado pelo menos o 2vencedor" não quiz prestar ontem declarações, só o fará depois de reunir o partido, absteve se de ridiculos cantos de vitória...

Anónimo disse...

Parece que a leitura dos resultados é feita para estúpidos e ignorantes, ou as duas coisas juntas.
Mas os números são como o algodão;
66,10% ostensivamente ignoraram-nos - não votaram;
4,41% não acreditam em ninguém - votaram em branco;
3,06 mandaram-nos dar uma volta - anularam o boletim.
Ou seja 73,57% não manifestaram a sua intenção de voto.
Dos restantes 26,43%, que o manifestaram:
8,31% votou no PS
7.32% votou na santa aliança.
Este é que foi o resultado das eleições. A Matemática é uma ciência dura, não tem perspetivas políticas. O resto, é a treta que nos engana e nós deixamos...
R.F.

Guilherme Sanches disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Guilherme. Aquele post foi a meio da tarde de ontem, do Iphone, do sossego da A17. O que eu penso, já lá está agora. Forte abraço.