terça-feira, 6 de maio de 2014

O cerco

Aqui deixo uma última história do 25 de abril de 1974.

Os voluntários foram mais que muitos, por isso houve que selecionar a dúzia de aspirantes e alferes que se disponibilizaram, naquele fim de tarde de 26 de Abril, para a operação de detenção do almirante Henrique Tenreiro, figura emblemática do regime caído na véspera.

À EPAM havia chegado a notícia de que o idoso marinheiro, que entretanto navegara para a lucrativa indústria das pescas, estaria refugiado a escassas centenas de metros do quartel, numa moradia do outro lado da alameda das Linhas de Torres, residência da “Madame Campos”, então famosa produtora nacional de cosméticos.

Um bando armado, porque pouco mais era que isso, lá partiu para o assalto. Montámos o “dispositivo” em torno da casa, num granel de imprecisão, bem digno de tropas de Administração Militar, que já haviam esquecido o pouco que Mafra lhes ensinara.

Recordo ser já noite quando o capitão Leitão (o nome não era bem esse...) e um tenente bateram à porta da casa, conosco emboscados em volta, num ambiente de alguma tensão, porque se dizia que Tenreiro podia estar protegido por elementos da Legião Portuguesa.

A sequência à abertura da porta prenunciou algum drama: a empregada que assomou, de avental e crista, recortada pela luz interior, esvaneceu à vista das G-3, pelo que vimos o Leitão e o acompanhante arrastando-a, solícitos, para dentro de casa, cuja porta entretanto se fechou.

Cá fora, entreolhámo-nos, silenciosos, à cata de algum ruído, quiçá de tiros. Nada. Passaram aí dez minutos. A porta reabriu-se e o Leitão e o tenente saíram, sorrisos nos lábios, com uma senhora idosa a acompanhá-los à soleira. Abandonámos as nossas discutíveis posições táticas e juntámo-nos, em molhada, no pátio fronteiro à casa, ansiosos por novas.

- Então?! O que é que se passou?.

O Leitão respondeu que tudo não fora mais do que um equívoco, que o Tenreiro não estava refugiado na casa, que apenas haviam assustado três senhoras e a empregada e que, além delas, apenas havia na casa dois cavalheiros de idade. Tudo, portanto, “nos conformes”. Um tanto de orelha murcha, iniciámos o regresso ao quartel.

Já na descida da rampa, um céptico lembrou-se de perguntar:

- E tu conheces o Tenreiro, ó Leitão? Não seria um dos velhotes?

Estacou o bando, com o Leitão já a flutuar na dúvida.

- Bem, de facto não conheço o Tenreiro, mas perguntámos os nomes aos tipos…

Reinstalada a confusão, subsistia uma questão magna:

- Alguém conhece o Tenreiro?

 Um de nós disse:

- De fotografia, sim.

E lá regressou a tropa ao seu objetivo. O Leitão voltou a bater à porta, entrou, terá explicado aos ocupantes da residência o dilema operacional que nos atravessava e tem então lugar a seguinte e edificante cena: fez assomar a uma das janelas os dois cavalheiros idosos, a fim de ser feito o respectivo reconhecimento visual. Em definitivo, nenhum era o Tenreiro.

E lá vimos o Leitão a sair da porta às arrecuas, com muitas vénias para a sorridente senhora, no final de uma brilhante operação militar, na noite em que não prendemos o Henrique Tenreiro.

15 comentários:

Isabel Seixas disse...

Ingenuidades... Lícitas e em tempo, dado o contexto.
Assim como assim vejo excelentes e experientes profissionais reagir ...
A proatividade é um conceito difícil de interiorizar nas fases de deslumbramentos mais ou menos como todos ao molho e fé em Deus...

Anónimo disse...

Haverá uma infinidade de pequenas histórias idênticas que mostram a parte cómica de um certo amadorismo. Não fosse a áurea dourada que o povo colocou na cabeça de cada soldado de onde reluzia respeito e esperança, quantas ações não teriam fracassado...
Eu lembro-me de um Tenreiro que era apresentado como pescador. Até se cantarolava: “bacalhau tenrinho, bacalhau tenreiro...”
José Barros

Anónimo disse...

Delicioso

patricio branco disse...

pois assim se fizeram as coisas, com entusiasmo, amadorismo, de forma não violenta, com humor e camaradagem. mas fizeram se e resultaram.
cómica e cândida história, mais um episódio da revolução de abril, deve haver centenas por contar, são sempre interessantes e reveladoras, venham mais, etc

Defreitas disse...

Esta história prova bem que eram homens do povo que agiam humanamente sem esquecer o objectivo. Se pudessem teriam enviado pelo correio um aviso com data de passagem ...
O pacifismo português , que se queria hoje mais agressivo e finalmente verdadeiramente revolucionário, mas que não quadra com o fundo dum povo que enfeita as espingardas dos militares com cravos ...
Sensibilidade humana que outros hoje, como ontem, exploram para beneficio próprio . Não é a razão que nos fornece uma direcção moral, é a sensibilidade.

Anónimo disse...

Essa operação até que foi bem executada! Mas outras operações, muito bem executadas e que não falhavam eram as da pide. Vá lá, não se podia ter tudo...A 40 anos de distância, é bom conhecer estes pormenores. Temos também a história do marido da empregada doméstica dos donos do banco Espírito Santo e que o admitiram como contínuo para o banco, um ano antes do 25 de abril. Pois bem, ele ofereceu-se ao copcon, para acompanhar as tropas a fim de prenderem um dos administradores no seu gabinete no 11 de março.

zpf disse...

Bendita revolução… E há por aí umas criaturas que, 40 anos depois, falam desses tempos como se tivessem sido tenebrosos tempos de perseguições sem dó nem piedade, com o sangue a escorrer pelas calçadas de Lisboa e encapuçados que, pelas calada da noite, irrompiam nas mansões e depradavam tudo à sua volta. Verdade seja dita que estão bem para outros que, 40 anos depois, ainda se julgam a bordo de uma versão lusitana do Couraçado Potemkine ali à beira do Alfeite, a meio caminho entre Porto Brandão eo Cais do Sodré… Abraço,
ZP

Anónimo disse...

Esses “camaradas” davam um jeitão hoje, em Valongo do Azeites, na caça do “Palito”...
antónio pa

Guilherme Sanches disse...

O circo. Que bela história.
Um abraço

Anónimo disse...

1ª opinião:
Excelente texto para ser apresentado em exame a alunos da Cadeira de Introdução à História de Portugal para ser analizado e comentado.
2ª opinião:
A rábula da "Guerra do Solnado" até não está muito longe disto.

opjj disse...

Embora com graça, por aqui se vê a inconsciência com que se actuava.
Muito poucos eram politizados.
Eu próprio fui preso e não o era.
Nem todos os presos eram iguais, um dos que conheci tinha um tio General e mais tarde saíu apoiado no ombro do seu tio, enquanto eu dentro, dispunha do conhecido Dr. Fagundes.Não sei se ainda é vivo.
Cumps.

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Caro Francisco


Como certamente já sabe, estou (infelizmente…) de volta a este vale de lágrimas em que os criminosos que dizem que nos governam afirmam que reina a felicidade e até consegui(mos?)ram uma saída limpa (???) depois de quase três anos de sofrimento, de penúria, de pobreza e de resignação. Somos assim, masoquistas, gostamos de levar na cabeça, que raio de vida e de estar de cócoras.

Goa ficou para lá voltar no próximo ano. Entretanto, estarei por cá e tentarei ir acompanhando, como habitualmente faço, este teu blogue. E, sempre que possível, comentando. Mas, hoje, ainda não comento…

Abç

Defreitas disse...

Na sequêncida do roubo descarado da Revoluçao !

NÃO, NÃO ESTOU VELHO!!!

NÃO SOU É SUFICIENTEMENTE NOVO PARA JÁ SABER TUDO!

Passaram 40 anos de um sonho chamado Abril.

E lembro-me do texto de Jorge de Sena…. Não quero morrer sem ver a cor da liberdade.

Passaram quatro décadas e de súbito os portugueses ficam a saber, em espanto, que são responsáveis de uma crise e que a têm que pagar…. civilizadamente, ordenadamente, no respeito das regras da democracia, com manifestações próprias das democracias e greves a que têm direito, mas demonstrando sempre o seu elevado espírito cívico, no sofrer e ….calar.

Sou dos que acreditam na invenção desta crise.

Um “diretório” algures decidiu que as classes médias estavam a viver acima da média. E de repente verificou-se que todos os países estão a dever dinheiro uns aos outros…. a dívida soberana entrou no nosso vocabulário e invadiu o dia a dia.

Serviu para despedir, cortar salários, regalias/direitos do chamado Estado Social e o valor do trabalho foi diminuído, embora um nosso ministro tenha dito decerto por lapso, que “o trabalho liberta”, frase escrita no portão de entrada de Auschwitz.

Parece que alguém anda à procura de uma solução que se espera não seja final.

Os homens nascem com direito à felicidade e não apenas à estrita e restrita sobrevivência.

Foi perante o espanto dos portugueses que os velhos ficaram com muito menos do seu contrato com o Estado que se comprometia devolver o investimento de uma vida de trabalho. Mas, daqui a 20 anos isto resolve-se.

Agora, os velhos atónitos, repartem o dinheiro entre os medicamentos e a comida.

E ainda tem que dar para ajudar os filhos e netos num exercício de gestão impossível.

A Igreja e tantas instituições de solidariedade fazem diariamente o milagre da multiplicação dos pães.

Morrem mais velhos em solidão, dão por eles pelo cheiro, os passes sociais impedem-nos de sair de casa, suicidam-se mais pessoas, mata-se mais dentro de casa, maridos, mulheres e filhos mancham-se de sangue , 5% dos sem abrigo têm cursos superiores, consta que há cursos superiores de geração espontânea, mas 81.000 licenciados estão desempregados.

Milhares de alunos saem das universidades porque não têm como pagar as propinas, enquanto que muitos desistem de estudar para procurar trabalho.

Há 200.000 novos emigrantes, e o filme “Gaiola Dourada” faz um milhão de espectadores.

Há terras do interior, sem centro de saúde, sem correios e sem finanças, e os festivais de verão estão cheios com bilhetes de centenas de euros.

Há carros topo de gama para sortear e autoestradas desertas. Na televisão a gente vê gente a fazer sexo explícito e explicitamente a revelar histórias de vida que exaltam a boçalidade.

Há 50.000 trabalhadores rurais que abandonaram os campos, mas há as grandes vitórias da venda de dívida pública a taxas muito mais altas do que outros países intervencionados.

Há romances de ajustes de contas entre políticos e ex-políticos, mas tudo vai acabar em bem...estar para ambas as partes.

Aumentam as mortes por problemas respiratórios consequência de carências alimentares e higiénicas, há enfermeiros a partir entre lágrimas para Inglaterra e Alemanha para ganharem muito mais do que 3 euros à hora, há o romance do senhor Hollande e o enredo do senhor Obama que tudo tem feito para que o SNS americano seja mesmo para todos os americanos. Também ele tem um sonho…

Há a privatização de empresas portuguesas altamente lucrativas e outras que virão a ser lucrativas. Se são e podem vir a ser, porque é que se vendem?

E há a saída à irlandesa quando eu preferia uma…à francesa.

Há muita gente a opinar, alguns escondidos com o rabo de fora.

E aprendemos neologismos como “in conseguimento” e “irrevogável” que quer dizer exatamente o contrário do que está escrito no dicionário.

( a seguir)

Defreitas disse...

Mas há os penalties escalpelizados na TV em câmara lenta, muito lenta e muito discutidos, e muita conversa, muita conversa e nós, distraídos.

E agora, já quase todos sabemos que existiu um pintor chamado Miró, nem que seja por via bancária. Surrealista…

Mas há os meninos que têm que ir à escola nas férias para ter pequeno- almoço e almoço.

E as mães que vão ao banco…. alimentar contra a fome , envergonhadamente , matar a fome dos seus meninos.

É por estes meninos com a esperança de dias melhores prometidos para daqui a 20 anos, pelos velhos sem mais 20 anos de esperança de vida e pelos quarentões com a desconfiança de que não mudarão de vida, que eu não quero morrer sem ver a cor de uma nova liberdade.

Júlio Isidro

a.m.fernandes disse...


Pedido de esclarecimento : qual era o fundamento do mandato de captura? Quem o subscreveu?