quinta-feira, 29 de maio de 2014

Demissões

O período desses anos 90 era fértil em viagens. Eu acompanhava, com grande frequência, António Guterres nos contactos internacionais com os seus pares, nesse tempo de grande atividade e iniciativa de Portugal no plano europeu. A política interna, porém, não parava e algumas tensões resultavam em crises.
 
Um dia, em Paris, Guterres recebeu a notícia da demissão de Jorge Lacão, creio que de líder do grupo parlamentar. Telefonemas e mais telefonemas. Passaram umas semanas e, creio que estávamos em Londres, Manuela Arcanjo demitiu-se de secretária de Estado. Nova crise. Durante uma outra viagem, pouco tempo depois, um outro abandono de alguém, de um qualquer cargo que já não recordo. Mais problemas.
 
Passaram umas semanas. Numa outra viagem, no "Falcon" oficial, o primeiro-ministro recordou as três demissões e gracejou que parecia que não podia sair do país: demitia-se logo alguém! Acrescentou, sorrindo: "espero que, durante esta viagem, ninguém se demita!".

No percurso entre o aeroporto e a cidade, levei no meu carro um funcionário do MNE que tinha ouvido o comentário de António Guterres e que sublinhou a curiosa coincidência das ocorrências descritas pelo chefe do governo. A certo passo, recebi uma chamada por telemóvel. Porque o meu companheiro de viagem era um homem em cuja discrição eu confiava muito pouco, respondi por monossílabos e expressões vagas àquilo que me estavam a dizer, para não se perceber o assunto. Notei a curiosidade imensa do pendura, pelo que achei que tinha uma bela oportunidade para testá-lo. À saída do carro, sem mais pormenores, disse-lhe: "O primeiro-ministro ainda não sabe uma demissão de que acabo de ter conhecimento". E referi o nome de um político socialista medianamente conhecido, acrescentando em voz baixa: "Mas não se pode dizer rigorosamente nada! É secreto!".
 
Chegámos ao hotel. Uma hora depois, no hall, um membro do gabinete de Guterres aproxima-se de mim: "Você quer saber que aquele tipo do MNE referiu por aí a alguém que "Fulano" se demitiu. Tem sido imensamente gozado, porque, como se sabe, "Fulano" não ocupa nenhum cargo! Não podia ter-se demitido!". Verifiquei a eficácia do teste e tomei nota do sentido de discrição do diplomata. Que nunca me falou do assunto. Até hoje.
 
Lembrei-me disto ontem, quando vi que Jorge Lacão se demitiu.

14 comentários:

Anónimo disse...

E também Susana Amador. É que vão-se arrumando exércitos de cada um dos lados. João Soares, em declarações excessivas, joga a cartada do político destemido e que não tem medo da frontalidade para que possa continuar a se ouvido no futuro. Ana Gomes paga o tributo da lealdade. Edite Estrela mostra a personalidade humana, no trabalho, e em todo o lado, somos nós humanos, puros animais de emoções. E Alegre, igual a si mesmo, sai de uma hibernação de silêncio para fazer uma afirmação redonda, mantendo a ambiguidade suficiente para poder agradar a grego e a troiano. No fundo, foi sempre isso fez: jogou dentro do sistema, dando ciclicamente sinais de distanciamento para continuar a beneficiar do sistema.
Seguro foi e é perseverante mas não tem ossatura de líder. Costa detém o carisma indispensável a novos tempos. Amén.

Anónimo disse...

Passei a maior parte da minha carreira profissional, serviços de apoio social, onde se fala muito. Todavia, a noção do "segredo profissional", salvo seja as raras exceções, é uma questão de principio muito forte.
Claro que as raras exceções não estão no emprego certo.
Deveria também ser assim no MNE.
José Barros.

Guerra disse...

Viva sr. Embaixador.
São muito úteis esse tipo de pessoas desde que convenientemente utilizadas. Passam uma noticia de modo rápido e sem qualquer custo. Então se for referido que é segredo é logo divulgada á velocidade da luz.
Cumprimentos cá da Bila.

Anónimo disse...

Do blog "Estado Sentido":

"Do mundo do espectáculo o que seria de esperar? Ilusões certamente. Ricardo Costa põe lugar à disposição. Que simpático, que nobre, que atitude carregada de princípios deontológicos. A administração do Grupo Impresa "obviamente" recusou. Nem valia a pena terem encenado o elogio da ética. Surpreendente e inovador seria Ricardo Costa rejeitar a decisão da administração do Expresso e arrumar a secretária e fazer-se à vida. Assim não passa de algo para inglês e português ver - de uma encenação. Ah, e foi promovido. A confiança no jornalista foi reforçada. Ou muito me engano, ou Balsemão e companhia já contaram as favas e dão como certa a eleição do próximo secretário-geral do Partido Socialista, e um pouquinho mais tarde a eleição do novo primeiro-ministro. São passos em falso desta natureza que confirmam que a promiscuidade neste país é a norma - o mix de interesses e posições, uma condição permanente onde nada muda nem mudará. A relação de proximidade entre a política, os media, os opinion-makers, os blogs e seus bloggers e já agora a bola, também faz parte da matriz corrosiva, do sistema que está em curto-circuito há muito tempo. Desde sempre, e pelos vistos será para continuar."


Alexandre

Anónimo disse...

António Guterres, os portugueses lembram-se bem da sua queda para os números !.....

Alexandre

Anónimo disse...

Só hoje vi video na SIC Noticias.Depois de o ler há tantos anos, fiquei admirado com a sua posição no Caso Costa/Seguro !
Mas admirado verdadeiramente, foi no seu elogio às 80 Medidas ! Pelos vistos colaborou nelas...
Sem Palavras !

Carlos Andrade - V N GAIA

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Carlos Andrade: como é público, nomeadamente neste blogue, fui um dos coordenadores da Convenção "Novo Rumo", organizada pelo PS, a convite de António José Seguro, em cujo encerramento participou e discursou António Costa (e também Jorge Sampaio, Manuel Alegre, António Vitorino, etc). As conclusões da Convenção, expressas nomeadamente nessas 80 medidas, foram apoiadas por todos. Não percebo a sua surpresa. E, pelo vistos, "leu" o que ninguém leu na minha entrevista à SIC.

Anónimo disse...

Acho que sei quem foi, mas não digo

Anónimo disse...

Há quem não tenha ainda compreendido que o facto de se ser irmão não implica coincidência de posições. Eu sou do Benfica, o meu irmão é do Sporting; eu sou esquerdófilo, ele é de direita; ele gosta de borrego, eu gosto de cabrito; ele gosta de um bagaço, eu de um uísque. E damo-nos lindamente. O que é que o cu tem a ver com as calças? E porquê ilações tão malévolas e arrevesadas? Esses senhores ficavam é bem nas rixas da escola primária. Já têm idade, pressuponho, para terem juízo e terem dois dedos de testa. É por estas e por outras que o país não chegará a lado nenhu.

Anónimo disse...

O que é incompreensível é não compreenderem que o povo votou contra eles (o tal arco "íris" da governação)!
E não digam que quem não vota não tem voto na matéria. Porque, dessa forma, também, quem não vota, não teria que pagar IRS!
antonio pa

Anónimo disse...

Em plena época de novas tecnologias muito viajam os políticos. Mas compreende-se ...

São disse...

rrrsss rssss

O seu post fez-me lembrar algo que fiz semelhante, a única diferença é que eu queria mesmo que se soubesse...e, claro, menos de duas horas depois a notícia estava espalhada.

Guterres , parece-me, passou momentos bem complicados até porque, a certa, altura, tudo se agravou com a doença da esposa.

Além disso, acho que neste momento é o homem certo no lugar certo.

Bom final de semana

patricio branco disse...

um pouco primario esse acompanhante que em tal entorno não guardou o segredo...

Viriato disse...

Estranho, senhor embaixador, que ainda não se tenha pronunciado sobre a actualidade de momento que se vive no PS. O senhor costuma ser frontal. Será que ainda está em meditação??

Rui Aguiar