sábado, 10 de maio de 2014

Cavalos

O adido militar junto daquela embaixada era um pouco "bronco". Oriundo da arma de Cavalaria, saíam-lhe por vezes algumas expressões que o bom-senso, mas em especial a boa educação, recomendariam que não fossem utilizadas em círculos sociais. O modo rude como tratava a mulher, uma senhora simpática e discreta, era objeto de frequentes críticas. O embaixador não o apreciava excessivamente, pelo que foi com alguma relutância que, um dia, se viu obrigado a aceitar o raro (que teve, pelo menos, a vantagem de ser o único) convite que o militar lhe formulou para ir jantar "lá a casa".

O repasto era em "petit comité", só com as respetivas esposas, o que tornou a situação ainda um pouco mais pesada. Ao longo da refeição, o militar contou, numa linguagem que às vezes fazia alçar o sobrolho à embaixatriz e baixar os olhos à sua própria mulher, alguns episódios das "campanhas de África", a roçar o picaresco, com o vernáculo a ajudar. Levemente incomodado e não querendo "dar troco", o embaixador foi parco em comentários, com as senhoras a fazerem a despesa da parte mais simpática da conversa.

Chegada a altura do café, foi colocada a alternativa de o servir nos sofás da sala ou à mesa de jantar. O embaixador, num subliminar truque para apressar o ritmo para a saída, propôs que fosse logo tomado à mesa. Servidas as senhoras, o açucareiro acabou por ficar próximo da mulher do adido, mas fora do alcance do embaixador, que discretamente o solicitou. Foi então que, da boca do distinto oficial de Cavalaria, saiu esta pérola que o anedotário diplomático recolheu:

- Então, Miquelina?! Dá aí um coice no açucareiro para o senhor embaixador!

Em tempo: um comentador acidulado (e, claro, anónimo e insultuoso) quis ver neste post um ataque aos militares que servem nas nossas embaixadas. Desengane-se! Tenho a sorte de ter ficado com um amigo em todos - mas todos! - os excelentes profissionais militares com quem me cruzei em várias embaixadas. Estou mesmo certo que eles acharão graça a esta historieta, aliás difícil de contar de outra maneira.

2 comentários:

opjj disse...

Caro Dr. se fosse só a cavalaria que desse coices! Infelizmente a partir de determinado posto, todos gostam de molhar na sopa e acham-se suprasumos.Afirmo-o por experiência própria. Tudo o que seja militarizado, se puder, dispenso.
Um dia,atravessei a Praça Marquês de Pombal em VRSAntónio de bicicleta, a certa altura oiço um graduado PSP a gritar para mim; queres que te faça a folha!?
Sentei-me num banco e durante (1) uma hora e contei 47 bicicletas que atravessaram a praça e o dito
emudeceu.
Cumps.

patricio branco disse...

e lá ia o açucar todo pelos ares...