domingo, 27 de abril de 2014

Vasco Graça Moura (1942-2014)

Vasco Graça Moura, que hoje desaparece, foi uma figura maior da cultura portuguesa, um brilhante obreiro da nossa língua, uma personalidade que nunca fugiu ao confronto das ideias - ele que as tinha fortes e bem estruturadas. Havia em Graça Moura uma curiosa dualidade, que ele sustentava, parecia-me, com algum prazer. Por um lado, o poeta, o tradutor, o ensaísta e o romancista (esta é a minha ordem pessoal desses seus méritos criadores), o espírito com laivos de genialidade de um intelectual sensível, possuidor de uma cultura quase renascentista, do melhor que Portugal produziu nas últimas décadas. Mas, no outro lado do espelho, havia o actor cívico (escrevo "actor" com "c", em homenagem ao opositor do Acordo Ortográfico que VGM foi), comprometido, usuário brilhante de uma escrita polémica, onde ressoava um quase caceteirismo cívico, muito ao gosto novecentista. Se VGM era um príncipe da escrita e na cultura, era também, num assumido contraste, um ferrabraz na política, embora, falado pessoalmente, estivesse sempre muito distante da ferocidade adjectivada dos seus artigos. O homem que esteve com Sá Carneiro e dele se afastou (e que dele se mantinha bem crítico) era, contudo, o mais improvável turiferário de uma figura como Cavaco Silva, depois de ter arrastado a asa a esse ridículo projeto de moralismo político que deu pelo nome de PRD. Ora se  havia coisa que, de VGM, ressaltava à distância esse era o seu desprezo profundo pela mediocridade, pela pusilanimidade, pelo oportunismo, pelo Portugal mesquinho dos que não conseguem deixar de ser bem "pequeninos". Como é que, dentro de si, ele compatibilizava os olhares, críticos ou complacentes, sobre tudo isto? Talvez nunca o venhamos a saber. Embora tivesse falado muitas vezes com VGM, estava muito longe de o conhecer bem. Muita coisa nos separava politicamente e outras opções, noutros domínios, não contribuíam para nos aproximar, pelo que sempre tivemos uma relação pessoal marcada apenas por uma educada cordialidade. Mas tinha por ele um grande respeito e uma forte consideração intelectual. Há semanas, dei aqui conta de um seu excelente ensaio "A identidade cultural europeia". Esta minha última homenagem a VGM é uma sugestão para que o leiam, porque nele está o essencial da sua visão para Portugal e para esta aventura continental a que o destino nos impele. Porque Vasco Graça Moura era, essencialmente, um patriota português e isso não se improvisa: sente-se e sofre-se.

19 comentários:

Anónimo disse...

Acho que Graça Moura gostaria de ter lido esta sua nota. Muitos parabéns.

CSC

rmg disse...


Uma bela homenagem que aqui lhe presta .
Obrigado .

RuiMG

FranciscoB disse...

Será "caceteirismo"?

Anónimo disse...

Ridículo (?) projecto de moralismo político, o PRD (o quê?).
O conceito que faltava, nos breviérios da ciência política.
Quer limpar? Ao canhão da véstia...

A.M.

Helena Sacadura Cabral disse...

Francisco escreveu um belo texto sobre VGM.

patricio branco disse...

um intelectual sensível, possuidor de uma cultura quase renascentista, do melhor que Portugal produziu nas últimas décadas, ora aqui está uma esplendida definição ou descrição do homem de cultura e da cultura que foi vgm. deixa nos uma obra enorme, na qualidade e na quantidade. fazem nos muita falta pessoas da dimensão dele.
noticia triste mas ele perdurará através da sua obra.

Isabel Mouzinho disse...

Estou com a Helena. Este é um fantástico texto sobre Vasco Graça Moura.

jose neves disse...

Ora se havia coisa que, de VGM, ressaltava à distância esse era o seu desprezo profundo pela mediocridade,...".
Então como se justifica a sua total adesão-adsivaçao a Cavaco e agora a Passos e antes ao PRD enquanto divergiu de Sá Carneiro um homem íntegro de convicções fortes?
A opinião bem pensante tende sempre a ser benevolente e fingir que não percebe as motivações políticas, especialmente quando se trata de intelectuais cuja obra andou a bajular anos.
Onde verdadeiramente está o oportunismo e parasitismo indecente é uma questão mui duvidosa para os seus pares, não é seguramente para mim.

Anónimo disse...

Um homem que se bateu como poucos para impedir que duzentos milhões de pessoas que falam a mesma língua a possam escrever da mesma forma...

Anónimo disse...

A Lusa define-o como um "inteletual".

ZEUS8441 disse...

Um excelente texto escrito por um Embaixador de Portugal, assumidamente de esquerda,sobre um intelectual que foi com frontalidade social democrata,no sentido em que em Portugal significa ser de direita.

Escreveu artigos na imprensa nacional de critica contundente à esquerda portuguesa e esse facto só o valoriza num país,onde a esquerda se julga dona e senhora de Portugal.

O Embaixador Seixas da Costa,nesta hora de luto para Portugal,reconhece o supremo valor dum escritor num contexto extremamente dificil,onde ser de direita constitui quase como um labéu dificil de suportar e de contrariar.

Anónimo disse...

Vasco Graça Moura tinha de facto essa dualidade. A sua imensa Cultura apaga o resto, na hora da partida. Era um grande amigo, foi um excelente colega e morreu como um herói. João Pedro Garcia

Anónimo disse...

O comentário de ZEUS8441 sintetisa o estado actual dos que pensam ser donos de Portugal.

De turíbulos e de turiferários rosa está o País cheio deles.

Alexandre

Anónimo disse...

De quem ofendeu gravemente o povo que votou PS em 2005 e 2009, e depois apelidou de "execráveis" as pessoas que constituíram ou apoiaram os governos socialistas, só posso guardar a memória de uma pessoa "odienta".

Francisco Seixas da Costa disse...

Falar dos ódios da política ou de temas como o Acordo Ortográfico, para apoucar ou elevar a memória de um homem que morre, é ter da dignidade deste tempo uma noção muito pouco nobre. Como aconteceu com a morte de António Borges, é muito triste que isto aconteça.

Anónimo disse...

Vasco Graça Moura o intelectual e o outro, que, como bem releva Alexandre, ZEUSS8441 nos recorda. Um VGM que, a par do brilho intelectual, indiscutível, convivia – bem - com outras mediocridades culturais, intectuais e políticas, como Cavaco Silva, Passos Coelho (que José Neves sublinha), etc. E que, até se aventurou pelo tal PRD de Eanes. O mesmo que, como aqui um comentador recordou, insultou uma larga maioria de eleitores que votou PS. Paz à sua alma de Intelectual e de Homem de Cultura a quem muito devemos. Mas, convém, a par disto, não esquecer a outra face de VGM. Aquela que aqui foi recordada por outros comentadores.

iseixas disse...


Tem razão senhor Embaixador , louvar só as pessoas que partilham as mesmas ideias que nós,que permanecem do outro lado do nosso espelho ideológico nas grandes questões que nos apaixonam, faz parte do nosso narcisismo legitimo.

Agora não reconhecer o mérito a quem o tem remetendo-o ao esquecimento, só e só que é tão pouco, por não conseguirmos lidar com a sua dimensão de grandeza...

Acho que deixou um legado de poesia tão bonita.


insinceridade

quis-nos aos dois enlaçados
meu amor ao lusco-fusco
mas sem saber o que busco:
há poentes desolados
e o vento às vezes é brusco

nem o cheiro a maresia
a rebate nas marés
na costa de lés a lés
mais tempo nos duraria
do que a espuma a nossos pés

a vida no sol-poente
fica assim num triste enleio
entre melindre e receio
de que a sombra se acrescente
e nós perdidos no meio

sem perdão e sem disfarce,
sem deixar uma pegada
por sobre a areia molhada,
a ver o dia apagar-se
e a noite feita de nada

por isso afinal não quero
ir contigo ao lusco-fusco,
meu amor, nem é sincero
fingir eu que assim te espero,
sem saber bem o que busco.

Vasco Graça Moura,
in "Antologia dos Sessenta Anos"

jp disse...

vasco,está perdoado! certamente será bem recebido, por todos aqueles que nos fizeram miseraveis durante muitos anos!

Unknown disse...

Comovente, vindo de um defensor do AO. Chama-se respeito. E quem respeita merece ser respeitado.

Leia-se e partilhe-se o texto. Respeitosamente.

Ana Mendes da Silva