segunda-feira, 28 de abril de 2014

"Primeiro de maio vermelho"


                     Foto de uma parede na praça da Alegria, em Lisboa (27.4.14)

Hoje, vistas as coisas à distância, tudo nos parece ridículo, mas, há 40 anos, a ameaça feita pelo MRPP (Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado) de fazer um "1º de maio vermelho", com alguma possível violência à mistura, assustou o Movimento das Forças Armadas (MFA). Alvo crescente da repressão policial, o MRPP fora já responsável, nos meses antes de Abril, por algumas ações de rua, dedicadas à luta contra a guerra colonial, com confrontos relativamente fortes.

O anúncio dessa movimentação no Dia do Trabalhador havia sido feito ainda antes do 25 de Abril, mas todos estávamos conscientes que os "eme-erres" haviam interpretado o golpe militar como um mero rearranjo de "forças da burguesia", sem qualquer impacto nos "interesses profundos das classes trabalhadoras". E o facto de insistirem em organizar uma forte movimentação no dia 1 de Maio, não obstante ter entretanto ocorrido o movimento democrático do 25 de Abril, não sossegava alguns militares.

Não cabe aqui, por ora, fazer o historial do MRPP, um grupo criado em 1970 e com uma génese diferente da dos restantes movimentos que, em Portugal, se reclamavam do maoísmo. Muito ativo no meio académico, com particular expressão em Lisboa, dispunha de uma simpatia clara em sectores da imprensa, bem como em algumas estruturas sindicais de serviços. Conhecido por um grafismo colorido, que se espalhava por folhetos, jornais clandestinos e por muitas paredes, o MRPP era, visivelmente, a principal força política que não saudara a Revolução.

A circunstância de ter o Partido Comunista Português como um alvo prioritário da sua ação, antes e após o 25 de abril, levaria algumas forças bem mais conservadoras a ver o MRPP com alguma simpatia tática, que ficou bem patente nos primeiros anos da Revolução de abril. A posterior evolução política de alguns antigos membros do MRPP viria a provar que essa aliança tinha também algo de potencialmente estratégico. 

Mas voltemos ao 1º de Maio de 1974. O ambiente de confiança que o 25 de abril criara no país poderia ser afetado, na perspetiva de alguns dos militares por ele responsáveis, se acaso o MRPP viesse a promover algumas ações violentas. A confiança pública na Revolução e a própria estabilidade que o país pretendia projetar externamente poderiam ficar em causa se viessem a ocorrer incidentes graves. Que fazer, então? Talvez  seja difícil de acreditar nos dias de hoje - depois do que efetivamente se passou em Portugal, no dia 1º de maio de 1974 - mas uma ideia inicial, que chegou a ser pensada em meios militares, foi tentar encontrar uma maneira de evitar que os portugueses saíssem de casa nesse dia... 

Com o objetivo de tentar discutir a utilização da RTP com esse objetivo, um determinado setor do MFA convocou uma reunião para a Escola Prática de Administração Militar (EPAM), no dia 27 de Abril. Nela reuniu um impressionante grupo de intelectuais, num "brainstorming" chefiado pelo capitão Teófilo Bento, que interinamente chefiava a televisão, com António Reis e eu próprio a acolitá-lo. Pela sala espalhavam-se figuras como Luís de Sttau Monteiro, Mário Castrim, Luis Francisco Rebelo, Álvaro Guerra, Manuel Jorge Veloso, Manuel Ferreira, Adelino Gomes, Orlando da Costa e creio que cerca de duas dezenas mais de figuras cimeiras da nossa vida cultural e jornalística (ficarei muito grato a quem puder ajudar a completar esta lista).

O debate foi longo, as propostas choveram sobre o modo como a televisão podia vir a ser utilizada para "trabalhar" os primeiros tempos da Revolução. Porém, a ideia de a tornar um instrumento para evitar a saída às ruas no 1º de maio foi, ao que me lembro, rapidamente abandonada. Era, de facto, uma mera questão de bom senso...

Para a história, convém apenas notar: o MRPP lá comemorou, a partir do Rossio, o seu "1º de maio vermelho". Com muitos slogans e sem violência. E o 1º de maio de 1974 acabou, para todo o Portugal, por ser uma coisa bem diferente, como todos recordam.

(Adaptação de um post publicado neste blogue em 27 de abril de 2010)

7 comentários:

domingos disse...

A evocação do velho MRPP faz-me recordar um slogan da época que era mais ou menos assim (não consegui encontrar o panfleto que guardo no meu arquivo): " Acredita o Povo que só por botar um pedaço de papel numa caixa de pau consegue mudar a situação?"

patricio branco disse...

faziam parte do folclore politico, ainda deve existir por aí uma sede com alguns militantes saudosistas e nostalgicos...
não era durão barroso que foi do partido quando estudante, desse ou doutro semelhante?
creio que o mrpp ainda teve um deputado eleito, rapaz inteligente que depois se passou para o ps e já faleceu.
pois no rossio se fez a marcha vermelha...

Anónimo disse...

Andava eu em duas instituições do ensino superior em Lisboa,ISPA, e Filosofia, quando militando noutas esquerdas fui tocado pela FEML(federação dos estudantes marxistas leninistas).
O trabalho feito pelo MRPP nessa altura foi por demais relevante.
Não fora a prisão de centenas de militantes efetuada pelo copcon de Otelo com o aval político de Soares então Primeiro Ministro e talvez o nosso querido país fosse outro.
Registo com muito agrado as referências que nos últimos tempos têm sido feitas aqui ao MRPP.

Anónimo disse...

O anónimo das 20.28 escreveu tambem que a honestidade política, inteletual e moral do Sr. Embaixador Francisco indicia que ainda há referências neste nosso amado país.

Com os melhores cumprimentos.

Guilherme.

Anónimo disse...

Sim senhor, o agora anafadinho Durão era, nessa altura, um duro MR. Conta.se até, que certo dia apareceu na sede do partido, com um grande maple "fanado" na embaixada de Espanha e que o Arnaldo,o grande educador, lhe deu um valente raspanete e o obrigou a devolver o saque.

c.lameiras disse...

Duas ou três Coisas?
Não serão duas nem três, apenas UMA coisa:
Se não se tem dado o golpe militar, em 1974, tal como em anos anteriores, teria havido uma e só uma jornada de luta no 1º de Maio, em Lisboa e outras cidades do País.
Apenas aquela que já estava convocada antes do 25 de Abril, pelo MRPP: o PRIMEIRO DE MAIO VERMELHO!
Dizia a convocatória: O 1º de Maio é dia de Luta na Rua! Todos ao Rossio!
Esta atitude de firmeza e combate, foi sempre a pedra de toque que diferenciou o MRPP das restantes organizações políticas antes e depois do 25 de Abril, e por isso sempre acicatou contra si todos os ódios da classe dominante. Não podia ser de outra forma.
O resto é uma ridícula tentativa de reescrever a História, com um conjunto de efabulações, distorções e provocações, que não merecem da minha parte qualquer outro comentário.

Anónimo disse...

Ao anterior comentário (C.Lameiras) e passado um ano, só quero dizer, que embora sendo ainda menino e moço, antes de 25 de Abril, só conheci presos pela pide os militantes do M.R.P.P. e por isso ter aderido ao partido no inicio de 1973 e após a morte de Ribeiro Santos pela pide.
Para confirmar o dito por C.Lameiras, sou do concelho de Marinha Grande e antes do 25 de Abril, o unico partido a convocar o 1º Maio Vermelho para a praça Stephens (Marinha Grande, não era só em Lisboa), foi o M.R.P.P., tendo a certeza absoluta do que digo, porque estava acordado de ser eu a transpofrtar a bandeira da foice e martelo do M.R.P.P., sabendo que iria ser preso, mas também sabendo que de mim (assim como todos os militantes do M.R.P.P.) a pide nada iria saber.