sexta-feira, 11 de abril de 2014

Palhaçada

Não gosto muito de usar estes termos para uma data a que estou ligado afetivamente, mas acho que a polémica que se está a criar em torno da comemoração dos 40 anos do 25 de abril ameaça converter, uma vez mais, uma evocação que deveria ser festiva numa triste romaria de discursatas, com aproveitamento oportunista por todos, para efeitos políticos de conjuntura. Continuo a pensar o que sempre pensei: o 25 de abril deveria ser comemorado como uma grande festa popular, como uma elegia à liberdade, com o povo na rua numa grande celebração coletiva. Sem um único discurso.

O que, uma vez mais, vai acontecer em São Bento é uma espécie de "assembleia geral" anual do 25 de abril, com os vários "accionistas" a fazerem uma avaliação do "relatório e contas" apresentado pela administração de plantão. Cada um fará o seu "número", uns aproveitando o ensejo para denunciar os "desvios" ao "espírito" de abril, outros tentando passar por entre os pingos das críticas, disfarçando mal a forma como historicamente sempre conviveram com o significado da data. Como há uma eleição à porta, o ensejo irá funcionar como um despudorado tempo de antena de campanha, com os tenores escolhidos a preceito, tentando tirar efeitos cénicos para conquista de prosélitos, para o voto que aí vem.

Os "media" do país europeu com mais canais televisivos de "informação" explorarão, até à exaustão, as "nuances" e as contradições dos adjetivados pronunciamentos, a começar pelo penúltimo texto a ser lido na ocasião pelo ocupante de Belém, que é sempre um "must" na exegese da maratona declaratória da data. De passagem, ouvirão os ex-capitães, todos bem cravados ao peito, irados como lhes compete com a retirada da sua palavra na cerimónia, alguns remoendo patéticas ameaças de um "remake". Os da esquerda mostrarão a sua "indignação" com essa injustiça, os do "outro lado" ("esquerda" assume-se, "direita" esconde-se; por que será?) desvalorizarão o facto, com o argumento de que ninguém é "proprietário" da Revolução - também não lhe chamarão assim, claro, em especial não utilizarão a maiúscula.

Ao final do dia, aquela que deveria ser uma festa da liberdade, acabará transformada num gigantesco "Prós e Contras", com Fátima Campos Ferreira substituída, sem especial vantagem, por Assunção Esteves. Depois queixem-se de que as novas gerações se sentem cada vez mais desligadas do 25 de abril!

22 comentários:

Alcipe disse...

Eu vou para a rua se aí estiver.

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Alcipe: se vier a Lisboa, escolha uma sem buracos, nesta cidade que pede meças a Serajevo ao tempo dos bombardeamentos sérvios.

Alcipe disse...

Tss, tss… só má vontade com o nosso edil! As ruas de Lisboa estão óptimas, claro-

Francisco Seixas da Costa disse...

Há já um GPS para avisar dos buracos.

fatima MP disse...

Touché!, Embaixador!

zpf disse...

Difícil escrever e pensar melhor! De um lado, uma irritante criatura que, com a sua permanente postura, só contribui para que, para muitos, o 25 de Abril não passe de uma simples "palhaçada" (passe a expressão); do outro, uma tontaça que ainda não percebeu onde e quando vive. Enfim… uma tristeza!

Anónimo disse...

Lisboa parece-se apenas com Sarajevo de há uma década por se ter transformado numa sociedade em transe com reacções epidérmicas a propósito de tudo e de nada. Quando por lá passei vi um povo claramente afectado pelo drama do trauma da guerra. Lisboa não viveu uma guerra mas um rolo compressor quotidiano da auto-estima e do amor próprio. Eu não quis acreditar no que li relatado por Alexandra Lucas Coelho sobre o enxovalho e a deselegância do secretário de estado da Cultura na entrega de um prémio. Não é apenas um país em transe que explica o inaudito, é ter-se dado o poder a uma geração de garotos mal preparados e descomprometidos com a cidadania. Que as eleições para o Parlamento Europeu permitam dar uma sova a estes governantes. Amén.

Anónimo disse...

caro embaixador

buracos ha por todo o pais,
monetarios e afins...

e bombardeado em lisboa, so de turistas...




patricio branco disse...

uma palhaçada, de facto, exemplarmente em frança têm a alegria popular do 14 juillet e nos eua a do 4 de julho, aqui um acto falsamente pomposo com uns discursos bafientos, com 2as intenções, à porta fechada, etc

ao menos não tiraram ainda o feriado, mas atenção em lisboa aos buracos...

Anónimo disse...

Há uma parte que deve ser festa tipo santos populares. Depois do almoço…
Mas deveria começar por cerimónias de Estado (de um Estado respeitável) … (Parece que estou completamente desactualizado… mas, não! Continuo a gostar muito de coisas bonitas!).
antonio pa

Defreitas disse...

Ah, Senhor Embaixador , a "Revolução de Abril", ou a revolução vitoriosa contra um poder reaccionário desviada pelos" habilidosos" .

Os habilidosos que se concederam a si mesmos a qualificação de homens de Estado, de tal maneira que estas palavras, homens de Estado, acaba por ser um pouco de calão ! Porque não esqueçamos que onde há habilidade há necessariamente pequenez ! Visto de longe, esta é a impressão que me deixa a estatura dos homens de Estado Portugueses! Mas também os há "ailleurs" ! Dizer os habilidosos, equivale a dizer os medíocres.

Como dizer homens de Estado, equivale também por vezes a dizer traidores. Traidores à Revolução.
Assim pensei, quando assisti, de longe, ao retorno rápido das grandes famílias de proprietários de Portugal , os mesmos de antes e de hoje. A Revolução foi como uma artéria cortada ; era preciso uma ligadura rápida para tratar o doente! O direito uma vez restabelecido, afirmado pelos políticos, era preciso reforçar o Estado. Uma vez a liberdade assegurada era preciso pensar no Poder. Os habilidosos preparavam-se.

Pena foi que ninguém tivesse martelado suficientemente o que era o Poder e donde vinha.

Os habilidosos não entendiam a objecção murmurada por um certo numero e lá foram continuando a manobra. O povo, depois da Revolução, precisa de paz e de tempo para sarar as feridas e reparar a casa! Não "vê" a manobra que se prepara. A Revolução parada no meio da subida! Depois de ter feito crer num ideal, feito de justiça e direito, cortaram os ângulos e limaram as unhas. Metade de progresso e metade de ilusão. Colocaram uma espécie de abat-jour na revolução.

Quem pára as revoluções no meio da ladeira? A burguesia. Porquê? Porque a burguesia é o interesse privado chegado à satisfação. Ontem era o apetite, hoje a plenitude, amanhã será a saciedade. Alguns pensam que a burguesia é uma classe. A burguesia é muito simplesmente a porção satisfeita do povo. O burguês é o homem que tem agora o tempo de se sentar. Uma cadeira não faz uma casta.

E ao nível mundial nem falemos. Um estudo saído ontem na TV francesa mostra que 67 famílias possuem tanta riqueza como metade do planeta ! Mas apressados de quererem sentar-se cedo demais, podem entravar a marcha do género humano. Mas eles não pensam nisso!

"Estes nababos detestáveis, com a insaciável avidez que os caracteriza partilham entre eles o que poderia bastar para todos". Assim falava Thomas More em 6 de Julho de 1534, antes de ser decapitado, denunciando assim o nascimento do capitalismo. O mal é portanto histórico.

No mundo de hoje há muitas revoluções desviadas, roubadas . O objectivo das revoluções é por vezes nobre. Destruir a miséria e assegurar a liberdade , entre outros.

Se alguém fizesse um discurso em Belém, afirmando que a miséria pode ser destruída , provocaria sarcasmos e protestos dos habilidosos satisfeitos presentes.

A miséria é uma doença do corpo social como a lerpa é uma doença do corpo humano.

Sim, um outro mundo é possível.

Anónimo disse...

Parece-me uma análise certeira, com as consequências muito bem identificadas no último parágrafo.
João Vieira

Anónimo disse...

O problema é que estas cerimónias são apenas discursos sempre a dizer o mesmo e já só assiste quem a isso é obrigado.
Daqui a pouco acontecerá no 25 de Abril o mesmo que no 5 de Outubro, apenas um hastear de bandeira e umas romagens aos cemitérios.

Anónimo disse...

"A História não perdoa, repete-se inexorávelmente, ao longo dos séculos".....os palhaços é que mudam nos circos.

Alexandre

Helena disse...

Na "mouche". Totalmente de acordo.
Helena

Anónimo disse...

Nem mais! Subscrevo.
Lourenço

Anónimo disse...

Um texto a merecer 20 valores! Palhaçada! Não haveria melhor título para esta narrativa. Os meus parabéns!!!!

Isabel Seixas disse...

Que barómetro de perspetivas encorajadoras para festejar o florescer do direito à autodeterminação e dignidade.

Parece a meteorologia dos sustos com borrasca de castigo face à aparição de personagens lá do purgatório...

Cirque brouillard...

Mas podemos sempre encenar un cirque du soleil...

Ó Abençoada liberdade

Anónimo disse...

Mesmo não sendo politizado fico surpreso com as comemorações dos 40 anos do 25 de Abril. E ainda não mudámos de regime. O que será no dia em que mudarmos.....

Portugalredecouvertes disse...


penso que devemos todos ir a um espetáculo, um evento cultural de qualidade, visitar um monumento, passar um feliz momento com amigos, muita gente junta-se para um petisco
há muitas maneiras de comemorar o 25 de Abril, temos essa liberdade

Angela

Anónimo disse...

Pior ainda são os palhaços que nem sequer sabem o que foi o 25 de Abril. Esses si, é que são uns palhaços! Se não fosse o 25 de Abril esses palhaços não falavam, não comentavem neste blogue, e ainda andavam com as patas no chão, no chão da Ditadura. Agora se é comemorado na rua, ou na A.R é-me indifente, desde que se comemore. Para que os palhaços que desprezam o 25 não se esqueçam que ele se fez para os palhaços que são contra o 25 de Abril o poderem ser, a par de outros que não são palhaços e não se esquecem dele. Um raio que parta todo aquele palhaço que despreze ou tente fazer esquecer o 25 de Abril. Como os palhaços que gostam de o denegrir ou tentar esquecer. Ou pior que nem sabem o que foi. Palhaços que merecem desprezo.
O Palhaço de Circo

Anónimo disse...

"Má ideias e opiniões tão obviamente idiotas que é preciso ser-se um intelectual para se acreditar nelas"

George Orwell

Alexandre