terça-feira, 29 de abril de 2014

O sorriso do Álvaro

São tantos os mortos! Passam os dias e não passa quase um dia sem que não sejamos surpreendidos pela morte de alguém que conhecemos. Um amigo dizia-me que, num mesmo dia, fora a três missas celebrando a morte (ou a passagem do sétimo dia da morte) de alguém. Isto está a ficar pela hora da morte, podia dizer-se, se tivesse graça.

Ontem, olhava as notícias da desaparição de Vasco Graça Moura quando uma cara risonha, na fotografia de um jornal, chamou a minha atenção. Era um homem de riso aberto, franco, por detrás do qual pressenti as gargalhadas que esse mesmo sorriso sempre coroava. Era o Álvaro Garcia de Zúñiga. Tinha sido enterrado nessa tarde.

Conhecemo-nos em São Paulo, há já uns bons anos. Era uruguaio, mas o mundo era a sua terra de adoção. Com a Teresa, com o registo mais sereno da Teresa, o Álvaro fazia um par curioso, ele mais histriónico e agitado, de quem busca sempre o mundo, como se ele sempre lhe fugisse. Ela num rodopio de projetos, sempre a caminho de. Encontrámo-nos depois por aí, em alguns sítios do acaso, quase sempre sem nunca termos combinado nada. A última vez, lembro-me, foi em Paris, onde ele e a Teresa nos convidaram para um debate, creio que num convento próximo da Gare du Nord.

O Álvaro era encenador, escritor, músico. Era um homem cheio de ideias, culto, criativo. Com o seu eterno sorriso e o seu português pedido de empréstimo, ele para quem as línguas eram um instrumento de cuja mistura fazia nascer as coisas, transmitia sempre uma boa onda, com a Teresa a seu lado, no seu sorriso giocôndico, procuradamente sereno. Agora, a terra fugiu debaixo dos pés à Teresa, como alguém dela me dizia, há poucas horas. Onde? Num velório, claro!

O nosso abraço sentido, Teresa.

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