quarta-feira, 23 de abril de 2014

O lapso de Pacheco

José Pacheco Pereira é um historiador de mérito do movimento operário português. Além disso, é um celebrado observador da nossa vida política, qualidade em que se tem revelado um prolixo articulista e comentador. Oriundo da extrema-esquerda maoísta, transitou pela chamada "esquerda liberal" antes de aportar, sem surpresa, ao regaço do PSD. Por aí se manteve, sempre num registo algo inconfortado. Conheci-o nos tempos em que passou pelo Parlamento europeu. Nos últimos anos, tendo-se afastado da linha da atual liderança do seu partido, enveredou por uma linha fortemente crítica da maioria no poder. Servido por uma indiscutível inteligência, tem sido de uma bela eficácia na desmontagem do poder que temos. Para alguma esquerda, depois de ter sido um ódio de estimação, tornou-se hoje numa coqueluche: faz, por vezes, o trabalho de crítica que ela própria parece não ser capaz de fazer, com a credibilidade muito original de quem vem "do outro lado". Faz parte dos "novos camaradas", uma raça política que dá imenso jeito e é politicamente barata.

Por ocasião destes 40 anos do 25 de abril, e como colecionador reconhecido da iconografia da Revolução, Pacheco Pereira foi encarregado pela Assembleia da República de organizar uma exposição sobre cartazes políticos. Dizem-me que é uma boa mostra. De passagem, incumbiram-no ou incumbiu-se de criar um painel onde colocou 200 e poucas personalidades que, no seu entender, marcaram politicamente estes 40 anos. 

Pacheco fez a seleção que o seu critério pessoal ditou. 200 pessoas é muita gente, mas é seguramente menos do que seria desejável. Devem falhar, com toda a certeza, algumas pessoas. Mas por lá estão, naturalmente, Carmelinda Pereira e Cabral Fernandes, figuras ímpares do trotskismo luso, que abalaram politicamente estes últimos quatro decénios. Alguns incontornáveis ícones de abril, como Etelvina Lopes de Almeida ou Amândio de Azevedo, não escaparam à memória seletiva de Pacheco. Expoentes resgatados em boa hora ao opróbrio do anonimato como Mariano Pires (não me diga que não sabe quem é?) ou Manuel Cabanas, por aí se consagraram no paredão da glória. E, claro, como não podia deixar de ser, por lá estão, com indiscutível espaço, Soares, Eanes, Sá Carneiro, Freitas, Kaúlza, Spínola, Otelo, Guterres, Gama e tutti quanti.

Estão todos? Não. Neste seu rigoroso critério de probo historiador, Pacheco "esqueceu" Jorge Sampaio, que "apenas" foi presidente desta República durante 10 dos seus 40 anos, líder do movimento estudantil de 1962 que abriu o caminho à última década da revolta contra a ditadura, presente desde então em todas as lutas contra o Estado Novo.

Lapsos qualquer um tem, não é?

PS - e agora, algumas semanas passadas, o lapso foi corrigido: Jorge Sampaio integra 50 nomes complementares.

13 comentários:

Isabel Seixas disse...

Talvez seja melhor aconselhar o senhor a consultar o médico de família para lhe pedir um TAC.

ié-ié disse...

Boas!

Já fui ver a Exposição! E, para dizer a verdade, a única coisa a que não prestei atenção foi exactamente aos 200 nomes!!!

Já sei que é sempre obra de polémica e até com laivos de subjectividade!

Vou cometer uma inconfidência:

Para um trabalho, aqui há uns meses, talvez 3/4, pedi a um dos mais importantes capitães de Abril que me me conseguisse obter uma lista dos militares de Abril que, de uma maneira ou de outra, tivessem participado na nossa gloriosa Revolução (não tem nada a ver com o Benfica, felizmente!)!.

Ó pá, nem pense nisso, nisso! foi a resposta que obtive...

Por isso, quanto a nomes... estamos conversados...

Quanto à Exposição, que gostei, tenho alguns mas...

Tenho alguns pontos que gostaria de mais bem esclarecidos.

A exposição fotográfica, propriamente dita, é paupérrima!

Não há a festa das ruas, não há chaimites, não há tanques, não há cravos, não há povo, não há forças armadas... n~zo há FestA!!!!

E depois dizem-me, com o maior do ar vontade - que não há fotos da liberta~ção dos presos políticos em CAXIAS.

Fiquei para morrer... e caí-lhes em cima...

A exposição dos 106 cartazes do Pacheco Pereira é muito boa, mas gostaria de lá ter visto o icónico poster da libertação de Arnaldo Matos...

E não encontrei ninguém que me pudesse identificar as assinaturas dos primeiros diplomas da Junta de Salvação Nacional.

Mas, claro, a Exposição merece ser visitada e criticada.

Antes isto que nada...

Luís Pinheiro de Almeida

Anónimo disse...

Eu também me esqueci de Sampaio como PR. Pessoa de fino trato, corretissima no plano pessoal, impoluta, detentor de um passado cívico de coragem e exemplar, a sua passagem por Belém decepcionou-me a mim como socialista. Pode e deve reconhecer-se o seu sentido de independência que manifestou ao demitir Armando Vara ou Santana Lopes. Sempre achei o seu verbo e o seu discurso demasiado abstracto, elitista, longe dos cidadãos e por vezes incompreensível. Nunca consegui ultrapassar a péssima impressão de alguns dos seus colaboradores mais directos jactantes e deslumbrados com o poder, com um comportamento e uma altivez típica da direita, embora assessorando um Presidente eleito por uma maioria de esquerda. E ficou-me sempre a dúvida se era Jorge Sampaio que os não conhecia bem ou se, na realidade, eles acabavam por contar mais que o próprio Presidente. Uma certeza fiquei: com Soares os seus colaboradores mais directos teriam andado mais mansos e com menos protagonismo. Por isso, no caso de a esquerda regressar a Belém prefiro francamente a natureza chã de Guterres, embora respeite a projecção internacional de Sampaio e a sua postura cívica. Não terá o meu voto.

patricio branco disse...

jorge sampaio foi e é uma figura do antes, durante e depois do 25 de abril, curioso lapso ou falta, ainda poderia corrigir se quisesse.
o actual pr não está na lista, espero. só muitos anos depois se revelou.
claro que não pode estar tudo na exposição, mas sampaio não podia ficar de fora na verdade

Anónimo disse...

Pois… também já tinha notado! Mas seria bom que PP se explicasse - será que o fará?!
E, já agora, talvez lembrar os dois nomes que foram "apresentar" o 25 de Abril à ONU…

Anónimo disse...

Gostei da definição do estado de "coqueluche" em que Pacheco Pereira hoje se encontra. Estou plenamente de acordo. Parece que regressou aos velhos tempos do maoismo. Quando o PS ganhar as eleições, será o bombo da festa do P.P.... Também gostei das palavras "solenes" do Prof. Freitas sobre o elogio do 25 de Abril há dias num encontro, julgo que num teatro. Os tiques marcelistas na forma como debitou as suas teses, eram por demais evidentes.
José Amador

Anónimo disse...

O seu reparo sobre a omissão de Sampaio tem toda a razão e partilho-o sem quai sauver reservas. Mas insurjo-me com indignacao contra o modo displicente como trata as diferentes tendências da gloriosa IV Internacional! As marcas estalinistas custam a passar! Viva o camarada Leon David Bronstein, abaixo os blogs picaretas...

a) Feliciano da Mata, militante pablista

Joana Lopes disse...

Ninguém esquece um ex-PR «por lapso»... E JPP até já veio explicar outras ausências, sem referir JS. Acabará por ter de o fazer.

(Para além do mais, julgo que caiu numa armadilha que ele próprio criou: a peregrina ideia de criar uma lista!)

Anónimo disse...

Agora sim, acredito no "Milagre das Rosas", Freitas do Amaral de cravo na lapela. Bem haja !

Alexandre

Anónimo disse...

Eu sei quem é Manuel Cabanas. Muita gente também sabe quem é.
O Senhor não?
Lina

Anónimo disse...

Concordo. É preciso má fé para esquecer um Presidente que chora e que, em Portugal, tem de ser chamado à atenção para falar em Português...

Anónimo disse...

Uma lista é sempre uma opção. Pacheco foi sempre um homem de opções.
Todos os protagonistas são passíveis de serem venerados ou ostracizados.
O célebre passeio pela av. da Liberdade pode ter levado às ostras da Ribadouro.

Silva.

Francisco Seixas da Costa disse...

Cara Lina: lendo este blogue, com certeza que não acredita que eu não sei quem é Manuel Cabanas. Da mesma maneira que percebeu o que eu quis dizer e "fez de conta"