quinta-feira, 10 de abril de 2014

O "22 de Paio Pires"

Há dias, num debate, tive uma ideia "peregrina": falar do "22 de Paio Pires". Havia uma boa razão para isso: estava a tomar a palavra perante um auditório da localidade de Paio Pires. Mas que diabo é o "22 de Paio Pires", perguntarão alguns? Pois é, leitor, foi pela certeza de que a esmagadora maioria do auditório de Paio Pires, ao qual eu falava, não fazia a mais leve ideia do que era o "22 de Paio Pires" que decidi não abordar o tema. Esta é, portanto, desculpem lá!, uma histórieta sobre um "não evento".

O "22 de Paio Pires" foi um divertidíssimo "sketch", interpretado por um ator de que a maioria dos leitores deste blogue também nunca ouviu falar: Humberto Madeira (1921-1971). Madeira tentava ligar para o número de telefone 22 da localidade de Paio Pires e, sequencialmente, saiam-lhe à linha uma diversidade de interlocutores errados, o que tornava a conversa hilariante. 

Falo disto pela circunstância, que cada vez mais me acontece, de ter de cuidar, em conversas ou intervenções públicas, em escolher referências que possam ser entendidas pela generalidade das pessoas presentes. Sei que isto é claramente uma questão etária, mas confesso que começa a ser angustiante ter de olhar em volta, medindo o conhecimento médio do auditório, antes de citar um facto, um autor ou fazer uma graçola com base numa citação.

Tempos atrás, comecei a contar num grupo de jovem colaboradores uma história relacionada com Pedro Moutinho, uma das mais populares figuras da rádio dos anos 40 a 60. Conheci Moutinho bastante bem, já depois do 25 de abril, em circunstâncias curiosas - mas só relevantes em função do conhecimento do passado de Pedro Moutinho. Ele deixara de ser locutor e fora mesmo algo hostilizado pelo regime democrático. A certo passo da minha narrativa, pela cara dos presentes, dei-me conta de que estava a fazer verdadeira "geometria no espaço". Ninguém ouvira alguma vez falar de Pedro Moutinho, pelo que a minha historieta pessoal com este último não tinha, aos seus ouvidos, a menor relevância. Os sorrisos simpáticos que dedicavam ao que lhes dizia relevavam mais de uma piedosa tolerância do que de uma genuína atenção. Aprendi a lição. 

Talvez por isso, abstive-me de contar o episódio do "22 de Paio Pires". Mesmo em Paio Pires. 

12 comentários:

Anónimo disse...

Experimente falar dos clássicos do cinema português a gente na casa dos vinte anos. "Pai Tirano", "Pátio das cantigas", "A canção de Lisboa"? Enquanto eu me rio contando as piadas, eles olham para mim com ar espantado...

Anónimo disse...

Humberto Madeira foi talvez a primeira pessoa que eu soube ter morrido de cancro no IPO. Eu era um miúdo de 12 anos e lembro - me de ter perguntado aos meus pais o que era cancro e o que era o IPO. Salvo erro, fazia uma parelha com Francisco Nicholson.

Quanto a Pedro Moutinho, lembro - me que apresentava o programa TV Mundo na RTP, até ao 25 de Abril. Era casado com Maria Leonor, popular locutora da rádio e da televisão. Pedro Moutinho foi, a par com a " sélection hebdomadaire" do Monde e o Paris- Match, que o meu Pai assinava, um dos meus primeiros informadores do que se passava fora de Portugal. No caso de Pedro Moutinho bastante "biased". Às vezes, nem o Monde nem o Match chegavam às nossas mãos porque ficavam retidos noutras mas Pedro Moutinho estava lá sempre.

Obrigado Francisco por me ter provocado estas reminiscências, que me trouxeram ainda outras memórias, tipo Madeleine de Proust, guardadas as devidas proporções.

Peço - lhe que me corrija se estiver errado em algumas das coisas que escrevi acima.

Um abraço do JPGarcia

Anónimo disse...

este comentário vem muito a propósito das recordações do 25 de Abril que são tão actuais como as que eu lembro de achar em relação às comemorações dos quarenta anos do 28 de Maio, das dos cinco de Outubro e da batalha de La Lys: uma bizarria de velhotes!
João Vieira

Anónimo disse...

Pedro Moutinho não foi popular somente até aos anos 60. Ele era a cara do Telejornal principal da RTP (às 8 da noite) alternando com Henrique Mendes

Mônica disse...

Francisco. Eu também tem hora que falo prss paredes. Ninguém entende ou sabe do que ou de quem estou falando. Ainda bem que não e só comigo que acontece destas coisas. Mas a minha situação é só entre familia. Numa palestra. Deus nos livre! E s você também. Com carinho Mônica

Anónimo disse...

Desculpe o incómodo, mas é melhor começar a intervir em casas de repouso.....


Alexandre

Defreitas disse...

"e da batalha de La Lys: uma bizarria de velhotes! " , escreve o Senhor João Vieira!

Qualificar de "bizarria de velhotes" a comemoração da Primeira Grande Guerra , sobretudo neste ano de 2014, um século depois, com o seu cortejo de 9 milhões de mortos e 20 milhões de feridos é , pelo menos , inconveniente. Três membros da minha família participaram nesta hecatombe. Não é de nenhuma maneira uma "bizarria" de recordar o sacrifício de tantos!

patricio branco disse...

humberto madeira, um dos classicos da revista do parque mayer, juntamente com antónio silva, costinha, max, viana, salvador e actrizes.
talvez tivesse algum sentido, no próprio local, falar dos sketches, mesmo a novas gerações.
pedro moutinho era um senhor da radio e televisão, locutor apresentador com personalidade, voz, figura e caracter

José Teles disse...

Em França pela mesma altura havia o "22 à Asnières" do saudoso Fernand Reynaud, que continuava a passar de vez em quando nas rádios quando lá estive. O sr embaixador nunca ouviu? Aqui tem: http://www.youtube.com/watch?v=nkSYLi2N9zs

Helena Sacadura Cabral disse...

Meu caro Francisco
Faça como eu: não se rale. Explique-lhes que a sua sorte foi ter conhecido "essa gente". Humberto Madeira, António Silva, Amarante, Mirita Casimiro, Igrejas Caeiro, Rey-Colaço, Hermínia ou Amália. E que nenhum deles sabe se viverá tanto como o meu amigo e se terá tanto para recordar...
Por mim, massacro os "meus" familiares mais jovens, com os meus ídolos e vou aprendendo quem são os deles.
Assim, todos gostamos do António Variações. É a vida, como o meu amigo costuma dizer!

Anónimo disse...

Recordo Pedro Moutinho como um excelente jornalista da RTP. Casado, durante algum tempo, com a também excelente jornalista da RTP, Maria Leonor. Fazendo um aparte a esta Senhora, deixaria a "um canto" todas estas jornalistas atuais de todas as nossas TVs destes tempos, algumas delas que nem Português sabem...

Anónimo disse...

Pior que isso tudo ,é o reboque da EMEL Tambem fui vítima há dias...É a vida.

Um abraço leonino.

Silva.