sexta-feira, 4 de abril de 2014

Kumba Ialá

Morreu Kumba Ialá, antigo presidente da Guiné-Bissau.

Um dia de 2001, na ONU, em Nova Iorque, estive presente, em representação de Portugal, numa reunião do grupo "amigos da Guiné-Bissau". O novo presidente guineense fora convidado a fazer uma apresentação sobre a situação no seu atribulado país, com vista a mobilizar a boa vontade e a ajuda da comunidade internacional. O tempo que lhe fora destinado para intervir foi largamente excedido, mas o seu discurso tinha coerência e demonstrava uma determinação no sentido da correção de algumas políticas, tudo envolvido num registo muito típico, desde logo marcado pelo barrete de lã vermelha que nunca o abandonava.

Com o meu colega brasileiro, Gelson Fonseca (atual cônsul-geral do seu país no Porto), e para potenciar o efeito positivo da reunião, combinei duas intervenções sucessivas de apoio à declaração do presidente, procurando dar ênfase à sua expressiva vontade de mudança. Outros embaixadores, em especial de países "do Sul", seguiram uma linha idêntica e, a meio da reunião, o ambiente podia considerar-se globalmente positivo, quiçá apenas com as reticências face à sustentabilidade das políticas que algumas lideranças africanas, em especial oriundas de países mais frágeis, nunca deixam de suscitar.

O delegado de um país do Norte da Europa abordou entretanto a sensível questão da corrupção. Notei que Kumba Ialá ficou muito atento à intervenção e, no imediato, pediu para responder. Com ênfase, marcou a sua firme determinação em pôr fim ao flagelo da corrupção no seu país. E, a certo passo, agarrando firmemente o ombro da ministra dos Negócios Estrangeiros, que estava a seu lado, disse, bem alto:

- Vou ser muito duro, podem acreditar. Por exemplo: aqui a senhora ministra. Se eu vier a descobrir que ela rouba, que é corrupta, podia mandar matá-la. Mas não, não a vou mandar matar! Mas vai levar tanta porrada, tanta pancada, que nunca mais vai querer roubar. Mas ele não rouba, não! - e dizia isto, contemporizador, abanando a constrangida ministra, que afivelava um sorriso que quero crer que seria amarelo...

Kumba Ialá falava em português e, na sala, para além do embaixador brasileiro e de mim próprio, que tínhamos olhado um para o outro algo preocupados com o facto do presidente poder ter "estragado tudo" com estas palavras, creio que só a intérprete que ia traduzindo as intervenções do presidente se inteirara do teor da comprometedora declaração. Contudo, a coreografia e o tom de Ialá tinham criado uma particular curiosidade nas restantes pessoas à roda da mesa, que aguardavam a tradução.

A intérprete, consciente da delicadeza do momento, olhou para mim, em busca de "ajuda" para superar o problema. Fiz-lhe um gesto discreto, a pretender significar a necessidade de "adocicar" fortemente as embaraçantes frases do presidente. E foi então que assisti a uma magnífica demonstração de profissionalismo, com a senhora a dizer algo como: "Mr. President wants to emphasize that corruption, in his country, is not punished with death penalty. Nevertheless, under his leadership strong mesures will be taken against those who may incur in such practices, even if they are members of his own government".

Olhei para o meu colega brasileiro e demos um suspiro de alívio. No final, dei uma palavra de parabéns (e gratidão) à intérprete. Tinha-nos ajudado a salvar a sessão. Uhf!

Em tempo: quando escrevi esta historieta, estava longe de pensar que me encontraria, logo dois dias depois, num almoço, com o meu querido amigo Gelson Fonseca, com quem me ri do episódio.

12 comentários:

António Ferreira disse...

Meu caro,

coincidência, ou não: o poder dos intérpretes de fazerem a guerra ou a paz. texto mesmo a propósito da nova peça de Jacinto Lucas Pires e Tiago Rodrigues:

"É uma felicidade Portugal pertencer à UE. É uma infelicidade Portugal pertencer à UE. Em que ficamos? No limbo da dúvida, a mesma que terá assistido Joaquim, intérprete atormentado no Parlamento Europeu, protagonista de um erro de tradução que lança o caos na assembleia e muda o curso dos destinos da Europa, um continente tão à deriva como este homem, cuja redenção acena do interior profundo do seu país."

http://www.ionline.pt/artigos/mais/interpreta-angstia-joaquim-na-hora-traduzir

patricio branco disse...

um divertidissimo obituário, um comiquissimo episódio evocando o castiço senhor que foi presidente (2 vezes, creio) da gb, uma magnifica historia da vida diplomatica, um reconhecimento do profissionalismo desses interpretes internacionais, etc

Anónimo disse...

Fantástico episódio. Extraoprdinária interprete. Muito obrigado por esta partilha.

ARD disse...

Conheci bem Koumba Yalá (forma como ele próprio preferia grafar o nome). Era um personagem "haut en coleur", pitoresco e volátil, cujas histórias, peripécias e aventuras encheriam bibliotecas.
Não quero fazer aqui nenhum balanço da sua actuação.
Limito-me, à laia de epitáfio, a citar uma passagem do seu livro "Os pensamentos políticos e filosóficos" - Volume I (e único, penso): "Na época apocalíptica em que vivemos não nós salvaremos uns tantos mas todos ou nenhuns".
Na mesma obra, escreve: "a beleza de uma mulher elegante, é a atrapalhação do cabrão do macaco da indochina".

Anónimo disse...

Found in translation ...

N381111

Anónimo disse...

Poderá pensar-se numa avaliação deste episódio de uma outra maneira: o paternalismo dos embaixadores de Portugal e do Brasil e a incompetência total e arrogância da tradutora que se permite alterar o texto de um presidente.
João Vieira

jj.amarante disse...

Da minha passagem pela Guiné, de Out/1973 a Out/1974 ficaram-me, entre outras recordações, dois gorros de lã feitos na Argélia, com padrões usados com frequência por Amílcar Cabral e por uma data de guineenses. Costumo usá-los quando vou a países muito frios, por exemplo onde há neve, e continua a ser para mim um mistério como serão confortáveis esses gorros na Guiné Bissau. Alguma explicação?

Mônica disse...

Francisco eu gostei muito da diplomacia do jeitinho brasileiro( já ouviu falar)? De que a tradutora conseguiu sem mudar a história. E ainda mais que agora muitas pessoas saberão. Mas tem muita gente no dia a dia que gostam de interpretar as palavras para o mal sem ser intérprete. Fiquei pesarosa pois não sei como me lembrei muito do gorrinho deste presidente. Com carinho Mônica

ARD disse...

Talvez os haja "feitos na Argélia" mas os gorros celebrizados por Amilcar Cabral, chamados "sumbia" ou "sumbyia", são usados em toda aquela zona da África Ocidental e por várias etnias.
O gorro vermelho usado por Kumba Yalá e de que ele fez um emblema, é balanta e só pode ser usado por um "homi garandi" isto é, alguém que já tenha feito o "fanado", o ritual de iniciação que marca, simbolicamente, a entrada na vida adulta.

Isabel Seixas disse...

Ás vezes só pessoas como Paulo Freire me aliviam...



“Para a concepção crítica, o analfabetismo nem é uma ‘chaga’, nem uma ‘erva daninha’ a ser erradicada (...), mas uma das expressões concretas de uma realidade social injusta.”
(Ação Cultural para a Liberdade, 1976)
Paulo Freire


Onde quer que haja mulheres e homens,há sempre o que fazer, há sempre o que ensinar, há sempre o que aprender
Paulo Freire





“Desrespeitando os fracos, enganando os incautos, ofendendo a vida, explorando os outros, discriminando o índio, o negro, a mulher, não estarei ajudando meus filhos a ser sérios, justos e amorosos da vida e dos outros.”
(Pedagogia da Indignação, 2000.)

Os opressores, falsamente generosos, tem necessidade para que a sua "generosidade" continue tendo oportunidade de realizar-se, da permanência da injustiça.
Paulo Freire




diogo disse...

perdoe-me a leitura , sr. embaixador , mas mais uma vez , em política a mentira é elogiada e premiada .

Helena Oneto disse...

Este delicioso "relato" arrancou-me um franca gargalhada como há muito não me acontecia:):)
...
Como diz o povo "Dá Deus nozes a quem não tem dentes".
Bon dimanche, mon cher Ambassadeur!